O alto risco da ‘russificação’

Temos empresas e órgãos públicos que ainda estão contaminados pelo vírus que afetou a Rússia dos anos 90 e gerou a metástase da corrupção atual

Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro (Brasil).
Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro (Brasil). (EFE)

No dia 17 de fevereiro de 1996, o oligarca russo Boris Berezovksy, dono de uma grande fortuna proveniente de negócios na mídia, petróleo e gás, tinha uma audiência com o presidente da Rússia, Boris Yeltsin. Chegou à antessala do gabinete com o discurso pronto: “Dividir para reconstruir”.

Naquela época, a Rússia estava tentando se adaptar a inundação do mundo capitalista e resolveu administrar esse tsunami fechando os olhos à corrupção e liberando favores a um grupo seleto.

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Autorizado a entrar, após afagos e cavalheirismos entre bons amigos, Berezovsky foi direto ao ponto: “Senhor presidente, precisamos colocar ordem na nova Rússia. Nada mais do que oito grandes grupos. Com os oito satisfeitos, o senhor não precisa se preocupar com eleições”.

Naquele momento, a escolha em nome de uma democracia capenga, que até hoje é suspeitíssima, foi fatiar o país para poucos, assim, poucos teriam a real capacidade de tumultuar o governo. A Rússia entrou em um espiral de corrupção poucas vezes vista no mundo moderno, onde um grupo de oligarcas controlou e se apossou de bens públicos. O governo nada fez além de chancelar.

O sequestro do estado ocorreu por meio do lucro exorbitante que o bem público gerou para alguns indivíduos que cresceram no comunismo, mas sempre tiveram a palma da mão capitalista.

Desde então, alguns países flertam com o modelo russo, ou seja, a manutenção no poder de uma camarilha com licença para se apossar de bens que pertencem a toda a sociedade, de modo que não seja preciso negociar com muitos.

Décadas depois, o triste “sucesso” do ocorrido na Rússia ganhou uma versão tipo export. No Brasil, por meio de uma adaptação bem-sucedida do “coração socialista com a palma da mão capitalista”. Nem todos se aproveitaram dessa gestão anárquica. Alguns conseguiram manter seus ideais, por mais retrógradas que sejam, responsáveis por outro tipo de dano.

Uma importante diferença para a construção russa foi que, entre os que se apropriaram dos destinos setoriais do país, havia um controle político mais robusto do que o inicial, implantado por Yeltsin.

Quando um integrante da equipe de investigação da Operação Lava-Jato, em Curitiba, disse a um amigo “devemos impedir a russificação”, ele se referia exatamente ao que ocorreu em Moscou ao longo da década de 90, fazendo com que hoje seja impossível remover as raízes da erva daninha que assaltou o estado.

O Brasil correu e corre um grande risco de russificação. Temos empresas e órgãos públicos que ainda estão contaminados pelo vírus que afetou a Rússia dos anos 90 e gerou a metástase da corrupção atual. Obviamente, não é de hoje que esquemas na Petrobras e em outros órgãos públicos existem e sugam riquezas do país. O fato de estes esquemas terem se sofisticado e incorporado mecanismos de benefícios diretamente ligados a partidos, a partir de 2003, não muda o fato de se tratar de um problema histórico e cultural.

Ou a sociedade compactua com a busca da solução, aceitando um antibiótico amargo que gera efeitos colaterais complicados para o país, ou finge que esse vírus que colocou a Rússia em uma triste condição, nunca irá atingir o Brasil. Participar da busca pela solução dessa ameaça é o maior dos atos democráticos. Maior até do que votar, já que a pressão da sociedade é que garantirá a celeridade e transparência dos processos de investigação.

Thiago Aragão é sócio da consultoria de análise política Arko Advice.

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