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Quando o sexo não é mais tabu: o ‘reset’ da revista ‘Playboy’

O sexo foi tão banalizado, o nu se tornou tão onipresente, que um ícone do erotismo precisa dar um passo atrás para sobreviver

Jenny McCarthy na edição de janeiro de 2005 da Playboy.
Jenny McCarthy na edição de janeiro de 2005 da Playboy.

Em tempos de Internet, o sexo já não é mais tabu. O erotismo, expresso em forma de nu feminino mais ou menos artístico, está em baixa, varrido por uma pornografia descaradamente explícita que está ao alcance de qualquer um. Neste novo cenário, a revista Playboy, ícone do erotismo durante mais de sessenta anos, se vê obrigada a fazer um reset para sobreviver. E, paradoxos da vida, esse reset consistirá em dar um passo atrás: a partir de março, não exibirá mais mulheres nuas em suas páginas. Continuará oferecendo imagens de atrizes e modelos famosas, é claro, apresentadas de forma sensual e sedutora, é claro, porém vestidas.

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Quando Hugh Hefner criou a revista, em 1953, o nu feminino era uma provocação. A revista tinha um forte componente de ruptura com uma sociedade empolada e puritana, que já estava em declive nos Estados Unidos e que na Europa voaria definitivamente pelos ares com a revolução cultural de maio de 1968. A Playboy se tornou um símbolo da revolução sexual dos felizes anos sessenta, mas uma revolução destinada exclusivamente aos homens e com olhar masculino. As feministas, que preconizavam outro tipo de revolução sexual, nunca gostaram da revista, porque não deixava de ser uma liberação apoiada na utilização do corpo da mulher como objeto de desejo. E como objeto de comércio. Mas o mercado demonstrou que a fórmula, baseada em uma atrevida combinação de nus e artigos aprofundados, tinha futuro.

Capas da Pamela Anderson para a 'Playboy'.
Capas da Pamela Anderson para a 'Playboy'.

Sua aposta em uma nova forma de entretenimento masculino, apoiada em “uma filosofia e um modo de entender a vida”, funcionou muito bem em conjunto com o protótipo de masculinidade expansiva que estava triunfando. Eram homens seguros de si mesmos, inteligentes, ambiciosos, consumidores compulsivos do sucesso, que amam a cultura, ou pelo menos praticam certo esnobismo, e que procuram nas mulheres o amor, mas sobretudo um corpo belo do qual desfrutar. Uma masculinidade e umas relações como aquelas que James Salter tão magistralmente descreve em seu romance Tudo Que É. Seus leitores tinham um álibi: além de coelhinhas, havia na revista também artigos interessantes, de modo que os 50.000 exemplares da tiragem inicial logo ficaram para trás. Em 1972, a Playboy chegou a sete milhões de exemplares. E o merchandising que ela gerava se transformou em uma máquina de ganhar dinheiro.

Hugh Hefner em uma foto de 2007.
Hugh Hefner em uma foto de 2007.Damian Dovarganes (AP)

Mas pouco a pouco o erotismo deixou de ser um gancho. As sensibilidades mudaram. E, embora continue vendendo 800.000 exemplares, é necessária uma guinada. O sexo já não é mais um tabu a derrubar. Já não há mistério. O pêndulo está oscilando para o outro lado. O sexo foi tão banalizado, o nu se tornou tão onipresente e tão prosaico, que surgiu a necessidade de colocar um véu, de acentuar o que o sexo pode ter de descobrimento, de aventura sentimental. Volta um certo ar de romantismo como reação a padrões sexuais excessivamente frios e coisificadores. Nesse novo contexto, insinuar, sugerir, estimular a imaginação –isso pode acabar sendo mais atraente do que mostrar. Essa parece ser a linha da Playboy agora. Vejamos no que vai dar.