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A São Paulo viciada em corridas

A corrida de rua é um esporte barato, saudável e que atrai cada vez mais adeptos.

São 107 competições só neste ano na cidade

Movimentação no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.
Movimentação no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Futura Press/Folhapress

Basta um passeio pelo Ibirapuera, o grande parque urbano da zona sul paulistana, para ver que a corrida é um esporte popular entre os habitantes de São Paulo. Os atletas se alongam, aqueles que podem tiram a camisa nos dias mais quentes, alguns trotam em grupo, outros disparam sozinhos com seus fones de ouvido. Cenas que se repetem a qualquer hora do dia em diversas áreas verdes da cidade e até mesmo em grandes avenidas, ainda que chova. A impressão de que o interesse pela corrida aumentou se confirma com o número eventos do gênero na cidade, 107, sendo que "90% deles são pagos e realizadas por empresas especializadas", informa a prefeitura de São Paulo. Sem contar a tradicional São Silvestre, que teve início na década de 1920, e que atraiu mais de 27.000 pessoas em 2013.

Sérgio Félix Pinheiro, professor de educação física de 71 anos, que corre "desde que era criança", garante que o aumento de adeptos ao esporte é recente. "Antigamente, quando encontrávamos um grupo de dez pessoas correndo no parque já parecia que estava cheio de gente", conta Pinheiro, dono de uma barba branca que disfarça sua habilidade de correr até 75 quilômetros sem parar, marca esta alcançada no ano passado. O que mais lhe chama a atenção é a quantidade de mulheres, algo que não era comum até pouco tempo atrás.

Segundo dados da Associação de Corredores Urbanos Paulistanos, a Corpore, os homens de fato são mais ativos que as mulheres. Mas, na faixa dos 25 aos 35, elas são maioria. Patrícia Pastich, vendedora de 35 anos, faz parte deste grupo e busca o prazer na corrida. Desde pequena jogava bola mas hoje, a pernambucana de nascimento adotou o esporte aprendendo a respeitar seus limites. "Corro porque gosto e porque meu filho também pratica esporte. De certa maneira, é uma forma de estar mais próxima dele", conclui.

Outro indicador de que a corrida está se tornando um vício paulistano é o número de participantes do Circuito Popular de Corridas de Rua, criado em 2008 pela Secretaria de Esportes, Lazer e Recreação (SEME). No primeiro ano dos eventos organizados pela prefeitura, foram 20.000 participantes. Ano passado o número de inscritos foi de 62.000. A Corpore também tem registro deste aumento de participantes nas corridas que organizam. A entidade, que tem 430.000 corredores amadores cadastrados, passou de 4.300 inscritos em 1994 para 89.000 em 2013.

O interesse e objetivo de cada um varia. Constam aqueles que correm pelo prazer do exercício físico, como complemento de outro esporte, por saúde ou vaidade. Mas os motivos para escolher a corrida e não outro esporte parece ser óbvia para os entrevistados pelo El País, que a consideram uma atividade muito econômica. "É um esporte barato. Basta um tênis sem solado duro e uma roupa confortável", diz a assessora esportiva Vanessa Furstenberger, que trabalha em um dos grupos que oferecem treinos ao ar livre no parque do Ibirapuera, o Mahamudra, que tem 240 alunos. Enquanto explica os benefícios de fazer exercício em grupo, motiva, aos gritos, cerca de 12 alunos, que sobem uma rampa correndo para voltar caminhando. Alguns, ao retornar da disparada, reclamam que estão cansados. Furstenberger, que pratica corrida desde os 14 anos, rebate: "Vamos lá, só faltam mais três", e os olhares de desespero se animam novamente para empreender o desafio.

O salto das corridas individuais para as competições parece ser natural entre os corredores. João Máximo, empresário de 47 anos, vai participar de "oito ou dez maratonas" este ano, só "como treinamento". Duas delas no exterior, uma no Ushuaia, na Argentina, e outra na Ilha de Páscoa, no Chile. Ele garante que prefere "correr dez quilômetros ao invés de tomar uma cerveja". O diretor da Corpore, Edgar Santos, acredita que isso ocorra por uma evolução do próprio atleta. "Depois que ele já correu algumas provas de 10 quilômetros, evolui para 15. E o próximo passo será a meia maratona, de 21,1km", explica. Mas não é uma regra. Há um ano, a estudante de psicologia Michele Abensur, de 26, começou a correr com a Guarda Civil Metropolitana, que tem um projeto no parque do Ibirapuera de segunda, quarta e sexta-feira das 8h às 11h. "É bom para quem começa", recomenda. Abensur, que também corre com seu cachorro vira-lata Hadji, explica que não compete porque corre "terapeuticamente sozinha", e garante que, ainda que passe períodos sem fazer exercício, para voltar é simples: "nada que uma boa música não resolva", diz, recomendando o estilo rock pesado para motivar.

Lilian Prieto, professora de idiomas de 31 anos, é uma viciada na corrida solitária ao som do rock. "Estava escutando Metallica", conta rindo. Diz que foi incentivada pelo pai, irmã e prima, que correm e competem. Sobre ela, conta que fez "somente provas pequenas" e que gosta de correr porque assim se "sente mais disposta". A também vocalista da banda de funk-rock Madame Bloesy confessa que hoje está mais consciente, mas que já exagerou. "Quebrei duas tíbias e fiquei três meses parada", conta.

Marcos Soares, especialista em fisiologia do exercício e diretor da Equipe Trainer, que também realiza atividades ao ar livre no Ibirapuera, explica que o que aconteceu com Prieto é mais comum do que se imagina. "Para praticar corrida não tem contra-indicação, mas deve-se tomar precauções, como saber se está livre de lesões nas articulações, joelho, quadril, zonas do corpo onde o impacto é maior" e, além disso, "é fundamental verificar se não tem nenhuma cardiopatia, porque é uma atividade intensa e vigorosa". Soares entende que a corrida em São Paulo ficou muito popular nos últimos anos porque "houve uma migração dos alunos da academia tradicional para espaços ao ar livre", além de se tratar de "uma atividade de gasto calórico elevado e onde a competição é com você mesmo", conta o profissional, cuja aluna mais experiente tem 91 anos.