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Metade das cooperativas de transporte de São Paulo tem elo com o PCC

Pela primeira vez, investigadores encontraram um possível braço político da facção, um deputado que acaba de ser expulso do PT

Um policial em frente a um ônibus queimado na zona sul de São Paulo.
Um policial em frente a um ônibus queimado na zona sul de São Paulo. Ag. Brasil

Estradado M’Boi Mirim, zona sul de São Paulo. Já é quase uma hora da tarde quando um grupo de moradores da região fecha a avenida e incendeia um ônibus em protesto pela morte de um jovem. Era uma quarta-feira de janeiro e foi a maneira que eles encontraram para chamar a atenção da mídia para a violência na região. E conseguiram atrair não só a imprensa, que fotografou, filmou e debateu incansavelmente o tema, mas alertaram também a polícia e o Ministério Público que encontraram nesses protestos as digitais da maior facção criminosa brasileira, o Primeiro Comando da Capital (PCC).

A intensa onda de incêndios de ônibus nos últimos 18 meses, só neste ano já foram mais de cem, reforçou uma hipótese de que há pelo menos uma década se aventa nas regiões periféricas paulistanas, de que o PCC controla as cooperativas de micro-ônibus que fazem o transporte coletivo. “Todo mundo aqui na zona sul sabe que é o PCC quem manda nas cooperativas. Só não vê quem não quer”, afirma um vendedor ambulante do Capão Redondo.

A apuração que está em andamento no GAECO, grupo do Ministério Público que investiga o crime organizado, mostra que cinco das nove cooperativas têm relação com membros do PCC. Os dados ainda estão sendo analisados, mas há diversos indícios de que a facção atua diretamente nessa área, inclusive com um braço político.

Desde 2003, para se trabalhar com o transporte alternativo em São Paulo (os micro-ônibus) é necessário ter uma autorização da prefeitura e estar vinculado a uma cooperativa. Pelas regras atuais cada pessoa poderia ter apenas um veículo cadastrado nessas entidades. Ocorre que, como o negócio é bastante lucrativo – algumas linhas movimentam mais de 6.000 reais ao dia –, alguns criminosos resolveram atuar na área.

A estratégia adotada, segundo o GAECO, foi primeiramente cobrar uma mensalidade dos donos de cada linha para transitarem por áreas em que os criminosos dominavam, uma delas é no M’Boi Mirim. A cada ano, a mensalidade aumentava e o lucro do dono da linha, que também era o motorista, diminuía. Nesse momento, os criminosos que já haviam se incorporado à diretoria das cooperativas, faziam propostas de compra e de emprego aos responsáveis por cada veículo. O valor de venda da linha era de 150.000 reais e o salário do motorista de 3.000 a 4.000 reais. Vários aceitaram e se tornaram “laranjas” do esquema, já que é proibido vender essa concessão.

A dificuldade dos investigadores é, atualmente, comprovar esse esquema. “Já ouvimos diversas pessoas que inclusive relatam essa venda, mas não querem assinar nada que as comprometam com medo de sofrerem retaliações”, afirma um promotor.

Atuar na área do transporte alternativo é muito atraente porque é uma área onde se pode fazer muitas manobras financeiras

Camila Nunes Dias, socióloga

A terceira parte do esquema estaria no fornecimento de combustíveis e na manutenção dos veículos. Todos os cooperados, inclusive os que não venderam as linhas, são forçados a abastecer nos postos comprados por outros “laranjas” do PCC e de trocar peças (pneus, rolamentos e outros equipamentos) apenas nas oficinas indicadas pelos criminosos. É a etapa da lavagem de dinheiro proveniente principalmente do tráfico de drogas e de roubos.

Não se sabe exatamente quanto esse grupo já teria movimentado anualmente, mas suspeita-se que passe da casa dos milhões. “Se não fosse algo tão lucrativo, não geraria tanto interesse”, diz outro promotor.

E por que a onda de incêndios de ônibus alertou os investigadores? A resposta é relativamente simples, diz um deles. As cooperativas enxergam os ônibus, todos de grandes empresas, como concorrentes. Assim, se um ônibus deixar de circular na mesma região de um micro-ônibus, ainda que temporariamente, o lucro da cooperativa cresce. Dos 64 veículos incendiados nos dois primeiros meses do ano na zona sul de São Paulo, apenas um era de cooperativa, conforme um levantamento feito pela polícia.

“Atuar na área do transporte alternativo é muito atraente porque é uma área onde se pode fazer muitas manobras financeiras”, diz a socióloga Camila Nunes Dias, professora da Universidade Federal do ABC e autora de um livro sobre a facção criminosa paulista.

Braço político

Em março deste ano, no decorrer das investigações, a polícia se deparou com o principal indicativo de que o PCC estaria envolvido com o esquema. Ao investigar uma reunião de uma das cooperativas, os policiais descobriram que 18 dos 45 participantes do encontro eram membros da facção criminosa. Na mesma reunião, estava o deputado estadual Luiz Moura, que na época era do PT. O parlamentar já foi condenado por roubo a dois supermercados em 1993 e cumpriu a pena em uma penitenciária paulista. Antes de se eleger deputado foi diretor de uma das cooperativas que hoje está sendo investigada.

O envolvimento de Moura deve ser investigado agora pela Procuradoria Geral de Justiça, já que até o fim deste ano, quando acaba o seu mandato, ele tem foro privilegiado. Após o escândalo vir à tona e temendo um desgaste eleitoral, o PT decidiu na semana passada expulsar o deputado de sua legenda, mas ele ainda tem dez dias para recorrer da decisão. Procurado, Moura não quis conceder entrevista ao EL PAÍS e disse, por meio de um assessor, que não tem nenhuma ligação com o PCC. Essa foi a primeira vez que se constatou uma aproximação da maior facção criminosa brasileira com um político eleito.

“Há uma presença distorcida do Estado principalmente nas regiões periféricas, onde ele só atua como repressor e não dá oportunidades para as pessoas. Isso deixa vácuos para que grupos como o PCC se ocupe e revela um perigoso espraiamento para a política”, alerta a socióloga Dias.

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