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Dialogar na Venezuela

Maduro dá um preocupante salto qualitativo no endurecimento do regime

Exercícios militares em um bairro a oeste de Caracas (Venezuela).
Exercícios militares em um bairro a oeste de Caracas (Venezuela).MIGUEL GUTIÉRREZ (EFE)

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Depois de dois dias de exercícios militares nos quais mais de meio milhão de soldados e civis armados foram mobilizados, o presidente Nicolás Maduro deverá agora explicar onde está a invasão iminente a partir da qual justificou manobras desnecessárias em um país que enfrenta gravíssimos problemas de abastecimento e de financiamento para conseguir que as estruturas do Estado funcionem minimamente. A retórica populista se esgota em suas próprias profecias nunca cumpridas, e para justificá-las não tem outra opção além de mais do mesmo.

Maduro declarou o estado de exceção por tempo indeterminado; com isso, se outorga poderes que lhe permitem suspender parcialmente os direitos constitucionais e ignorar as decisões da Assembleia Legislativa. Diante do preocupante endurecimento do regime, é acertada a medida do Governo espanhol de conceder a nacionalidade a venezuelanos cuja integridade possa correr perigo. É impossível negar — apesar de alguns líderes da nova política o fazerem com uma autoconfiança assombrosa — a existência de opositores encarcerados e um aumento da violência política, como ficou patente na repressão às marchas opositoras na semana passada.

Enquanto isso, multiplicam-se as mensagens que advertem que a situação não pode continuar assim, pelo grave risco que representa para a Venezuela e para toda a região. O fato de que uma voz com tanta influência na esquerda latino-americana quanto a do ex-presidente do Uruguai José Mujica tenha dado Maduro como louco mostra o desprestígio no qual o governante venezuelano caiu. Nesse contexto, todos os esforços para buscar uma solução negociada podem ser úteis, como o protagonizado pelo ex-presidente do Governo José Luis Rodríguez Zapatero ou a anunciada visita do líder do Ciudadanos, Albert Rivera. Maduro deve entender que só o diálogo com a oposição e não suas milícias armadas pode salvar a Venezuela.

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