Coluna
i

Como se vingar de um marido traidor

Ou melhor: como uma mulher desprezada, depois de 32 anos de casamento, vai à forra com muito sexo selvagem

Uma das 32 capas do livro, inspirada na foto clássica da escritora Simone de Beauvoir.
Uma das 32 capas do livro, inspirada na foto clássica da escritora Simone de Beauvoir.

“O primeiro me chegou, como quem vem do florista (...). O segundo, me chegou, como quem chega do bar (...). O terceiro me chegou, como quem chega do nada, ele não me trouxe nada, também nada perguntou...”

E assim, como em um versão ampliadíssima da canção Teresinha, Estela –nome fictício para uso nas aventuras eróticas dos encontros via Internet– enfileirou, sem fastio sexual, do primeiro ao 32º homem. No mesmo vasto mundo das personagens de Chico Buarque, Estela adotou uma atitude (i)moral que lembra a destemida fêmea da letra de Folhetim:

“Se acaso me quiseres/ Sou dessas mulheres/ Que só dizem sim...”

Ao tomar conhecimento das aventuras de Estela, este cronista que vos batuca na caixinha de fósforo do lirismo se deparou com Isabel Dias, nome legítimo desta paulista do interior, administradora, 50 e poucos anos de vida, que agora se revela como autora de um livro capaz de enrubescer a família tradicional e encorajar outras tantas senhoras e senhoritas de todas as idades.

Tive a honra de ser convidado, por um dos seus filhos, para escrever uma apresentação de 32 –Um homem para cada ano que passei com você (editora Livros de Safra, selo Da Boa Prosa). Foi um prazer que não coube em um simples prefácio. Por isso volto ao assunto neste nosso religioso botequim de toda sexta-feira.

MAIS INFORMAÇÕES

Um homem na cama para cada aniversário de casamento, afinal de contas, como diz a epígrafe escolhida do dramaturgo inglês William Congreve (1670-1729), “não há no céu fúria comparável ao amor transformado em ódio, nem há no inferno ferocidade como a de uma mulher desprezada”.

Vingança

Depois de mais de três décadas de um casamento aparentemente feliz, três filhos e um álbum de família recheado de boas recordações, Isabel descobre que o marido a traía com quatro mulheres ao mesmo tempo, adultério quádruplo –canalhice que não vemos nem mesmo no maior cafa das peças de Nelson Rodrigues, nosso especialista em tragédias do gênero.

Deflagrou, doravante, a Operação Chega de Bandalheira. Chega dessa historinha de suportar toda a sacanagem do marido em nome da manutenção, a todo custo, do relacionamento até então exemplar aos olhos dos amigos e vizinhos.

Cante comigo, Isabel: “Só vingança, vingança, vingança/ aos santos clamar...”

Comecei a leitura, como escrevi no livro do calibre 32 do erotismo, com a canção de Lupicínio Rodrigues (1914-74) na radiola. O velho Lupi, para quem nunca sofreu de amor ou não procurou saber, foi o gaúcho que inventou a expressão dor-de-cotovelo –um sofrimento cuja origem é a imagem clássica de um homem esperando uma mulher que não vem em um balcão de um bar qualquer.

Dor amorosa com dor amorosa se paga?

Com a fúria de uma esposa traída, Isabel pediu o divórcio e devorou de Rodrigo, o primeiro que foi chegando, a Ricardo, o derradeiro desta saga erótica. Os perfis dos homens são os mais sortidos. Tem Nilton, o poderoso; Dr. Fernan, o safado; Ronaldo, o engodo; Miguel, el brujo; Lauro, o caipira; Theo, o baixinho gigante; Joaquim, o lutador; Tim, o alternativo...

Vergonha

A cada homem, entre solteiros e casados, um suspense. Óbvio que essa largada embute medo, insegurança com o corpo, reaprendizado, redescoberta. “Aprendi a não ter vergonha. Aprendi a me olhar no espelho e ver um corpo vivo, pulsante”, diz.

Isabel também temia, ao longo da aventura, se deparar com um daqueles roteiros sinistros de encontros de Internet. Histórias de roubos, de aproveitadores, chantagistas etc. Felizmente nada disso ocorreu.

A foto clássica da escritora Simone de Beauvoir, em 1950, inspira as 32 cabalísticas capas diferentes do livro de Isabel Dias

O máximo, como a autora relata, cruzou o destino de um cara “violento com carinho”, como descreve o sexto da fila, Marcos, o selvagem, advogado paulistano. “Quando gemi e reclamei, ele pediu desculpas de novo, como o menino do colégio, mas não diminuiu a pressão em nada. Safado!”, narra.

A bela soltura de uma mulher que bem poderia, como é bem comum, se conformar e seguir a rotina do lar doce lar. Assim não teria conhecido João, “o seguro”, 24º do enredo, “negro, bonito, gostoso, cinquentão, de têmporas grisalhas”. Tampouco teria, no meio do caminho da sua aventura, encontrado com Otávio, “o diferente”, promotor, 46 anos, divorciado e feio –“desses de dar medo”.

Beauvoir

A foto clássica da escritora Simone de Beauvoir, nua no banheiro da casa do amante e poeta americano Nelson Algreen, em 1950 –revelada pela revista francesa Le Nouvel Observateur– serve de inspiração para as 32 cabalísticas capas diferentes do livro de Isabel Dias. Cada capa uma modelo voluntária, fotografada por Graciela Lindner. O importante é que a modelo, nada de padrãozinho publicitário, tenha vivido algum episódio de traição.

O exemplar que recebi da autora é estampado com R.R., 43 anos, e a seguinte legenda: ela descobriu, depois de 11 anos, que o companheiro a havia traído com a sua “melhor amiga”. Dupla perda. Ironicamente, R.R. ficaria, na sequência, com o melhor amigo do ex-marido.

Donde pergunto: dor amorosa com dor amorosa se paga?

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Os Machões Dançaram –crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões (editora Record).