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Contar com a Turquia

A União Europeia acerta ao recorrer a Ancara para resolver a crise dos refugiados

Angela Merkel, David Cameron e François Hollande em encontro celebrado durante a cúpula de Bruxelas.
Angela Merkel, David Cameron e François Hollande em encontro celebrado durante a cúpula de Bruxelas.YVES HERMAN (REUTERS)

A decisão da UE de contar com a Turquia para enfrentar o problema das dezenas de milhares de pessoas que estão chegando do Oriente Médio à Europa é uma estratégia acertada que também ajuda a enfrentar outras questões importantes relacionadas com a segurança da Europa.

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Os chefes de Estado e de Governo da UE reunidos em Bruxelas escolheram uma opção eficaz ao acordar uma ajuda financeira –cujo montante exato ainda será determinado– a Ancara para que a Turquia possa assumir a presença em seu território dos refugiados que lá chegaram e dissuadi-los de avançar em direção ao continente. Experiências anteriores de sucesso, como a ajuda financeira que a Espanha continua prestando ao Senegal, demonstram a validade de tais políticas na hora de combater os fluxos de imigração irregular.

Devemos louvar o fato de que a chanceler alemã Angela Merkel tenha indicado o caminho e aberto a porta para um orçamento mais que considerável de 3 bilhões de euros (cerca de 13,4 bilhões de reais) para a Turquia, contra as vozes que propunham um montante seis vezes menor. A Europa vive uma crise sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial e embarcar em uma discussão estéril sobre a quantia só agravaria a situação. Além disso, Merkel, uma vez mais no papel oficioso da principal representante da política da União Europeia, viajará na segunda-feira a Ancara para discutir o assunto com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

Também é conveniente ressaltar que a Turquia jogou bem suas cartas e aproveitou a necessidade da União para colocar sobre a mesa duas velhas questões: a liberalização de vistos para permitir que seus cidadãos se desloquem no espaço Schengen e a reativação do processo de integração na UE, quase enterrado depois das atitudes autoritárias de Erdogan nos últimos anos. Trata-se de dois assuntos que voltam a colocar Bruxelas frente à pergunta sobre o tipo de relação pretende ter com Ancara e até onde deseja chegar. E a Turquia merece uma resposta.

O importante é que com essa proposta a Europa dá finalmente um passo que vai além das medidas de emergência de curto prazo. A crise dos refugiados não reside apenas em ter em conta aqueles que já chegaram à Europa, mas aqueles que estão a caminho. Contar com a Turquia como parceira nessa empreitada é um passo lógico que ajudará a evitar tragédias como as que acontecem quase diariamente em vários pontos do trajeto.

Além disso, o plano europeu pode servir para canalizar a relação com a Turquia, que se rarefez consideravelmente nos últimos anos, em grande parte devido ao desacordo existente entre as aspirações turcas de aderir à UE e as reticências europeias. A Turquia realizará eleições legislativas no dia 1º de novembro e sua estabilidade está ameaçada pelo terrorismo, como mostrou o sangrento atentado que aconteceu há uma semana. A colaboração com Ancara é importante para questões que vão muito além da atual crise. Trata-se de um país fundamental para a segurança da Europa e é bom que os líderes da UE tenham sabido interpretá-lo assim.

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