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A razão dos animais

A curiosa amizade entre um idoso e um pinguim alimenta a reflexão sobre homens e animais

João Pereira de Souza e seu amigo o pinguim.

"Odeio e detesto principalmente aquele animal chamado homem". Jonathan Swift.

A história de amor entre um idoso brasileiro e um pinguim deu a volta ao mundo. João Pereira de Souza, viúvo de 71 anos, se deparou com o pinguim há cinco anos, coberto de piche em uma praia perto de seu humilde lar. Limpou-o, deu-lhe algumas sardinhas para comer e devolveu-o ao mar. O pinguim nunca se esqueceu de seu salvador. Volta para visitá-lo regularmente, convivendo com Pereira por semanas ou até meses antes de voltar a seu gélido habitat natural.

Segundo uma reportagem do The Wall Street Journal, os dois passeiam juntos pela praia, tomam banho de mar. Se um cachorro ou gato se aproxima de Pereira, o pinguim os espanta batendo as asas e emitindo ruídos agudos. “Gosto dele como se fosse meu filho”, diz Pereira, cujos filhos no Rio de Janeiro se queixam de que dedica mais tempo ao pinguim do que a eles.

Por que a notícia causou tanto interesse? Em parte, talvez seja porque os seres humanos ficam fascinados por histórias (basta dar uma navegada pelo YouTube para ver) que revelam nossa afinidade com os demais habitantes da terra. Em quase todas as culturas, há histórias ou filmes de animais aos quais são atribuídas características humanas (me vem à mente Madagascar, com seu leão, girafa, burro, hipopótamo e a simpática tropa de pinguins) e parecemos ter uma necessidade de acreditar que algo de verdade existe nessas fantasias infantis.

Por outro lado, a história do homem que adotou o pinguim, ou do pinguim que adotou o homem, apela para valores que não costumam saltar à vista nas notícias que recebemos em nossos celulares, tablets, rádios, televisores ou, para os nostálgicos, jornais impressos. Pode ser que o pinguim só vá visitar o velho por suas sardinhas, mas a história nos comove porque escolhemos ver uma incomum pureza na relação entre homem e animais, uma sensível reafirmação de valores como a generosidade, a lealdade e o afeto incondicional que não costumamos ver quando lemos sobre os atentados terroristas dos islamonazistas, o desespero dos refugiados sírios, o cinismo putinesco, a imbecilidade trumpiana, a rapacidade das multinacionais, os nacionalismos raivosos, a mal-humorada paralisia que hoje define a política e a corrupção de governantes por onde quer que se olhe, como no país de João Pereira, onde o ex-presidente Lula foi levado a depor há alguns dias pela polícia.

Vi a história de Pereira e do pinguim e pensei imediatamente em versos de um poema de Walt Whitman que ronda em minha cabeça desde a primeira vez que o li, já se vão mais de 30 anos. Aqui vão, em tradução livre:

Creio que poderia transformar-me e viver com os animais,

eles são tão plácidos e donos de si.

Paro para contemplá-los e assim fico.

Eles não se preocupam nem se queixam da própria condição,

Não passam a noite em claro, remoendo culpas,

Nem me aborrecem recitando suas obrigações para com Deus,

Nenhum deles se mostra insatisfeito,

nenhum deles se vê dominado pela mania de ter coisas,

nenhum se ajoelha diante de outro,

nem diante da recordação de outros da mesma espécie

que viveram há milhares de anos,

nenhum deles é respeitável ou desgraçado sobre a face da Terra.

A ideia que Whitman quer transmitir pode se resumir na famosa citação, atribuída por muitos a Charles de Gaulle: “Quanto mais conheço o homem, mais eu gosto do meu cão”. Ou seja, contemplamos as mesquinharias dos seres humanos e os desastres que provocam e nos questionamos sobre a premissa sobre a qual se baseia a maioria de nossas crenças, a de que somos superiores ao resto das criaturas do mundo animal, que nós —e apenas nós— somos feitos à imagem de Deus.

A história nos comove porque escolhemos ver uma incomum pureza na relação entre homem e animais, uma sensível reafirmação de valores como a generosidade

Já se escreveu muito sobre o tema, com a opinião científica dividida entre aqueles que dizem que somos especiais e os que veem o ser humano como mais uma besta da natureza.

Um biólogo britânico chamado Henry Gee escreveu um livro no qual conclui que não há diferenças qualitativas entre os homens e os animais. Não representamos o topo da evolução; não somos mais excepcionais, argumenta Gee, “do que um porquinho-da-índia ou um gerânio”. Marc Bekoff, professor universitário nova-iorquino, é um especialista em comportamento animal que escreveu sobre a vida emocional das abelhas, o altruísmo dos ratos, a espiritualidade dos chimpanzés. Berkoff compartilha com Gee a opinião de que a diferença entre a complexidade mental dos homens e a dos animais é simplesmente proporcional.

Do outro lado do debate está Michael Tomasello, psicólogo norte-americano que dedicou sua vida a investigar as diferenças entre os humanos e os primatas. Tomasello conclui que a diferença elementar reside no fato de nós sermos capazes de cooperar para obter objetivos comuns e que eles são quase sempre por natureza egoístas e competitivos. Ou seja, que somos animais sociais dotados da virtude da empatia, capazes de dar o salto mental que nos permite entender as emoções e necessidades —inclusive a língua, a cultura e a religião— do próximo.

Persuasivo, Tomasello. Tendo mais à sua tese. João Pereira sente amor; o pinguim sente fome. Mas o fato de que nossos processos cerebrais sejam mais complexos que os dos animais não nos torna seres mais sensatos, nobres ou decentes. Por isso também me inclino à visão de Whitman: os animais causam menos repulsa do que nós. Nas viagens de Gulliver, uma sátira aguda contra o que entendemos como civilização, Jonathan Swift acaba comparando os vícios, as idiotices e as crueldade dos humanos, os yahoos, à racional serenidade dos cavalos. Gulliver, antecipando-se a Whitman, acaba convivendo com um estábulos desses animais. Antecipa-se também a João Pereira, que parece preferir a companhia de seu amigo pinguim à dos seres de sua própria espécie. É difícil convencer-se de que lhe falta razão.

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