Seleccione Edição
Login

Populismo: a sequela por trás de uma década de cortes

A Grande Recessão acelera os processos de deterioração da percepção da democracia e o declínio da hegemonia do Ocidente

O ultradireitista holandês Geert Wilders e a francesa Marine Le Pen tiram uma ‘selfie’ em 2017.
O ultradireitista holandês Geert Wilders e a francesa Marine Le Pen tiram uma ‘selfie’ em 2017.

As marés da história seguem movimentos imprevistos e aparentemente caprichosos. Dizem que o bater de asas de uma borboleta na América Latina pode provocar um tufão no Sudeste da Ásia. Uma crise financeira causada por empréstimos bancários complexos –hipotecas subprime, ou lixo– prejudica dez anos depois as bases institucionais do mundo ocidental. Um fio conecta os empreendimentos habitacionais do boom imobiliário norte-americano da última década na Flórida ou Nevada, ou os escritórios do Lehman Brothers em Manhattan, com este estacionamento desolado em um bairro nevoento de uma cidade do norte da França.

A cidade é Amiens, um antigo centro industrial cercado de campos de batalhas das guerras mundiais, um lugar acostumado a ser atravessado pelos vendavais da história. No estacionamento deixam seus veículos os trabalhadores –cada vez em menor número e com cada vez há menos trabalho– da antiga fábrica de eletrodomésticos da Whirlpool, transformada involuntariamente em um dos símbolos dos destroços da época. Nesta terça-feira de setembro, às 12h40, hora do intervalo para o almoço, dois homens e três mulheres, trabalhadores nesta fábrica delimitada por trilhos de trem, pomares e currais, e pelo rio Somme, abrem o porta-malas de seus carros, tiram as marmitas e comem em silêncio, de pé.

No mesmo estacionamento e no mesmo local onde essas pessoas almoçam, os dois lados da batalha ideológica que há anos vem ganhando corpo –uma batalha que se acelerou com a queda do Lehman Brothers em setembro de 2008 e a subsequente crise econômica e financeira– acabaram colidindo na manhã de 26 de abril de 2017. A França estava em campanha eleitoral. Em um intervalo de menos de duas horas, sem se enfrentar cara a cara em nenhum momento, os dois candidatos a presidir a França confrontaram suas visões antagônicas sobre a França, a Europa e o mundo.

Ambos visitavam os operários em greve que protestavam contra o fechamento da fábrica e sua mudança para a cidade de Lodz, na Polônia. O fechamento não era uma consequência direta da crise de 2008 nos Estados Unidos, mas também não passava longe das incertezas que pesavam sobre a Whirlpool em Amiens, parecidas com as de regiões atingidas pela desindustrialização do outro lado do Atlântico.

O efeito Le Pen

A candidata da extrema direita Marine Le Pen, com os trabalhadores da Whirlpool de Amiens. 
A candidata da extrema direita Marine Le Pen, com os trabalhadores da Whirlpool de Amiens.  Getty Images

Primeiro veio Marine Le Pen, filha do líder histórico da extrema direita, defensora de mão dura com a imigração e contrária à União Europeia e à globalização. Le Pen tentou reproduzir na França a surpreendente vitória nos Estados Unidos, alguns meses antes, de Donald Trump, o magnata imobiliário e apresentador de um reality show, que rompera todos os esquemas com mensagens contra as elites e os imigrantes. "Comigo [na presidência da República Francesa], a fábrica não fechará", prometeu Le Pen aos trabalhadores, que a aplaudiram.

Seu rival teve menos sorte. Chegou entre vaias dos trabalhadores e no meio de um tumulto de jornalistas. Emmanuel Macron, nascido na própria Amiens 39 anos antes, era um jovem reformador que havia trabalhado em um banco de investimentos –os mesmos bancos que tinham contribuído para a crise nos Estados Unidos–, e fora ministro por dois anos. Encarnava a visão oposta à de Le Pen: pró-europeu e liberal. E defensor da globalização. "O fechamento das fronteiras", disse ele aos trabalhadores enfurecidos, "é uma promessa mentirosa".

Que alguns sindicalistas aplaudissem Le Pen e muitos mais vaiassem Macron foi um sinal. Fazia muito tempo que os moderados tinham perdido apoio na classe trabalhadora: nos Estados Unidos, Reino Unido, na Itália ou na França, a extrema-direita –vestida com os trajes de um novo populismo antielitista, antieuropeu, anti-imigrante e antiglobalização– ganhava posições e estava vencendo eleições. A Frente Nacional, de Le Pen, se proclamava "o primeiro partido operário da França".

Macron venceu as eleições presidenciais poucos dias depois do encontro no estacionamento da Whirlpool, mas mais de dez milhões de franceses votaram em Le Pen. Ela e sua Frente Nacional vinham de longe, dos pequenos grupos da extrema-direita nostálgicos da França colaboracionista com os nazistas e da Argélia francesa, mas eram também a encarnação de um fenômeno comum em toda a Europa e nos Estados Unidos: a desconfiança nas instituições e nos grandes partidos, o apelo ao abstrato povo e à soberania nacional contra as elites cosmopolitas e predatórias.

"Se olharmos para os números brutos, os partidos populistas tiveram, em média, duas vezes mais sucesso após a crise do que antes da crise, o que significa que a Grande Recessão não foi tanto a causa do aumento do populismo, mas o catalisador", diz Cas Mudde, professor da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, e autor de vários livros sobre populismo. A ideia de que a Grande Recessão não criou, mas acelerou fenômenos que já existiam antes, foi repetida por várias pessoas entrevistadas para este artigo.

Mudde distingue entre populismos de esquerda, nos quais o nacionalismo e o racismo não têm papel, e nos quais inclui o partido espanhol Podemos e o grego Syriza, do nacionalismo da direita radical, "que combina o nativismo, o autoritarismo e o populismo". "Para estes, o fator cultural é mais importante que a ansiedade econômica", diz. Ou seja, as vitórias de Trump em 2016 e a de Brexit –a saída do Reino Unido da União Europeia, decidida em referendo no mesmo ano– seriam explicadas mais pelo medo identitário –medo do imigrante, medo de deixar de ser maioria, medo da decadência da própria cultura– que pela crise econômica.

Na campanha eleitoral, Trump soube vincular as queixas de milhões de eleitores brancos da classe trabalhadora pela desindustrialização com o fantasma da chegada de milhões de imigrantes que ameaçariam a identidade norte-americana. A nostalgia de um passado idealizado e puro é o refúgio de um presente de crescentes desigualdades e estagnação do poder aquisitivo. Na realidade, enfatiza Mudde, "muitas pessoas combinam argumentos econômicos e de identidade em seus sentimentos anti-imigrantes".

O cientista político Dominique Reynié, diretor-geral do laboratório de ideias Fondapol, em Paris, fala em "populismo patrimonial". Esse populismo alimenta o medo dos eleitores de perder patrimônio e benefícios (a poupança, a proteção do Estado de bem-estar) e o patrimônio cultural (a identidade, a nação). Reynié remonta aos anos 1990, após a queda do bloco soviético e a aceleração da globalização, como o primeiro momento deste populismo moderno, que se reforça após os ataques de 2001 e ao longo dessa década. A rejeição da França, em referendo, ao tratado constitucional da UE é outra etapa. "Tudo isso aconteceu antes de 2008", lembra Reynié. O ano de "2008", acrescenta, "tem o efeito de acelerar o processo".

A crise financeira e a crise do euro reforçaram a percepção de que os ativos materiais estavam em risco. Mas tudo é mais complexo do que parece: o antieuropeísmo dos populistas de direita –e de alguns com raízes à esquerda– é seletivo. O efeito de 2008 foi duplo, segundo Reynié. Por um lado, sim, uma reação anticapitalista contra as instituições financeiras, a globalização e as instituições da UE, identificadas como responsáveis pela crise. Mas também um apego paradoxal ao euro, porque era uma garantia da proteção do patrimônio material. Um dos fatores que prejudicaram Le Pen contra Macron foi a promessa de Le Pen de deixar o euro, uma medida que, para muitos eleitores, colocava em risco suas economias e aposentadorias.

"Estou convencido de que, embora entre os eleitores dos populistas na zona do euro haja uma nostalgia pela moeda nacional, não há desejo de retornar à moeda nacional porque buscam proteger o patrimônio material, e isso faz com que hoje os partidos populistas fiquem limitados em sua expansão.”

A crise transformou a política nos países ocidentais e também nas relações internacionais. François Heisbourg, presidente do laboratório de ideias Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, em Londres, vê um impacto direto e outro indireto da crise de 2008 nas relações internacionais. O impacto direto é a aceleração da ascensão da China como potência econômica e geopolítica.

O impacto indireto, acrescenta Heisbourg, é "o confronto entre a opinião pública, nos países afetados pela crise, e as elites econômicas e políticas", e isso altera a ordem internacional. "As elites se identificavam com a globalização ocidental e com o multilateralismo estratégico que existia em torno do Ocidente. E é contra tudo isso que o populismo investe, e se aproxima daqueles que pretendem, na Rússia ou na China, apresentar um modelo que se contraponha”, explica. "A consequência é a tendência unilateralista e, em certa medida, isolacionista dos Estados Unidos." O mundo pós-crise é menos ocidental do que o anterior e os modelos autoritários recuperaram prestígio –afinal de contas, foram as democracias que falharam na crise, e seus partidos tradicionais, social-democratas e democratas-cristãos, agora estão em declínio em muitos países. "Não se trata apenas do surgimento da China como um rival estratégico para os Estados Unidos", conclui Heisbourg, "mas da transformação do modo como o mundo funciona estrategicamente".

A globalização? Na antiga fábrica da Whirlpool, os veteranos trabalhadores Frédéric Chantrelle e François Gorlia dão uma resposta tenebrista. "Uma merda", diz Chantrelle, do sindicato CFDT, e ambos riem. "Quando vemos as fábricas que fecharam, isto é o deserto." "Antes, esta era uma zona industrial", lamenta Gorlia, da CGT. "Um dia haverá uma revolução ...", continua Chantrelle. E a UE? "Estamos enojados de ver como grandes empresas estão partindo para outros países europeus em busca de benefícios, quando poderiam obtê-los em Amiens", responde Chantrelle. Em 31 de maio, a Whirlpool fechou. Chantrelle e Gorlia contam que, em meados do ano, os caminhões levaram para Lodz as máquinas para fabricar secadoras. Dos 287 demitidos, a nova proprietária, a empresa local WN, recontratou 170. Nos bons tempos, a Whirlpool tinha 1.200 trabalhadores em Amiens.

Os dois sindicalistas estavam na fábrica no dia em que Macron e Le Pen apareceram. Nenhum dos dois votou. Dizem que não acreditam em políticos. E esta é outra consequência da Grande Recessão: a desconfiança na capacidade das autoridades públicas para resolver os problemas dos cidadãos. "Uma multinacional que quer fechar a fábrica fecha", diz Chantrelle. "Eles vão fechar, não importa se você se chama Macron, Le Pen ou um fulano de tal qualquer.

MAIS INFORMAÇÕES