Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine
Entrevista

O segredo de Lena Dunham

Tomamos café da manhã em Nova York com um furacão

Conquistou várias gerações de mulheres com sua série ‘Girls’

Agora publica seu primeiro livro: ‘Não Sou Uma Dessas’

Ampliar foto
Seu discurso transgressor conquistou várias gerações de mulheres. Contour / Getty

A vida em Nova York tem duas horas de defasagem com a Espanha. Não me refiro à diferença de horário que separa nosso amanhecer do nascer do sol da costa leste norte-americana. Aqui esse dado não é muito útil; exceto caso seja preciso fazer uma ligação à península e não se queira tirar seu interlocutor da cama. Me refiro ao ritmo da vida cotidiana, que nos Estados Unidos ocorre com duas horas de antecedência.

Combinar um café cedinho não acontece às 9h, mas às 7h. Começo da tarde não são 16h e sim 14h. As lojas do bairro não fecham às 20h, mas às 18h. Por isso Lena Dunham — que desde o nascer do sol no Brooklyn está cuidando dos assuntos relacionados com a promoção de seu livro Não Sou Uma Dessas: Uma Garota Conta Tudo que “Aprendeu” (com previsão de lançamento em novembro pela Editora Intrínseca) — por volta das 10h tem fome e pede um burrito florentino. Uma tortilha mexicana de milho enrolada em uma massa de ovos mexidos, queijo feta, espinafre e mussarela. Não quer tomate?, pergunta o garçom. Não, não quer tomate. Então o que quer? Lena quer ser mãe. Assim me responde essa comediante nova-iorquina. A vida é um desenho confeccionado à base de pontinhos e em poucas ocasiões temos a oportunidade de unir todos.

O feminismo não completou seu trabalho. Não existe uma sociedade equilibrada"

Então você quer ser mãe... “Totally”, responde sorridente com o advérbio que as adolescentes norte-americanas incorporaram como slogan em suas conversas cotidianas e que, pelo visto, veio para ficar também entre garotas na faixa dos 20 anos. “Não é uma questão se vou ou não vou ser, mas quando.” Sua mãe, a conhecida fotógrafa Laurie Simmons, teve Lena aos 36 anos. A comediante acredita que as pessoas tendem a seguir o rumo oposto da geração anterior, e agora muitas de suas amigas estão começando a ter filhos. Ela sabe que nunca há um momento perfeito para dar à luz, mas busca desesperadamente uma brecha em sua carreira que lhe permita realizar algo que “definitivamente não sai da minha cabeça.”

Um pensamento que nos leva a comentar a experiência em Hollywood de uma garota que recebeu oito nomeações aos prêmios Emmy de televisão e ganhou dois Globo de Ouro, e foi a primeira mulher premiada pela Directors Guild of America (DGA) por seu espetacular trabalho de direção em uma série de comédia. “Somos inclinados a pensar que o feminismo fez seu trabalho e que conseguimos uma sociedade equilibrada. De forma alguma. Hollywood continua acreditando que a mulher é uma matéria-prima e reserva as posições de poder para os homens. No livro conto alguns exemplos, mas sem mencionar nomes concretos, porque não quero que ninguém pense que tento tirar proveito para me promover. Faço isso para compartilhar o que emocionalmente significou para mim como mulher comprovar que em Los Angeles não me levavam necessariamente a sério.”

Continua sendo difícil. “Muito complicado”. Diz que os homens precisam entender que as mulheres são fortes e é necessário permitir que sejam para que possam traçar seu próprio destino. “Se uma mulher alcança um posto de direção, precisa ser agressiva, mas ao mesmo tempo espera-se dela que seja doce e encantadora; algo que os homens não têm que passar.” Estamos no Clark’s, um restaurante de comida caseira (popularizada pelos gregos aqui como comfort food) próximo à famosa ponte suspensa. Os garçons trocam piadas em uma língua que Lena se esforça para entender sem conseguir por completo. Fala espanhol? “Un poquito, Así, así. Muy mal.”

ampliar foto
A escritora Lena Dunham, durante a preparação de uma recente sessão de fotos em Nova York.

Quando uma espectadora me diz que lhe ajudei em sua vida sexual, me sinto feliz"

Sentou-se em frente à janela e não parece se importar com os olhares dos curiosos que, surpresos por sua presença, diminuem o passo pela rua Henry. Pede desculpas para responder uma mensagem no celular, momento de silêncio aproveitado por um garçom para nos oferecer um café. Bip. Enviada. Pronto. Mais café? Não, obrigada. Lena se desmancha em agradecimentos pela cortesia. Não sei se esta garota é sempre assim educada ou é porque está dando uma entrevista. Exponho minha dúvida. Bem, na verdade, tento me explicar. Talvez esse sorriso angelical não seja a imagem de alguém que conta em seu livro que não parava de levar homens para sua cama e que dá detalhes de seu namoro com o “Colher de Chá Flutuante”, um cara conhecido no campus universitário por colocar vodca no ânus com um funil”. A explicação chega rápido. Não precisa pensar. O alter ego Hannah, a protagonista de Girls, acredita que não é preciso chamar a atenção em sua vida privada para conseguir chamar a atenção no trabalho. Algo que aprendeu com seu pai, o pintor Carroll Dunham, a quem adora. É lógico. Que outra explicação poderia ter recebido de um pai que pinta pênis tamanho família e mulheres nuas cujos genitais em forma de boca parecem estar a ponto de saltar da tela para te dar uma mordida?

“Não são pênis, são pistolas”, repetia a pequena Lena em uma tentativa de diminuir a comoção causada pelos quadros do pai entre as amigas que sempre lhe acompanhavam em algumas inaugurações. No entanto, algo positivo surgiu daquela experiência: “Vergonha é uma palavra que não aparece em meu dicionário.” Algo que os espectadores de Girls sabem bem. Lena desfila sua nudez pela tela com uma naturalidade espantosa. As tomadas de câmera que escolhe não são as que mais a favorecem, mas à personagem, e aparecem sem retoques, no primeiro plano de suas dobrinhas. Os críticos disseram que ela é corajosa, me diz com ironia, não pelo atrevimento sempre desconfortável de despir-se diante da câmera, mas pela surpresa de que uma garota com um físico, digamos, não exatamente de uma modelo de alta costura mostre suas curvas. Mas Lena impôs uma missão a si mesma: a de normalizar o sexo.

Até a chegada de Girls, o sucesso pertencia ao seriado Sex and the City, com atraentes balzaquianas, e séries de adolescentes desajeitadas; mas existia um vazio para as que ficavam no meio-termo. “Entre os filmes pornô e as comédias românticas melosas não havia nenhum padrão que pudesse ser seguido para as garotas normais de 20 anos. Por isso, cada vez que uma espectadora me diz que a série lhe ajudou a se sentir mais segura em sua vida sexual, me sinto feliz. É curioso que nesse turbilhão de criatividade – sendo mencionada no Twitter e Instagram com frequência por sua capacidade de tirar a roupa – o que Lena gosta na verdade é de se vestir. Ela adora os modelos elegantes para os eventos de gala da televisão e se diverte provando os figurinos. “Sei que não acerto sempre, porque costumo me vestir como uma pessoa estranha, mas curto muito, e a graça consiste nisso.” O exibicionismo não é algo novo para ela, mas a nudez lhe interessa mais como uma exploração sociológica do que como um ato sexual.

ampliar foto
Dunham, no centro, junto às suas companheiras de elenco, Allison Williams (esquerda) e Zosia Mamet. Getty

O que tem mais dificuldade na série é gravar as cenas na cama. Não encontra nenhum glamour na tarefa. “Toda a equipe te observa e você se enrosca com um desconhecido que tem o traseiro carregado de maquiagem para que a câmera não mostre as espinhas dele.” Não, contra o que se poderia pensar, Lena Dunham não se sente especialmente orgulhosa de suas relações passadas. “Sempre me senti atraída pelos tontos.” O colchão compartilhado foi para ela apenas um instrumento para acabar com esse sentimento de solidão que lhe persegue desde a infância. Como sua mãe, acredita que os homens se gabam de suas conquistas, enquanto as mulheres desejariam poder se esquecer de todas.

Aos oito anos, tinha medo de tudo. De apendicite, dos indigentes, dos estupros no metrô, da morte, da poeira nas lâmpadas e do leite. Do leite? Mas como podia ter medo do leite? “Totally, o leite poderia estragar e, ao ingeri-lo, eu poderia acabar no hospital, pegar a doença da vaca louca... quem sabe?” Seus pais a colocaram na terapia e foi diagnosticada com um surto de ansiedade caracterizado por pensamentos intrusivos: transtorno compulsivo obsessivo. Desde então não parou de visitar psicólogos e precisa tomar remédios. Metodologia com a qual aprendeu a viver e que lhe ajuda a controlar suas emoções. As pílulas... e o telefone! Precisa estar conectada com seu namorado, com suas amigas. Do contrário, tem vertigem. Não é especialmente obcecada por tecnologia, mas o telefone faz parte de sua vida. Aos 12 anos, quando acabava de chegar em casa depois da escola, colocava o fone de ouvido para falar com amigas e não o largava até o jantar. O vício não foi curado. Há pouco tempo, em Veneza, se surpreendeu mandando um sms para seus pais enquanto passeava na gôndola e ela mesma se perguntava: “Não deveria estar olhando os canais e mandar-lhes a mensagem depois que descesse do barco? Oh, oh...”

Adoro escrever. Quero voltar a fazê-lo em seguida"

Nesta manhã ensolarada de outono cheguei ao meu encontro com a recém-escritora em um vagão da linha A do metrô. O Brooklyn está na moda. Os jovens querem viver nesse pontinho de Long Island porque o aluguel é três vezes mais barato do que na ilha dos arranha-céus. E também porque tem costumes simples das cidades pequenas. A escolha do lugar obedece a duas premissas: que haja uma boa escola pública e que esteja perto do metrô. Qualquer linha vale, menos a verde. O trem G, apelidado de ghost train (trem fantasma) porque quase nunca aparece, definitivamente não serve. Lena escolheu Brooklyn ­Heights. Tem 28 anos e até dois anos atrás vivia com seus pais no Soho. Mudou-se com seu namorado, Antonoff, guitarrista do grupo Fun, e agora pode observar à distância a silhueta dos altos edifícios da colmeia humana que mais a fascina. Viaja muito, mas a cidade de Nova York é onde se sente em casa.

ampliar foto
Aos oito anos tinha medo de tudo: de apendicite, dos indigentes, dos estupros, do leite...

Peguei o trem Amtrak cedinho, às 6h30; horário frequentado pelos commuters, trabalhadores que vivem em regiões mais afastadas e se deslocam todos os dias ao escritório na cidade. Na viagem encontrei um agente literário e comentei o propósito da minha aventura. “Lena Dunham?”, me deixou na dúvida. “Você acredita mesmo que ela escreveu esse livro?” Bem, é isso pelo menos o que colocam na capa que, com certeza, uma amiga de 15 anos de minha filha me disse que não iria gostar porque sou um homem grisalho. OK. Transfiro a pergunta à minha interlocutora de cabelo curto e olhos brilhantes começando com tom mais moderado, para evitar a ofensa. O livro é uma coisa sua ou uma encomenda de uma editora? É algo que partiu dela. “Totally, oh my God!” Pelo jeito, sempre quis escrever prosa e desejava fazê-lo o quanto antes, no começo de sua carreira, para que não parecesse um clímax no plano da memória. Por isso escreveu 60 páginas e as apresentou a uma editora. Disse: “Isso é o que tenho até agora e o formato que quero dar.” Três milhões e meio de dólares (8,6 milhões de reais) depois, saía com um contrato em mãos. Demorou dois anos para escrevê-lo. De abril de 2012 a abril de 2014. Durante a noite, diz. Aproveitando os escassos descansos concedidos pelas gravações. Escuto essa garota que uma vez decidiu ser vegetariana porque uma vaca uma vez piscou para ela, mas cuja rejeição já passou porque a carne lhe chama novamente, e sei que escrever um livro nessas condições é possível. Sua resposta me transporta aos tempos de Gomaespuma na rádio M-80, quando tinha que encontrar em uma agenda apertada brechas para escrever com meu irmão Javier o roteiro de O Milagre de P. Tinto. É possível. “Adoro escrever e quero voltar a fazê-lo em seguida.” Outro livro ou teatro. O palco a fascina, mas não como atriz. Acredita que não tem a força para representar outro personagem que não seja ela mesma. Ou parecida.

Acaba de chegar de Los Angeles, onde terminou de gravar a quarta temporada da série Girls, que estreia no canal HBO em janeiro. Dez episódios que vão durar até o final de março. Depois, em abril, “bate na madeira”, retorna à Califórnia por cinco meses. Hannah, a protagonista de Girls, é realmente uma versão dela mesma? Sim e não. No começo incorporou um punhado de suas próprias emoções, mas o personagem foi crescendo por si mesmo e se aventurou por outros caminhos. Lena Dunham também cresceu. Já não se sente tão egoísta, tão centrada em si mesma. Preocupa-se com o que ocorre ao seu redor e sente-se na obrigação de tornar suas opiniões públicas. Para ela, parece uma loucura o que aconteceu em Ferguson, com a morte de um negro por disparos da polícia. Tem enorme repúdio pelo roubo de fotos na nuvem de atrizes famosas nuas que foram postadas no Twitter. “Quem cometeu esse crime deveria passar muitos anos na cadeia. Não entendo os que as olham e se justificam dizendo que o problema é delas por ter tirado as fotos. Sim, é verdade que fizeram as fotos, mas não para uso público.” Voltamos ao assunto de vulnerabilidade da mulher. Em breve vai começar um giro pelos Estados Unidos com seu livro no qual se reunirá com escritoras renomadas em teatros, e a arrecadação será destinada a financiar uma organização de planejamento familiar que procura educar os jovens para evitar a gravidez não desejada.

ampliar foto
Um filho dissiparia as dúvidas de Dunham de não estar fazendo nada pelos demais.

Desses encontros, com certeza, nascerão ideias para os próximos episódios da série. Embora seja apaixonada por televisão, as fontes de inspiração de Girls estão próximas da vida cotidiana, dos cinemas e dos livros. Cita como exemplo os relatos da autora Mary McCarthy, os filmes do diretor Paul Mazursky ou a música da rapper Nicki Minaj. Também lembra que, por acaso, nunca viu O Poderoso Chefão nem Guerra nas Estrelas. E que todos os anos promete que irá mais ao teatro e nunca cumpre, embora tenha ido ver recentemente Cate Blanchett em The Maids (As Domésticas, em tradução livre) e um de seus companheiros na série, Andrew Rannells.

Promoção do livro, novos roteiros para a quinta temporada, filmagem... E, nesse meio tempo, quem sabe o sonho que tem desde sempre: ser mãe. Ser mãe em Nova York para levar seu filho aos domingos ao que considera sua igreja: o Metropolitan Musem of Art. Para passear com ele pelo Prospect Park e lhe mostrar a City Island. Sim, City Island, porque, senhoras e senhores: o Bronx também existe. Então até lá terá conseguido livrar-se do pesadelo que lhe visita insistentemente muitas noites. Lena se vê angustiada por um estranho gemido que escuta na casa. Levanta-se da cama, ergue uma tábua de madeira e descobre um grupo de cachorros esquálidos pela falta de alimentos. Freud interpretaria que, como Hannah, Lena passa muito tempo concentrada em si mesma? O que sei é que um filho, desde o começo, eliminaria suas dúvidas de não estar fazendo nada pelos demais. Por enquanto, terá que se contentar em cuidar de seu cachorrinho Lamby (Cordeirinho), uma mescla de terrier e poodle que não para de latir e pular. Nos despedimos. “Todo mundo deveria ter um cachorro, acabariam as guerras”, afirma. Tomara, penso, enquanto a porta do restaurante Clark’s se fecha. Tomara, mas sempre há pessoas que preferem gatos, e nisso de quem temos que gostar não costumamos chegar a um acordo.

MAIS INFORMAÇÕES