Espanha pede oito anos de prisão para militar da comitiva de Bolsonaro que transportou cocaína

Justiça espanhola calcula em 6.550.179 reais os 37 quilos da droga encontrada na bagagem do sargento Manoel Silva Rodrigues

Os 39 quilos de cocaína encontrados na mala do sargento Manoel Silva Rodrigues, de 38 anos, em Sevilha.
Os 39 quilos de cocaína encontrados na mala do sargento Manoel Silva Rodrigues, de 38 anos, em Sevilha.

A justiça espanhola quantificou definitivamente o valor da cocaína apreendida em 25 de junho no aeroporto de Sevilha com o sargento Manoel Silva Rodrigues, membro da tripulação de uma das aeronaves da delegação com a qual o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, viajava naqueles dias para uma reunião de cúpula em Osaka (Japão). Os 37 quilos da droga que a Guarda Civil encontrou em sua bagagem durante uma busca foram avaliados exatamente em 1.419.262,22euros (6.550.179,03 reais), conforme especificado na declaração da Procuradoria à qual EL PAÍS teve acesso.

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Nesse documento, no qual o representante do Ministério Público pede que o único réu preso por esse confisco seja condenado a oito anos de prisão e uma multa de quatro milhões de euros (18,2 milhões de reais), aponta para a realização em breve do julgamento do militar brasileiro, encarcerado na prisão de Sevilha desde sua detenção.

O texto do promotor detalha que o sargento Silva Rodriguez era um dos 21 tripulantes do avião da Força Aérea Brasileira BRS08 que fez uma escala naquele dia no aeroporto de Sevilha. Quando desceu da aeronave e passou pelo controle alfandegário, “foi apreendida com o culpado, por membros da Guarda Civil, em sua bagagem, uma mala, um porta-terno com um uniforme e uma mochila com pertences, 37 blocos retangulares de uma substância”. Após a análise dos mesmos, os investigadores certificaram que se tratava de cocaína com uma pureza de 80'14% e que era transportada pelo detido “para ser vendida a terceiras pessoas” que as investigações policiais não foram capazes de identificar até o momento. A Promotoria considera que esses fatos são constitutivos de um crime contra a saúde pública, com a agravante da "notória importância da substância confiscada", razão pela qual pede oito anos de prisão e uma multa milionária.

Trecho da denúncia do Ministério Público espanhol contra o sargento Manoel Silva Rodrigues, obtido pelo EL PAÍS.
Trecho da denúncia do Ministério Público espanhol contra o sargento Manoel Silva Rodrigues, obtido pelo EL PAÍS.

No dia seguinte à detenção, Silva Rodriguez entrou na prisão, onde permanece. Os investigadores consideram que o militar brasileiro era uma simples mula ou correio humano, e que tinha um encontro no hotel, para o qual se dirigia tanto ele como o restante da tripulação do avião para descansar durante a escala em Sevilha, com uma pessoa que iria se encarregar do estupefaciente. As circunstâncias em que a droga foi localizada –na mala sem ser ocultada entre as roupas, como pode ser vista nas imagens que EL PAÍS antecipou com exclusividade– sugerem aos responsáveis pelas investigações que o sargento acreditava que não seria submetido a nenhum tipo de controle aduaneiro por fazer parte da delegação do presidente brasileiro em viagem oficial.

A prisão na Espanha de um membro da comitiva de Bolsonaro causou uma enorme controvérsia no Brasil. Durante a campanha que o levou à Presidência, ele prometeu combater o crime e as drogas como nunca antes no país. O Ministério da Defesa brasileiro rapidamente se apressou em emitir um comunicado no qual “repudiava" as ações do militar e mostrava sua disposição de colaborar com as autoridades espanholas para esclarecer o ocorrido. O próprio presidente brasileiro descreveu o evento, em sua conta no Twitter, como "inaceitável" e exigiu "investigação imediata e punição severa ao responsável". Seis militares brasileiros se trasladaram para a capital andaluza na semana passada para interrogar o prisioneiro sobre suas supostas conexões com traficantes de drogas do Brasil e do próprio Exército brasileiro.