Opinião
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Resposta à ministra Damares

A ministra sugere que eu participe de atividades de ajuda às mulheres vítimas de violência, sem saber que eu mesma sou vítima –e tive de sair do país por isso— sob proteção de sua pasta no Programa de Proteção aos defensores de Direitos Humanos em risco

A ministra Damares Alves participa de sessão solene na Câmara dos Deputados, em 21 de outubro de 2019.
A ministra Damares Alves participa de sessão solene na Câmara dos Deputados, em 21 de outubro de 2019.Marcelo Camargo / Agência Brasil (Agência Brasil)

Ministra Damares não gostou de meu artigo com Giselle Carino sobre o “teatro do silêncio” publicado no El País, em 25 de novembro. Em resposta, fez um post no Instagram convidando “dona Debora” para atividades comunitárias de ajuda às mulheres vítimas de violência. Disse ainda ser leitora assídua de meus artigos, ao que agradeço a deferência. Como acredito no diálogo para a democracia, peço licença para continuar a conversa.

Resumo o que foi dito no artigo—Ministra Damares foi desrespeitosa ao fazer teatro sobre as vítimas de violência. É uma representante do Estado, seu dever é falar e nos representar, em particular sobre um tema central à vida das mulheres como é viver livre de violência. O silêncio foi parte de uma estratégia publicitária coordenada pelo ministério de Damares. Um mise-en-scène de roteiro pueril. Até mesmo a mensagem da campanha está errada. É falso assumir que “quando uma mulher se cala pela violência”, todas as mulheres se calam. É preciso aprender com as argentinas que nem uma a menos é um grito de revolta à violência. Eu jamais me calarei, seja pela violência sofrida pela Ministra Damares na infância ou pela violência de outras mulheres anônimas mortas por feminicídio.

Tenho dúvidas se Ministra Damares leu mesmo meus artigos ou se me confundiu com outra “dona Debora”, talvez de sua igreja ou vizinhança. Se os conhecesse, saberia que sou uma das vítimas de violência sob proteção de sua pasta no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos em risco. Se tivesse lido meus artigos, saberia que acredito mais na força das políticas públicas do Estado que no voluntarismo da ajuda comunitária. Por fim, jamais duvidaria de como me posiciono sobre a questão da violência contra a mulher—é uma expressão perversa do patriarcado, em que mulheres e meninas são espoliadas como propriedade do mando masculino. Saberia, portanto, que nossas compreensões sobre a realidade da opressão vivida pelas mulheres não nos colocariam lado a lado em trabalhos comunitários. Não acredito que a fé salve as mulheres do feminicídio, mas somente transformações profundas nas relações de gênero, uma palavra maldita ao vocabulário bolsonarista.

A violência contra as mulheres é perversa e persistente à sociedade brasileira. A reversão desse quadro injusto não virá por performances de palco em cenas públicas, pois o tema pede seriedade. É preciso educação sexual e de gênero nas escolas, uma nova dificuldade para Ministra Damares que faz broma sobre azul e rosa para meninos e meninas. Será menos ainda enfrentada com escolas militares ou armamento da população. Uma arma na casa é um risco permanente de feminicídio. Por que Ministra Damares se silencia sobre esse pacote patriarcal do governo bolsonarista às mulheres? Porque sua própria presença neste jogo político é uma expressão da perversão patriarcal da demanda feminista de mulheres na política. Sua presença é um jogo de silêncio à exigência de que a política seja um espaço para as mulheres, mas também de ousadia do mando masculino: uma mulher que se apresenta no modelo de submissão ao patriarca.