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Formar Governo

Triste vitória do PP em um cenário desolador. Os eleitores colocam o PSOE na oposição, de onde deve permitir que os que tenham votos governem

Mariano Rajoy saúda partidários após a contagem dos votos.
Mariano Rajoy saúda partidários após a contagem dos votos.MARCELO DEL POZO (REUTERS)

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Após se conhecer a decisão dos espanhóis, o cenário é diferente do de 20 de dezembro, mas as novidades não são suficientes para que uma só força política possa assegurar o futuro Governo. A prioridade absoluta é a de tornar possível um pacto que garanta rapidamente um Executivo estável, corrigindo assim a pior consequência do mandato anterior. Agora soluções são necessárias, mas para isso é preciso passar por cima dos interesses partidários e pessoais mais concretos. Não pode se repetir de maneira nenhuma a esterilidade do período anterior e a utilização do irresponsável expediente de se deixar levar até terceiras eleições.

O resultado do PP, claramente melhor do que o de dezembro, dá novamente ao partido a iniciativa para tentar formar o Governo; esperamos que não a recuse de novo. Seu líder, Mariano Rajoy, pode se sentir razoavelmente recompensado com as cadeiras conquistadas, mas continua distante de poder governar sozinho. Cabe a ele tentar a formação de um Governo de base ampla e para isso precisa iniciar um diálogo responsável e sincero. Continuamos acreditando que a retirada de Rajoy facilitaria esse processo, mas assumimos que o presidente do Governo (primeiro-ministro) verá este resultado como uma reivindicação pessoal. Sua estratégia de polarizar a campanha, com a ajuda do Podemos – involuntariamente, também do plebiscito britânico – foi eficaz, por mais que a sua não seja mais do que uma triste vitória em meio a um cenário desolador.

As demais forças precisam interpretar com realismo o que aconteceu. No caso do PSOE, se trata de um partido tão combalido que até um péssimo resultado – como o que indubitavelmente obteve, que piora o desastre de dezembro – pode se transformar em uma boa notícia, visto que se manteve na segunda posição e evitou que fosse ultrapassado como tanto se comentou. Quando na sede do PSOE terminar o suspiro por ter se livrado do final por morte súbita, talvez compreendam que todos os problemas do partido continuam da mesma forma, piorados agora pelo fato de que tem cinco deputados a menos do que os existentes até hoje. Esperamos que nos próximos dias, com mais calma, o PSOE inicie um verdadeiro processo de reflexão e reestruturação para abordar as questões essenciais que continuam ameaçando sua sobrevivência. No momento, com a prioridade absoluta de facilitar a governabilidade, o PSOE deve escutar a vontade dos eleitores de que permaneça na oposição e permita com sua abstenção que governem os que têm os votos para fazê-lo.

O PP deve iniciar um diálogo responsável e sincero que supere de una vez os bloqueios

Ainda que o PSOE tenha sofrido um novo retrocesso em cadeiras, o golpe mais importante sem dúvida foi recebido pelos dirigentes da coalizão Unidos Podemos. Sua estratégia de constituir um bloco de esquerda, somando os votos que obtiveram separadamente em dezembro, não funcionou. Parece até mesmo ter gerado um repúdio entre muitos eleitores e provocado uma certa corrente de simpatia ao PSOE.

Com esses resultados, o Podemos não pode exigir a hegemonia da esquerda e muito menos liderar, como pretendia, um projeto de mudança política baseado em uma maioria que não existe entre os eleitores. O PSOE continua sendo o partido que lidera a esquerda europeísta, reformista e constitucionalista: os eleitores continuam respaldando-o como opção moderada e mais identificada como a socialdemocracia.

Mais do que nunca se espera que os lideres ressaltem seu senso de responsabilidade no momento de administrar os resultados. Certamente a mudança de representação obedece ao desgaste do sistema anterior, como analisamos muitas vezes. Mas agora é preciso colocar soluções, partindo do fato de que nenhuma das minorias votadas no domingo têm força suficiente para impor seu ideário. E é preciso fazê-lo através da força que um Governo constituído implica, sem prolongar por mais tempo a interinidade que prostra a Espanha a partir do fracasso das negociações para se constituir um poder executivo.

O PSOE continua sendo o partido que lidera a esquerda europeísta e constitucionalista

É a hora da generosidade dos partidos e de se aceitar maiores doses de sacrifício para se conseguir um pacto. A estabilidade da Espanha precisa de soluções. O pior seria reproduzir a esterilidade da breve legislatura anterior: acabar com os bloqueios é a ideia que deve predominar. Nada seria mais irresponsável do que provocar as terceiras eleições em um ano.

Para que a legislatura possa começar é preciso optar por uma fórmula de governo. É necessário construir uma solução que tenha melhor sorte do que a tentada pelo Ciudadanos e o PSOE no malsucedido mandato anterior. Seja qual for o desenlace, precisamos de um Governo que satisfaça as necessidades das pessoas e que tenha credibilidade aos olhos dos espanhóis e de nossos parceiros europeus.

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