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Empregue um refugiado

Empreendedores criam site de emprego para os que vieram ao Brasil fugindo da guerra

Henrique Calandra e Diogo Miloni, sócios da Jobs for Refugees
Henrique Calandra e Diogo Miloni, sócios da Jobs for Refugees

A imagem do corpo de Aylan Kurdi, o menino sírio de 3 anos que foi encontrado morto em uma praia da Turquia em setembro, chocou o mundo todo e reabriu o debate a respeito da política de imigração e de socorro a vítimas de guerras civis. Segundo a Organização Internacional para Migrações (OIM), 350 mil pessoas atravessaram o Mediterrâneo em busca de asilo desde janeiro deste ano. Cerca de 3 mil morreram tentando chegar à Europa, após naufrágios semelhantes àquele que acometeu a embarcação clandestina e precária que levava a família de Aylan rumo à ilha grega de Kos. Além da criança, outras 12 pessoas morreram naquele dia, incluindo o irmão Galip, de 5 anos, e a mãe, Rehan.

O drama dos estrangeiros que se lançam ao desconhecido para salvar suas vidas, deixando familiares, amigos e carreira para trás não termina quando os mais afortunados finalmente conseguem pisar em terra firme. Quando chegam em outro país e este aceita abrigá-los, as dificuldades ganham outras dimensões. É preciso começar uma vida do zero, assimilando diferenças culturais e garimpando um posto no mercado de trabalho.

Para facilitar o acesso dos refugiados a uma vaga de emprego quando recebem asilo no Brasil, o empresário Henrique Calandra, descendente de sírios, decidiu expandir a startup nascida há um ano e meio, a Wall Jobs, uma comunidade online de vagas de estágio para estudantes universitários. Desde setembro, a empresa começou a desenvolver também um site de vagas para refugiados no Brasil, a Jobs for Refugees.

O site entrou no ar no final de outubro e, desde a primeira semana de novembro, vem recebendo currículos de refugiados que entram em contato com organizações de amparo aos asilados no Brasil. Recentemente, a Jobs For Refugees vem negociando parceria com o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR), criado e administrado pela consultoria jurídica EMDOC. A PARR atua em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e o Centro de Referência para Refugiados da Caritas Arquidiocesana de São Paulo. A ideia é que os currículos dos refugiados atendidos pela organização sejam inseridos diretamente no banco de dados da Jobs for Refugees.

"O objetivo da plataforma é ajudar os refugiados nesse recomeço de vida, que é muito complicado. Às vezes a pessoa chega ao país sem sua família, sem falar outro idioma, sem pertence algum. São pessoas que perderam tudo e precisam de apoio", conta Diogo Miloni, coordenador de comunicação da empresa.

O empresário, de 26 anos, explica que recebe currículos de profissionais altamente gabaritados. "Infelizmente, nem sempre eles conseguem uma vaga em suas áreas de formação, pois há uma burocracia muito complicada na revalidação de diplomas no país e uma certa resistência de algumas empresas em contratar refugiados. O país acaba perdendo muitos profissionais gabaritados, como médicos e engenheiros, por causa disso", complementa.

Basicamente, o site de vagas para refugiados funciona como um portal de emprego tradicional. Os profissionais podem cadastrar currículos gratuitamente. Já as empresas interessadas em publicar suas vagas poderão aderir a um dos quatro planos oferecidos, cada um com uma mensalidade diferente. O modelo de negócios é o mesmo da Wall Jobs, que conta com 400 companhias cadastradas.

Mural de vagas

A Wall Jobs, empresa que deu origem à Jobs for Refugees, nasceu em 2013, da dificuldade de Henrique Calandra, recém-formado em Relações Internacionais, em conseguir o primeiro emprego. Meses depois, convidou o jornalista Danilo Miloni para a empresa, profissional que conheceu durante um projeto que realizaram juntos.

A princípio, o Wall Jobs era uma comunidade no Facebook. Hoje, a empresa administra mais de 30 grupos de emprego, segmentados por universidades parceiras.

O investimento inicial foi de 100 mil reais, capital próprio dos sócios. Há um mês, os executivos receberam o primeiro aporte de um investidor anjo, de 300 mil reais. A startup conta com oito funcionários e 400 instituições parceiras, que pagam para terem suas vagas disponíveis no Wall Jobs.

A Jobs for Refugees conta até o momento com 11 empresas parceiras, mas a meta dos empresários é de que o número de companhias cadastradas seja semelhante ao da Wall Jobs. Para fomentar os empreendimentos, a companhia recebeu um aporte de 300 mil reais de um investidor anjo. Também está fechando parceria com órgãos públicos. "Queremos oferecer cursos de especialização e de português para os refugiados", afirma Miloni. Nesses casos, o empresário planeja aproveitar a sinergia com o Wall Jobs. "Estudantes podem ministrar os cursos. Alunos de letras, por exemplo, têm estágio obrigatório. Eles poderiam participar do projeto", destaca.

Procuram-se refugiados

A Figone Burguer e Café, na Zona Sul de São Paulo, está com duas vagas abertas para refugiados este mês, ambas na cozinha. "O setor de alimentos carece de mão de obra, pois a rotatividade é enorme. Os funcionários faltam demais ou até arrumam outro emprego e vão embora sem avisar com uma antecedência mínima", afirma o fundador Marco Antonio Carboni. No mês passado, o empresário chegou a receber 30 currículos para uma vaga de copeiro que estava aberta. Agendou as entrevistas com os candidatos e todos confirmaram interesse. Mas, no dia combinado, ninguém apareceu.

Para Carboni, um estrangeiro que quer recomeçar a vida no país tende a apresentar um grau de comprometimento maior com a profissão. "A vaga não demanda qualificação. Só preciso de uma pessoa com vontade de aprender e de trabalhar seriamente. A atividade de cozinheiro é universal. Não falar português não é um problema", conta.

O executivo já empregou três refugiados palestinos cristãos, que vieram ao Brasil para acompanhar a visita do Papa Francisco, em 2013. Eles chegaram a pedir asilo no país, alegando perseguição religiosa, mas não se instalaram em São Paulo. Acabaram conseguindo refúgio em Minas Gerais. "Eles trabalharam comigo por seis meses e foi uma experiência maravilhosa. Ficavam na cozinha, mas se comunicavam muito bem em inglês e até ajudavam no atendimento a estrangeiros que passavam pela hamburgueria", diz.

Carboni destaca a burocracia na hora de contratar estrangeiros asilados. "Os palestinos conseguiram emitir um Registro Nacional de Estrangeiro (NE), mas não tinham carteira de trabalho. Tive de registrá-los por meio de uma cooperativa", conta. O estrangeiro, contudo, tem direito a todos os benefícios: fundo semelhante ao FGTS, 13º salário e um terço de férias.

Outra empresa que está contratando refugiados é a startup Jeenga, de automação de marketing. Há duas vagas de analistas em aberto, que demandam especialização em ferramentas de mídias digitais. "No Brasil há uma dificuldade grande em encontrar profissional qualificado nessa área. Chegamos a abrir as vagas para brasileiros também, mas até agora não encontramos ninguém com o perfil desejado", conta o sócio-fundador Luiz Filipe Couto, de 37 anos.

O salário de ambas as vagas é 3.500 reais. "A criatividade é a base do marketing. Nesse sentido, diferenças culturais são muito bem-vindas, pois agregam qualidades importantes ao processo de inovação", acredita Couto. A Jeenga tem dois anos de mercado e nove funcionários, dos quais um terço falam inglês. "A língua não é uma barreira para nós. O que queremos é alguém com muita vontade de aprender e conhecimentos técnicos em ferramentas como Google Analytics e redes sociais", destaca. A dificuldade de validação de diploma no Brasil também não é apontada como um entrave para o empresário. "Exigimos experiência ou um curso no país de origem, mas não um diploma juramentado. Até porque, no marketing digital as ferramentas mudam o tempo todo e o aprendizado é constante, no dia a dia", complementa.

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