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A princesa destronada em 140 caracteres

Gulnara Karimova, outrora a menina mimada do Uzbequistão, quis ser uma Lady Di do Oriente

Foi cantora, se rodeou do “jet set” global e acumulou uma enorme fortuna

Até que decidiu ser dissidente de seu próprio pai

Denunciou seus excessos no Twitter e sua vida deu uma guinada na direção do inferno

Gulnara Karimova em cerimônia em outubro último.
Gulnara Karimova em cerimônia em outubro último.

Nos últimos dois meses ocorreram as seguintes coisas no Uzbequistão: prenderam um homem chamado Akbarali Abdullayev; um império midiático chamado Terra Forum, composto por dezenas de canais de televisão e rádio, foi fechado, assim como as lojas de roupas de grife da marca Guli. Vários guarda-costas foram demitidos e foi aberta uma investigação sobre a Fund Forum, uma das maiores empresas do país, por sonegação de impostos. Houve uma dúzia de prisões e uma conta no Twitter foi fechada. Todos esses acontecimentos aparentemente desconexos são, na verdade, parte do desenlace do mesmo drama shakespeariano (ou telenovelesco, dependendo da ótica) protagonizado pela mulher que está por trás desses nomes agora caídos em desgraça: a bela e inclassificável Gulnara Karimova, empresária, cantora pop, designer, tuiteira famosa e, até que o governo derrubasse tudo o que lhe dava poder, filha mimada do ditador que há duas décadas comanda o Uzbequistão com mão de ferro.

A história tem ramificações espanholas: entre 2010 e 2011, Gulnara Karimova foi embaixadora do Uzbequistão na Espanha. Conheceu o país em 2008, ao negociar com Joan Laporta para promover dois jogos entre o Barcelona e o F.C. Bunyodor, o clube mais forte do Uzbequistão, propriedade da Zeromax, um conglomerado com sede na Suíça, liderado pela princesa, e que era o maior investidor na economia uzbeque. A novela, que no início parecia a costumeira história dos abusos da classe dirigente uzbeque, começou a se tornar mais intensa em setembro. Os boatos que indicavam que a saúde do tirano Islam Karimov, de 75 anos, estava piorando irremediavelmente ganhavam cada vez mais força. Gulnara, tão popular e populista, tão diva, tão loura, sempre havia parecido a sucessora mais lógica, contrariando o que estabelece a Constituição (que indica que o presidente do Senado deverá assumir o poder após a morte de Karimov). “Mas o Uzbequistão não tem nenhuma tradição democrática”, explica Scott Horton, especialista em Ásia Central na faculdade de Direito da Universidade de Columbia (Nova York). “Esse país foi governado por vassalos dos czares e depois por Karimov, que já era secretário do Partido Comunista na época da União Soviética. A transição de um poder tão arraigado sempre traz inseguranças, algum derramamento de sangue e uma traição”.

Gulnara Karimova ao lado de Elton John em 2010. ampliar foto
Gulnara Karimova ao lado de Elton John em 2010.

Essa traição ocorreu em setembro, quando Lola Karomova-Tillyaeva, irmã de Gulnara, falou com a BBC para explicar que fazia 12 anos que elas não se falavam. A princesa lhe respondeu por Twitter, acusando-a, e também à sua mãe, de praticar bruxaria. Naquele momento, as perguntas sobre se queria ser a nova presidenta de seu país já choviam pelas redes sociais, e ela respondia que não, que era “um trabalho infernal”. Em outubro, ela estreou como dissidente política, acusando Rustam Inoyatov, responsável pelos temidos agentes de segurança uzbeques, de conspirar para tomar o poder. Dias depois, anunciou que havia sido envenenada com mercúrio e que, após hospitalização, havia sobrevivido. Pouco depois denunciava que os agentes de Inoyatov estavam espancando os trabalhadores da Terra Forum, seu conglomerado de televisões e rádios.

Mas nada disso é tão conclusivo quanto a diatribe em forma de tuítes que ela lançou na quinta-feira passada, quando todos os seus negócios haviam evaporado e Gulnara enfrentava uma ruína inimaginável há alguns anos. Acusou a sua mãe, Tatyana Karimova, de fazer importações ilegais da China, da Turquia e dos Emirados Árabes. E mais, prosseguiu, todo o conflito familiar havia começado porque Gulnara se havia oposto (sem êxito) à detenção de seu sobrinho, Akbarali Abdullayev, cujo único crime, afirmava, era saber demais sobre os obscuros negócios de Tatyana. Algumas horas depois, a conta Gulnara Karimova desapareceu do Twitter. Não se soube mais onde está a princesa do Uzbequistão.

Gulnara Karimova ao lado de Sting em 2009. ampliar foto
Gulnara Karimova ao lado de Sting em 2009.

Sabe-se, sim, que o governo permitiu, em uma internet geralmente vigiada com lupa, a livre circulação de boatos dando conta que ela está presa. Na web dos opositores do Movimento Popular do Uzbequistão –uma das poucas formas de receber notícias em um país que proibiu a maioria dos jornalistas estrangeiros– é mencionado um agente que conta como seu pai a agrediu. Mesmo levando em conta que a fonte é duvidosa, não é absurdo concluir que, no mínimo, acabaram-se os anos de glória da mulher que há pouco ainda sonhava em ser a Lady Di oriental.

Em retrospecto, a única direção para onde poderia se encaminhar Gulnara Karimova era para baixo. “Costumava ser a menina dos olhos de seu pai, o ditador”, lembra Edward Schatz, professor de Ciências Políticas da Universidade de Toronto e conhecedor da região. “Desfrutava de proteção e privilégios por parte do regime”. Durante anos, foi uma das figuras mais fortes de seu país, onde as televisões e rádios que ela mesma controlava se dedicavam a louvar suas iniciativas como filantropa, seu glamour como it girl e sua excelência como empresária à frente da Zeromax. Se a princesa se divorciasse, coisa que aconteceu em 2003, dando-lhe notoriedade internacional, as televisões frisavam que ela ficara com cinco milhões de dólares (11,7 milhões de reais, em valores atuais) em joias, e outros 60 milhões (140 milhões de reais) em ativos como discotecas e estúdios de gravação. Não se contava o drama por trás da custódia de seus dois filhos, que o marido levou consigo.

Ela aproveitou o episódio para projetar sua imagem no exterior, sustentando qualquer capricho que pudesse posicioná-la como figura do jet set mundial. Seus negócios em dezenas de companhias internacionais lhe renderam uma fortuna que o semanário alemão Der Spiegel estimou em quase quinhentos milhões de euros (1,6 bilhão de reais) em 2010. Em 2006, lançou seu primeiro videoclipe como cantora pop, sob o nome de Googoosha. Em 2008, entoou Bésame Mucho com Julio Iglesias, convidado ao faraônico festival StyleUz, que ela mesma organizava. Em outro ano, conseguiu que Sting fosse cantar em seu país, aos pés da cordilheira Pamir.

Gulnara Karimova e a atriz Diane Kruger em 2012. ampliar foto
Gulnara Karimova e a atriz Diane Kruger em 2012.


José Carreras também atuou ali graças a ela. Quando começou a desenhar joias e roupas sob a marca Guli, realizou seu sonho de estar lado a lado com famosos de todo tipo, de Bill Clinton a Elton John. No ano passado, escreveu o roteiro de um filme sobre a Rota da Seda e conseguiu que o ator francês Gérard Depardieu se interessasse pelo papel do imperador bizantino Justiniano. O filme nunca foi rodado, mas Gulnara aproveitou a visita para rodar com ele outro dos seus delirantes videoclipes.

Todo esse desperdício de capital não foi bem recebido no Uzbequistão. Várias organizações de direitos humanos denunciam que no país, que é o quinto maior exportador de algodão do mundo, crianças são sistematicamente escravizadas para sua colheita. Talvez por isso a incursão de Gulnara na moda pareça especialmente insultante. Em 2005, segundo um relatório diplomático publicado anos depois pelo WikiLeaks, ela era descrita como uma “exploradora” e “a pessoa mais odiada do país”. Em 2011 foi expulsa da Semana da Moda de Nova York depois que várias organizações de direitos humanos a acusaram de empregar mão de obra infantil. A esse revés em sua imagem temos que acrescentar outro, econômico: em 2010, a empresa Zeromax fechou as portas em meio a acusações de que não passava de um disfarce para que Gulnara pudesse controlar o dinheiro que entrava no Uzbequistão.

Talvez tivesse sido lógico que ela se afastasse do público depois daquilo tudo. Mas fez exatamente o contrário: Gulnara foi subindo o tom crítico de seus tuítes até que alguém a fez calar. Se a transição de garota pop a dissidente tinha potencial para lhe dar alguma pontuação internacional, fracassou. Sentencia Schatz: “Agora não é mais que um peso morto”.