DIA DAS MÃES 2017

Seis lições que aprendemos sendo mães no exterior

Adoraríamos ser tão glamurosas quanto as mães parisienses que nunca ficam descabeladas, mas continuamos gritando nas pracinhas

Alumnos en clase.
Alumnos en clase. F. J. Vargas

Ser uma mãe brasileira no exterior é ter que se equilibrar entre o mimetismo com a cultura local, as referências da infância no Brasil e a distância da própria mãe cujos sábios conselhos serão, muitas vezes, substituídos por buscas desesperadas no Google (“bebê pode dormir sem arrotar”, “como tirar dente de leite sem dor”, “métodos naturais para acabar com cólica de bebê”, “simpatia para curar soluço”, “como tirar inchaço de picadas de mosquito”).

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Fora do país de origem, também aumenta tudo: as saudades da família, o desejo de se ter uma avó e um avô para ajudar a cuidar das crianças, a culpa por avós e netos não conviverem tanto e por sua relação à distância acabar muito apoiada na comunicação pela Internet (mas graças pela Internet!). Por outro lado, há uma vantagem na distância: com meios, você, seus filhos e seus pais também viajam e conhecem novas culturas e jeitos de ser uma família (globalizada).

Sendo brasileiras, o choque de realidades é inevitável, mas felizmente o aprendizado é constante. E eis o que aprendemos e continuamos aprendendo com as mães ao redor do mundo. A forma de ser mãe pode até variar imensamente de uma cultura para outra, mas, no fim, mães de todo o mundo dividem as mesmas preocupações, ansiedades, aflições, alegrias e amor pelos filhos.

1. Détends-toi et prends un verre (relaxe e tome uns bons drinks, dizem as francesas)

Talvez as crianças francesas façam menos manha porque as mães não passam o tempo todo correndo atrás dos seus pimpolhos. Na pracinha, mais de uma vez, presenciamos mães e avós tomando confortavelmente seus drinks enquanto as crianças sobem em árvores, se jogam dos brinquedos, comem areia etc. No máximo, uma bronca chique estilo “Fulaninho, mamãe não concorda com o que você está fazendo”. Ou algum xingamento que parece bonito e classudo porque é feito em francês.

Adoraríamos ser tão glamurosas quanto as mães parisienses que nunca ficam descabeladas, mas continuamos gritando nas pracinhas.

2. Não existe tempo frio demais. Você é que colocou a roupa errada, dizem mães alemãs

Você já achou estranho ou até engraçado os alemães usarem muito a chamada roupa funcional em vez de optar pelo chique, mas desconfortável (atenção que não estamos falando de sandálias com meias)? Pois as mães alemãs riem por último.

Já ouvimos e repetimos milhões de vezes a frase “nobody moves to Germany because of the weather” (“ninguém se muda para a Alemanha por causa do tempo [bom]”). Os invernos aparentemente eternos são escuros, têm dias curtos, chuva, granizo e neve em várias regiões do país. Sol e céu azul viram raridade e o tempo nublado deixa a gente altamente macambúzia.

Manter as crianças ativas fora de casa num ambiente como esse parece tarefa hercúlea, mas não para quem conhece o segredo das alemãs: fique atenta à previsão do tempo e coloque a roupa adequada no seu filho. Existe roupa e sapato pra todo tipo de humor de São Pedro no país. Ou seja: tempo mau não é desculpa para não sair de casa.

3. Se o teu filho não come, deve ser porque ele, simplesmente, não está com fome

Na França, país onde a refeição é um verdadeiro ritual, as escolas incentivam os alunos a provarem de tudo. Não entendemos ainda qual é a mágica, mas é verdade que as crianças se mostram mais receptivas a novos sabores. Na Alemanha, uma máxima que se ouve muito de pediatras, mas também em livros sobre nutrição, é que “as crianças comem/bebem o que precisam” (e se manifestam de acordo).

Isso nos tirou um peso das costas. Claro que continuamos oferecendo frutas, legumes e tentando preparar refeições equilibradas, mas sem o desespero que leva muitas mães a fazerem chantagem emocional (“mamãe vai chorar se você não comer”) ou dramas geopolíticos (“há crianças passando fome no Sudão do Sul e você não quer comer”). Se o filho, filha, filhx não quis comer nessa refeição, vai comer na próxima. Fim.

Internalizar esse conceito foi fácil. Difícil é convencer as avós brasileiras (e polonesas também).

4. Misture o Brasil com o Egito

Nos últimos anos, o chamado jeitinho brasileiro de improvisar (ou ignorar regras) vem sendo bastante criticado tanto fora quanto dentro do país, mas confessamos que foi extremamente útil durante o ano em que vivemos na cidade egípcia de Damietta, no Delta do Nilo, a cerca de 200 km de Alexandria.

A capacidade de improvisação é uma qualidade valiosa num contexto onde praticamente tudo o que considerávamos óbvio no nosso cotidiano na Alemanha e no Brasil passou a ser uma conquista. Por exemplo, ter eletricidade dentro de casa chegou a ser questão de sorte durante alguns meses, quando o abastecimento caía umas oito vezes por dia (!). Passamos a nos perguntar como manter a casa fresca o suficiente com temperaturas exteriores de 40°C – e confessamos que nem maldizemos mais tanto o frio alemão...

5. Nos EUA, cuide dos filhos dos outros como se fossem seus

Antes de ir morar em Iowa, nos EUA, ouvíamos muitas críticas, especialmente de europeus, sobre a superficialidade das relações interpessoais, ou a abordagem dos americanos uns com os outros e com estrangeiros.

É fato que se pode ter uma conversa longa com o vendedor da loja, o atendente da biblioteca ou alguém no supermercado ou na sala de espera do médico, sem nunca ter visto antes nem nunca mais encontrar aquela pessoa.

Mudando para os EUA a partir de um país como a Alemanha, onde a rede de serviços sociais é muito forte, ficamos positivamente surpresos com a forma como os americanos são unidos em suas comunidades, numa linha "família instantânea". Eles tomam a iniciativa sem esperar benefícios da política e têm uma atitude muito acolhedora e bondosa (prêmio extra para a equipe de pediatras da clínica infantil da cidade de Burlington. Eles sempre tomavam tempo para resolver as nossas dúvidas de adaptação das vacinas das crianças, por exemplo).

6. Sua criança está bem de saúde? Então relaxe e aproveite a viagem, aconselha mãe nômade

Várias vezes nos questionamos se criar duas meninas pequenas num motorhome, durante uma viagem de cerca de sete meses por Espanha, Portugal, Marrocos e França faz sentido – até que encontramos pessoas que fazem viagens longas em carros muito menores que o nosso colosso de sete metros de comprimento.

Tem família com três crianças e cachorro numa van da Volkswagen, com a mulher grávida do quarto filho, e mãe solteira viajando num motorhome próprio com o filho de um ano. A melhor coisa, então, é relaxar e aproveitar a paisagem e o privilégio de poder dar à filha de três anos uma caixinha de areia do tamanho do deserto em Erg Chebbi, no Marrocos.

Renate Krieger, 36, é jornalista e mãe de duas meninas, uma de 3 e outra de 1 ano. Atualmente, aproveita a extensa licença maternidade (até três anos por filho) da Alemanha para viajar com o marido e as filhas num motorhome. Por conta do trabalho do marido, viveu no Egito e nos EUA. Cíntia Cardoso, 40, é jornalista e mãe de dois meninos, um de 1 ano e outro de 6. Tem também um terceiro filho: seu cabelo. Em licença maternidade prolongada (Vive la France!), divide-se entre Paris e Genebra. Ambas criaram o blog maesnomundo.com, @maesnomundo no Facebook.