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Pesadelo global

Nunca um candidato à Casa Branca causou tantos temores e bem fundados

O candidato republicano, Donald Trump.
O candidato republicano, Donald Trump.JIM WATSON (AFP)

Destruindo as previsões iniciais, que descartavam que um bufão com tentações autoritárias como Trump pudesse conseguir a indicação como candidato republicano, a Convenção deste partido, que terminou nesta quinta-feira à noite em Cleveland (Ohio), colocou na corrida para a Casa Branca um candidato que representa um sério perigo, tanto para os Estados Unidos quanto para o resto do mundo.

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Não foi ressentimento de perdedor que levou Ted Cruz — o senador ultraconservador que disputou a indicação com Trump — a enfrentar alguns participantes enfurecidos da Convenção ao negar seu apoio a Trump, mas a convicção, expressa publicamente, de que essa candidatura coloca em perigo os princípios que inspiram a Constituição daquele país.

É lamentável que o Partido Republicano, em um gesto de incapacidade ou covardia que vai entrar na história, não tenha sido capaz de dar um passo para ter, como reivindicou Cruz, um candidato que deixe de lado a raiva, que una os republicanos com valores que são comuns a todos e que assegure a defesa dos direitos e liberdades que sustentam a democracia americana. Não há dúvida de que os EUA, como todas as sociedades democráticas e avançadas, têm vários problemas. Como ficou bastante evidente, a crise da representação política, que Trump tão bem exemplifica, é alimentada por um mal-estar social que tem sua origem nas incertezas geradas pelas profundas mudanças econômicas. Trump alcançou esta designação mergulhando nessas ansiedades com a ajuda do racismo mais escancarado e o populismo mais simplista.

São preocupantes, e muito, as consequências internacionais de uma eventual vitória de Trump (quem se atreve a descartá-la inteiramente após o resultado do referendo britânico?). À conhecida exigência de construir um muro com o México mandando a conta para Governo mexicano e sua proposta inconcebível de proibir a entrada no país de muçulmanos, podemos adicionar agora o questionamento aberto da garantia de segurança que cimenta a Aliança Atlântica.

Em um novo sinal de irresponsabilidade — lida certamente com grande interesse em Moscou e Pequim, que mantêm uma forte pressão sobre os principais aliados dos EUA na Europa Oriental e no Mar da China Meridional —, Trump desconheceu o cumprimento da cláusula de assistência mútua, prevista no artigo 5º do Tratado da Aliança, que obriga todos seus membros a considerar um ataque contra um deles como um ataque contra todos. Precisamente em um momento no qual a Aliança acaba de reforçar seu flanco oriental e mandar uma clara mensagem a Moscou sobre a integridade de seus membros, e quando a China avalia sua resposta à arbitragem negativa de Haia.

Está na consciência dos eleitores republicanos, divididos como nunca e abandonados por seu partido, decidir se Trump deve ser o presidente dos Estados Unidos que eles e o mundo merecem. Um péssimo começo para um desenlace que esperamos que aconteça. Para o bem de todos.