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‘Cambiemos’ muda a história

Coalizão opositora abriu para a sociedade a janela da liberdade nestas eleições

Novos e bons ares se respiram na Argentina

Eleitores de Daniel Scioli no dia das eleições.
Eleitores de Daniel Scioli no dia das eleições. AFP

Era sexta-feira 28 de outubro de 1983, véspera da eleição que terminou com o trágico regime militar na Argentina. O Partido Justicialista (PJ) – o peronismo – terminou sua campanha na Avenida 9 de Julio. A União Cívica Radical tinha feito um ato próprio dois dias antes no mesmo lugar com uma verdadeira multidão. O peronismo mobilizou o aparelho sindical inteiro para reunir mais pessoas. E conseguiu, com mais de um milhão de pessoas na larga avenida, do obelisco para o sul.

As pesquisas davam o PJ como favorito. No palco estavam os dirigentes sindicais em torno do candidato presidencial Ítalo Lúder, preparando a festa. Entre eles, estava Herminio Iglesias, líder territorial de Avellaneda e candidato a governador da província de Buenos Aires, distrito com 40% do eleitorado. Alguém entregou a Herminio um caixão pintado com o emblema do radicalismo, o histórico rival. Herminio colocou fogo e a cena percorreu o país nas 48 horas seguintes. Não havia redes sociais, mas bastaram as imagens da televisão.

O peronismo perdeu naquele domingo, pela primeira vez, em uma eleição livre e irrestrita. Depois do trauma do regime militar, aquele país não toleraria mais mortes. Herminio era um peso pesado, com uma vida no calor da luta sindical e carregava várias balas em seu corpo como prova disso. Era, precisamente, o que o país não queria.

Vamos avançar rápido para 2015. A pergunta dos últimos tempos foi se o kirchnerismo teria seu próprio Herminio. O papel no filme foi dado a Aníbal Fernández, também candidato a governador, um personagem com processos judiciais por tráfico de efedrina. O kirchnerismo, autodefinido como herdeiro do peronismo, perdeu a eleição na província, resultado que forçou o segundo turno presidencial no próximo 22 de novembro.

Durante meses os candidatos de Cambiemos, a coalizão opositora, informa que nos bairros de baixa renda da periferia como Lanús, Quilmes – o distrito de Aníbal Fernández – e Avellaneda – justamente a terra de Herminio – o maior medo dos pobres é violência do tráfico de drogas. É que ela leva, também, a vida de seus filhos.

Em sua arrogância infinita, o kirchnerismo despreza aqueles que afirma representar: os pobres. Assumiram que votariam em um candidato que temem; pensaram que bastaria usar o aparato; assumiram que os pobres não têm autonomia. Talvez acreditaram que os pobres não são capazes de pensar por si mesmos. Nesses distritos ganhou Cambiemos, entre muitos outros.

Só com isso, um novo tempo político se aproxima. Não é pouco, se esse novo tempo for mais civilizado e mais democrático. Mas também se esse novo tempo permitir que a Argentina abandone os clichês de uso corrente, principalmente o da permanência hegemônica do peronismo. É bom lembrar, portanto, que o peronismo pode perder e já perdeu, como em 1983 e 1999, e também em outra eleição da Província de Buenos Aires em 1997. Um partido é hegemônico, precisamente porque não perde eleições.

É um novo tempo porque Cambiemos mostra o aparato dos caciques territoriais, como era Herminio, e expõe o autoritarismo deles. Cambiemos propõe respirar oxigênio depois da asfixia de um casamento no poder durante 12 anos. Cambiemos expressa o cansaço da sociedade com a cadeia nacional, com as verdades reveladas, com a desqualificação do oponente, com a intimidação ao crítico. Por isso votaram nele tanto os pobres quanto os ricos.

Não importam as pesquisas, Cambiemos já ganhou. Mudou o discurso, mostrou que não existe a inevitabilidade, abriu para a sociedade a janela da liberdade, a mesma que Raúl Alfonsín abriu em 1983, quando a sociedade rechaçou os caixões e o fogo.

Tendo mudado a história, é improvável que seja derrotado em 22 de novembro. Novos, e bons ares se respiram na Argentina.

Twitter @hectorschamis

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