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A divulgação do crime

O assassinato de dois jornalistas nos EUA e sua divulgação pelas redes não pode se tornar algo comum para a audiência

Os jornalistas assassinados em Virgínia: Alison Parker e Adam Ward.
Os jornalistas assassinados em Virgínia: Alison Parker e Adam Ward. AP

O assassinato, durante uma transmissão televisiva ao vivo, dos dois jornalistas norte-americanos Alison Parker e Adam Ward mostra as graves consequências de uma combinação letal de elementos que, embora não sejam iguais, começam a abundar nos EUA e no resto do mundo ocidental.

Em primeiro lugar – e isso é uma característica norte-americana – o crime é mais uma prova dos danos causados pelo livre acesso a armas por parte da sociedade em geral. Pessoas que não pertencem às Forças Armadas ou aos corpos de segurança podem adquiri-las como se fossem eletrodomésticos ou roupas, e isso dispara exponencialmente o número de vítimas mortais em atos violentos e o medo dos cidadãos de morrer absurdamente em qualquer incidente. É algo óbvio, mas que vale a pena insistir: quanto menos armas nas ruas, menos pessoas vão morrer.

Em segundo lugar, o assassino usou as redes sociais como uma enorme caixa de ressonância. Por ter se suicidado, não vamos saber se também foi um motivador. As redes sociais constituem uma realidade da qual nunca podemos esquecer seu lado escuro e nem o dano profundo causado quando, às vezes, se transformam em canais dessa escuridão. O autor do duplo homicídio anunciou com premeditação e, depois de cometê-lo, publicou o vídeo na Internet para que fosse difundido, sabendo — como efetivamente foi — que as imagens terríveis da morte de dois inocentes se espalhariam em poucos minutos pelo mundo todo. A conectividade imediata é um grande avanço, mas, infelizmente, também é o sonho de todo megalomaníaco narcisista. As 23 páginas que usa para justificar seus atos são um bom exemplo disso.

Um último elemento de reflexão é se a exposição constante do espectador a assassinatos e barbáries não acaba tornando-o menos sensível à gravidade dos fatos. A morte de um ser humano não pode ser um espetáculo.

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