Seleccione Edição
Login
Login ¿No tienes cuenta? Cadastre-se Assine

Pressionada por religiosos, Marina muda propostas para homossexuais

A candidata do PSB havia declarado apoio à criminalização da homofobia e à adoção de crianças por casais do mesmo sexo

Marina Silva durante passeata na Rocinha, no Rio. AFP

Pressionada por grupos conservadores e evangélicos, a candidata do Partido Socialista Brasileiro (PSB) à presidência, Marina Silva, mudou o seu programa de governo voltado para a comunidade homossexual. Menos de 24 horas após lançar as diretrizes da campanha eleitoral, o partido informou à imprensa que houve uma “falha processual na editoração” do documento.

Conforme o comunicado dos socialistas, o trecho do programa que trata das questões das lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros “não contempla a mediação entre os diversos pensamentos que se dispuseram a contribuir para sua formulação e os posicionamentos de Eduardo Campos e Marina Silva a respeito da definição de políticas para a população LGBT”.

Marina é evangélica da igreja Assembleia de Deus e, conforme a última pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira, lidera entre os que têm essa preferência religiosa. O mesmo levantamento mostra que ela seria eleita presidenta no segundo turno, se as eleições fossem hoje.

Declarado apoiador do Pastor Everaldo (PSC) para a presidência, o líder da igreja neopentecostal Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia criticou veementemente a proposta de Marina por meio de sua conta no Twitter, que tem 774.041 seguidores. “O programa de governo de Marina é uma defesa vergonhosa da agenda gay”, reclamou Malafaia.

Assim como ele, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB do Rio de Janeiro), também reclamou das propostas da ex-senadora dizendo, também na rede social, que os posicionamentos eram “contrários à família”. Cunha é um dos principais membros da bancada evangélica no Congresso Nacional. É um feroz defensor de causas conservadoras.

Antes das alterações, o programa de Marina havia sido elogiado por defensores de causas homossexuais, como o deputado Jean Wyllys (PSOL do Rio de Janeiro). Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele havia dito que as propostas davam “um chega para lá no fundamentalismo religioso”. Depois das mudanças, ele reclamou pelo seu Twitter dizendo que a candidata havia brincado com a esperanças de milhões de pessoas. “Tem políticos que descumprem suas promessas de campanha depois de eleitos. Marina já fez isso mais de um mês antes do primeiro turno.”

Em um ato de campanha na Rocinha, na zona sul do Rio, Marina negou ter retificado o programa eleitoral. "Não foi uma revisão. Na verdade nós tivemos dois problemas no programa. Um em relação à questão nuclear, que era da parte Ciência e Tecnologia, uma questão que não havia sido acordada com Eduardo [Campos]. Na parte LGBT, o texto que foi para redação foi a parte apresentada pelos movimentos sociais. Todos os movimentos sociais apresentaram propostas e se contemplou tanto quanto possível as propostas", disse à imprensa. Segundo a candidata, algumas das diretrizes divulgadas na sexta-feira eram as pautas dos setores e não tinham sido aprovadas pela candidatura.

Principais mudanças

Em sua primeira versão, o programa de Marina previa articular a votação de um projeto de lei (de número 122/06) que equipara a discriminação baseada a orientação sexual ao crime de racismo. Ou seja, criminaliza a homofobia. Com a mudança, a candidata deixará de apoiar essa proposta.

Ela desistiu também de distribuir material didático nas escolas públicas para educar as crianças e adolescentes sobre as questões de gênero sexual. Em 2011, o governo de Dilma Rousseff (PT) tentou distribuir um material com esse mesmo objetivo, mas após a reação adversa das bancadas religiosas, retirou as publicações e as inserções publicitárias de circulação. Na época, as peças produzidas pelo Ministério da Educação foram batizadas de “kit gay”.

Um outro ponto alterado no programa da socialista foi o incondicional apoio à adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo. Antes, assim pregava sua cartilha: “Eliminar obstáculos à adoção de crianças por casais homoafetivos”. Agora, ficou desta maneira: “Como nos processos de adoção interessa o bem-estar da criança que será adotada, dar tratamento igual aos casais adotantes, com todas as exigências e cuidados iguais para ambas as modalidades de união, homo ou heterossexual”.

A questão ambiental também foi alterada no programa. Ministra do Meio Ambiente no Governo Lula da Silva (PT) e um dos principais nomes entre os ambientalistas brasileiros, Marina propôs que a energia nuclear fosse usada como uma fonte energética para o Brasil. Também por meio de um comunicado, a campanha da candidata informou que houve um erro de revisão e que ela é contra usinas nucleares e que defenderá, caso eleita, o uso de fontes renováveis e sustentáveis, como “solar, eólica, de biomassa, geotermal, das marés, dos biocombustíveis de segunda geração".

A versão que consta do site da candidatura Marina Silva e Beto Albuquerque ainda será alterada antes de ser reimpressa, segundo a assessoria.