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Mulheres fora da fôrma da normalidade

A carioca Simone Campos dá corpo a personagens femininas que estão longe dos clichês

Aos 31 anos, Simone tem cinco livros publicados.
Aos 31 anos, Simone tem cinco livros publicados.

Simone Campos é uma escritora de personagens femininas incomuns. Seu quinto livro, A vez de morrer, lançado este ano pela Companhia das Letras, apresenta uma coleção delas. A principal é Izabel, uma jovem carioca bissexual, usuária de recursos modernos como aplicativos de encontros, em processo de mudança para um sítio na região serrana do Rio.

A autora conversou sobre sua mais recente protagonista e outras personagens femininas durante os Encontros Literários promovidos pelo El País na 60ª Feira do Livro de Porto Alegre, que aconteceu nesta semana. Sua percepção é de que ainda faltam, nos livros, mulheres reais e fortes com as quais as leitoras contemporâneas se identifiquem. “Algumas mulheres parecem estar nos livros apenas para ocupar lugar, para fazer tudo por um filho, um marido ou um pretendente”, explicou a integrante da nova geração de escritores brasileiros. “Acredito que existem as mais variadas motivações possíveis para uma personagem feminina, e pretendo explorá-las ao máximo. Há uma carência disso na literatura atual”.

Seus personagens são figuras envolvidas nos dilemas e anseios de seu tempo, dispostas a se relacionar, mas que podem preferir o sexo casual a um relacionamento estável, e não sentem obrigação de ter filhos. Em A vez de morrer , a protagonista é a evangélica Sirlene. Cantora e baixista de uma banda de metal gospel na interiorana Araras, ela acalenta um sonho, mas tem até plano B para o caso de não ver seu desejo principal concretizado. Marta, a mãe de Izabel, é um contraponto à personalidade excêntrica da filha, que se depara com as agruras de ser mulher no ano de 2015, que é quando transcorre a história. “Ser normal, às vezes, pode dar mais pano pra manga, em termos de personagem, do que se você colocar todo mundo muito estrambótico”, pondera a escritora.

As mulheres descritas no livro por Simone se deparam com problemas contemporâneos como estupro e 'revenge porn' (divulgação virtual de vídeos com cenas de sexo, geralmente feita por homens para se vingar da ex-namorada). Ela reconhece que “andar por aí neste corpo” facilita a tarefa de retratar as experiências femininas no mundo de hoje, mas rechaça a ideia de fazê-lo a partir de um olhar feminista. Tampouco acredita que suas obras devam, obrigatoriamente, abrir espaço para problematizar o machismo. “Pessoalmente, sou feminista, mas não fico dando liçãozinha de moral”, diferencia. “A boa literatura não pode ser moralista. Gosto da liberdade da literatura, de poder falar sobre o que você quiser sem necessariamente ideologizar.”

Aos 31 anos, Simone é mestre em literatura e tem três romances entre os cinco livros publicados. O primeiro foi aos 17 anos, idade em que, após uma década, deixou de frequentar a Igreja Evangélica. Moradora de Botafogo, divide seu tempo entre a escrita, traduções, games e academia (diz ser “uma combinação estranha de nerd atlética”). Nesta sexta-feira, comemorava em Porto Alegre a aprovação para o doutorado em literatura comparada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). A escritora vai estudar a relação entre seus principais interesses, games e literatura. Isso ao mesmo tempo em que escreve o sexto romance. A parte difícil é viabilizar financeiramente todos os projetos. Sua dúvida era se a aprovação em terceiro lugar para o doutorado garantiria uma bolsa de estudos. “Doutorado com escrever ficção é ok. Se ainda tiver que traduzir para sobreviver, complica.”