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A hora de esclarecer

É preciso delinear o mapa político e recuperar o consenso constitucional

Partidários de Junts pel Sí com seus principais candidatos, na noite da eleição de 27-S.
Partidários de Junts pel Sí com seus principais candidatos, na noite da eleição de 27-S.Jorge Guerrero (AFP)

Da confusão não pode nascer a luz. As urnas são sempre úteis para esclarecer quais são as autênticas opções democráticas, mas de uma convocatória eleitoral confusa não poderia sair um panorama claro. Os 62 deputados eleitos pelo Junts pel Sí, seis menos que a maioria para governar com estabilidade e um menos que a maioria presidencial para a investidura, seriam suficientes em um Parlamento normal, onde sempre estariam os números complementares do campo moderado para sustentar o Executivo. Não é assim no Parlamento que saiu das eleições de 27-S, no qual a força que complementa de forma quase natural esta maioria insuficiente é nada menos que a CUP, para quem não é suficiente romper com a Espanha, também querem estender a ruptura com a UE, a OTAN e até mesmo com o sistema capitalista, inabilitando assim, em conjunto, qualquer eventual compreensão do processo soberanista a partir da arena internacional.

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A Catalunha está condenada, desde o 27-S, à fragmentação, à instabilidade e à ingovernabilidade. A tarefa de demolição à qual se entregou Artur Mas agora chega a sua própria figura como timoneiro do processo de independência, questionada por seus parceiros da independência, seja dentro da coalizão, seja na força complementar mais extremista que é a CUP. Se até agora tinha combinado ainda sua fraca gestão de governo com a dedicação total ao processo, a partir de agora a incompatibilidade ficará mais evidente, pois é impossível governar e implementar ao mesmo tempo um calendário de ruptura constitucional.

O ainda presidente Mas era a reminiscência do nacionalismo moderado e possibilista que foi durante anos a característica da CiU; mas sua mudança dupla: para o separatismo e o esquerdismo, expressa desde 2012 em suas antecipações eleitorais e discursos cada vez mais estridentes, impedem que possa se oferecer como interlocutor de qualquer tipo de diálogo. Esta é uma posição que tem sua contraparte simétrica em Mariano Rajoy: a imobilidade feita primeiro-ministro, contra o frenesi separatista de Mas.

A Catalunha tem um problema muito sério, que não se limita à agenda de ruptura. Não são os catalães sozinhos que devem e podem resolvê-lo, como às vezes parece se desprender da inibição sistemática praticada pelo PP. Tampouco são Mas e Rajoy dirigentes capacitados para encabeçar alguma iniciativa de diálogo. O problema da Catalunha é o problema da Espanha, e a canalização e resolução está no centro da agenda para as eleições gerais. Nada teria sido melhor que uma antecipação das eleições para fechar o caminho da crise a prazo organizada por Mas com sua convocatória pseudoplebiscitária.

Essa oportunidade, que este jornal recomendou, foi perdida pela teimosia do primeiro-ministro em cumprir seus prazos eleitorais, como se isso fosse um sucesso em si mesmo. Agora é preciso se preparar para essas eleições, imprescindíveis para esclarecer o mapa político, e pedir que os partidos apresentem posições para reverter o atual processo de ruptura catalã com a Espanha em um processo de diálogo e negociação, tendo em conta que não é uma independência indesejável o que se deve discutir, mas a recuperação — através de um forte impulso reformista — do consenso constitucional.

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