Francisco de Assis , o lobo de Gubbio e o Brasil das urnas

O Brasil se prepara para ir às urnas armado de sentimentos de discórdia. Não irá escolher o melhor candidato para dirigir o país, e sim para evitar que seja eleito o pior.

Pedro Ventura (Agência Brasília)

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São as eleições, já se escreveu, do todos contra todos. Os brasileiros não irão votar de mãos dadas, como numa festa da esperança, e sim sós, desiludidos, sob o lema derrotista de “são todos iguais”.

São as eleições em que, nas discussões em família e nas redes, fala-se mais de armas, de medo, de fascismo, de corrupção, de saudade dos militares, de ordem, de caça aos diferentes, de nostalgias autoritárias. As liberdades dão medo. Impera, num país com 80% de cristãos, o Deus da vingança, não o do perdão ou da misericórdia. Menos ainda o do entusiasmo.

Escrevo esta coluna na quinta-feira, dia 4, festa de são Francisco de Assis, padroeiro dos animais e da ecologia, que se apresentava como o irmão de todas as criaturas. É considerado o símbolo do amor universal. O santo mais apegado à terra e o mais despojado de tudo. O santo perante o qual se rendiam as feras selvagens. O amigo da vida, o alérgico às burocracias. Dizia que “as leis criavam homens justos”, mas “só o amor os fazia felizes”.

Já que estamos diante das eleições mais surreais em muitos anos da história deste país, onde até o impossível aparece como real, permito-me, em lembrança a Francisco, fazer uma fantasia. Imaginar que o poverello de Assis aparecesse neste momento no Brasil.

Imaginei-o conversando com os jornalistas, passeando pelas ruas e falando com a gente de cara amarrada, e navegando pelas redes sociais que exalam discórdia e inimizades. Imagino-o perplexo e triste vendo que há quem sonhe com um Brasil armado, onde as pistolas estejam até nas mochilas das crianças ao irem para a escola.

Francisco teria recordado a história atribuída a ele na pequena cidade medieval de Gubbio, na Itália. Havia ali um lobo feroz que era o terror da população, símbolo do medo e da violência. Devorava os pequenos e os grandes. Para combatê-lo, as autoridades decidiram armar toda a população, mas o lobo se burlava das armas e continuava matando. Francisco, o irmão de todos os animais, aos quais considerava “criaturas de Deus”, decidiu ir ao encontro do lobo feroz. Desarmado, falou-lhe de irmão para irmão. O lobo o olhou nos olhos. Escutou-o e se prostrou aos seus pés. Francisco lhe pediu que, em troca de seu amor por ele, deixasse de matar as pessoas. Acabou amigo de todos na cidade. Não voltou a matar ninguém. As armas já não serviam mais. As crianças brincavam com o lobo feroz de antigamente.

Francisco de Assis sempre foi visto como o santo mais parecido com o Jesus da paz, o amigo de todos os desprezados por serem diferentes, o livre de espírito, para quem os felizes e bem-aventurados eram os pacíficos, e não os guerreiros; os limpos de coração, os perseguidos por defenderem a justiça; os famintos, mais que aqueles a quem tudo sobra; os que choram mais que os que riem. Em meu sonho eleitoral, imagino Francisco num debate em que o âncora lhe dá cinco minutos para suas considerações finais. Imagino o santo de Assis, que enfrentou papas e reis para defender seu direito a viver sua fé em liberdade, tirar um papel de seu bolso e ler aos leitores algumas frases da oração que a tradição lhe atribuiu, e que foram traduzidas a todas as línguas:

Onde houver ódio, que eu leve o amor.

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.

Onde houver discórdia, que eu leve a união.

Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.

Onde houver desespero, que eu leve a esperança.

Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Talvez hoje, no Brasil, Francisco acrescentasse o seguinte à sua oração:

Onde houver armas, que eu leve o pão,

Onde houver preconceitos, que eu leve a compreensão,

Onde houver violência, que eu leve ramos de oliveiras da paz.

Vocês acham que alguém votaria nele?