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Chacina e impunidade provocam êxodo no bairro mais violento de SP

Liberdade de policiais acusados por morte de sete em de 2013 leva temor ao Campo Limpo

Márcio Behring, 36, do Campo Limpo, cogita deixar o bairro. Ampliar foto
Márcio Behring, 36, do Campo Limpo, cogita deixar o bairro.

Aparecida Lima da Silva, 38, leva a filha Emanoele, de quatro anos, no colo enquanto caminha pela avenida Carlos Lacerda, no Campo Limpo, zona Sul de São Paulo. São 18h30, e Cida, como é conhecida no bairro, acabou de buscar a menina na casa de uma tia que cuida dela durante o dia. Um grupo de policiais conversa na porta de uma loja alguns metros à frente. Ao avistá-los, a criança esconde o rosto no peito da mãe: “Eles são os anjos do mal, mamãe! Tenho medo!”

O pai de Emanoele, Almado Salgado Júnior, foi um dos sete mortos na chacina do dia 4 de janeiro de 2013, em um bar na rua Reverendo Peixoto da Silva. Entre as vítimas, estava também o rapper Laércio da Silva Grima, o Dj Lah. Na ocasião, dez homens encapuzados desceram de quatro carros e atiraram no grupo – no total, foram 57 disparos.

Dias depois, seis policiais militares do 37º Batalhão foram presos acusados de participação no crime. No final do ano passado, cinco dos PMs suspeitos foram soltos por falta de provas, de acordo com o juiz Alberto Anderson Filho. Apenas um, o soldado Gilberto Erick Rodrigues, irá a júri popular pelo crime, e seu advogado diz que apontará falha no laudo da polícia. O processo corre em segredo de Justiça, e o Ministério Público estadual informou que vai recorrer.

É a libertação dos acusados do crime que estimula Cida a se juntar, em breve, ao grupo de 17 famílias que já abandonou o bairro com medo da violência, para fugir das ameaças da polícia, ou apenas para escapar das dolorosas lembrança do crime. O único mercado da rua também fechou as portas.

“Me deu um sentimento de medo e revolta. Parece que a justiça não existe para nós”, afirma Cida. “Com eles de volta às ruas o que você faz? Não tem o que fazer... Vou mudar no final do mês para outro bairro. Não quero que minhas crianças cresçam aqui, não existe paz”, diz.  Ela conta que o filho mais velho, João, de sete anos, às vezes acorda assustado no meio da noite e sente medo quando ouve barulhos altos. "Quando vê um carro da polícia subindo a rua, se esconde. Moramos em frente o bar onde o crime aconteceu. Eles ouviram todos os disparos que mataram o pai deles.”

O lugar mais violento de São Paulo

A sombra da chacina, agora com os acusados à solta, é mais um ingrediente de tensão no bairro, o mais violento de São Paulo. Nenhum lugar na capital foi tão violento em 2014 quanto o Campo Limpo. No total, de janeiro a novembro do ano passado, 48 pessoas foram assassinadas no distrito. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, houve acréscimo de 14% no número de casos.

Fontes na Polícia Civil confirmaram que existem “suspeitas e investigações” com relação à participação de PMs em diversos crimes cometidos na região. Moradores da rua onde ocorreu a chacina relataram frequentes ameaças de policiais que passam pelo local: “Lembra o que aconteceu com o Laércio [DJ Lah, um dos mortos no crime]? Vai acontecer de novo com você agora!”

Um antecedente da chacina de 2013 contribui para o panorama. Pouco antes da matança, um cinegrafista amador flagrou cinco PMs assassinando um servente de pedreiro que, no momento da ação, já estava desarmado. O servente, nas imagens, já havia sido rendido pelos policiais (no ano passado, esses policiais também foram inocentados pelo caso).

Márcio Behring, 36, nascido e criado no Campo Limpo, também cogita deixar o bairro. “Meu filho de 11 anos perdeu um amigo assassinado quinze dias atrás. Como vou explicar isso pra ele? Como um pai fala para o filho que o coleguinha tomou cinco tiros na cara? É complicado. E o pior é que quando contei pra ele, ele não ficou chocado. Como se, apesar da pouca idade, ele já tivesse naturalizado toda essa violência, como se estivesse acostumado. Não quero isso para ele”, afirma.

Além do êxodo de moradores, outra cicatriz da chacina marca a região: 25 crianças e adolescentes ficaram órfãos. “Tem gente que fala para eles: ‘Seu pai está no céu, virou uma estrela’. Não existe antidepressivo que possa tratar este tipo de dor”, diz Doraci Mariano, de 53 anos, professor de educação física que promove projetos sociais na região. O velório do DJ Lah foi realizado na quadra de esportes de Doraci. “Não existem mais regras, ninguém respeita o ser humano. A comunidade nem tem mais como se organizar, porque sabe que a corda arrebenta sempre do lado mais fraco”, diz ele.

Brincar na rua só até as 18h

Em frente ao bar onde ocorreu a chacina – que está fechado desde o dia do crime -, Anderson (os nomes foram alterados para preservar a identidade do entrevistado), de seis anos, empina uma pipa amarela. Azulejos colocados na fachada do local disfarçam as marcas de tiro. No portão de aço pintado de azul ainda é possível enxergar os furos de bala, preenchidos com massa corrida. Sem a ajuda dos moradores seria impossível identificar o local como sendo o palco do crime.

No escadão ao lado do bar, onde o tiroteio continuou à medida em que as pessoas tentavam fugir da carnificina, as marcas provocadas pelos projéteis foram cobertas com gesso e tinta.

“Em um final de tarde de verão como esse, fazendo esse calorão, o bar estaria cheio”, diz Felipe, de 13 anos. “Tinha uma mesa de sinuca na calçada, juntavam umas 40 pessoas aqui, jogando baralho, conversando, matando a sede com uma cervejinha e ouvindo forró”. Anderson reclama: “Agora só posso brincar na rua até as seis da tarde. Minha mãe diz que é perigoso ficar até mais tarde”.

 

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