As promessas vazias do Google

O gigante de Internet é líder absoluto em buscas e sistemas operacionais para celular, Empresa mudou sua estrutura para reagir mais cedo aos fracassos

Sede do Google em Mountain View, Califórnia.
Sede do Google em Mountain View, Califórnia.David Paul Morris (bloomberg)

“Nós comemoramos os fracassos”, declarou Eric Schmidt, presidente executivo do Google e ex-CEO da empresa, durante uma conferência em 2010 na qual anunciou o fechamento do Wave, sua primeira incursão nas redes sociais. Se alguma coisa não funciona, fecha-se. Nos últimos anos, os erros do gigante da Internet se prolongaram mais do que o aconselhável. A decisão de transformar-se em Alphabet, que tem o Google como matriz e mais seis empresas inovadoras, pretende acentuar este aspecto, o de corrigir rápido a rota, e com consequências controladas, sem esperar autorização.

O Google é tão bem sucedido no mundo que seus fracassos são minimizados. Seu buscador concentra mais de 60% das buscas na web. Seu sistema operacional Android faz funcionar 80% dos celulares do mundo e mais da metade dos anúncios da Internet passam por esse gigante. Mas também tem promessas não cumpridas.

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Uma de suas primeiras experiências frustrantes foi o Google Vídeo. Uma vez organizada a web, que era a missão do buscador, a empresa se propôs a repetir a operação com o mundo audiovisual. O nome era simples: Google Vídeo. A apresentação, questionável. A largura de banda não era suficiente, e por isso tanto a experiência de consumo como de subida de conteúdo estava longe de ser satisfatória. Antes de fechar, tinham tirado o talão de cheques.

Seu fracasso trouxe algo melhor, uma de suas grandes armas na atualidade. Compraram o YouTube, então uma empresa com 60 funcionários, por 1,65 bilhão de dólares. O que não souberam fazer em casa, o YouTube sabia. A startup adquirida convertia os clipes em poucos minutos e dava mais ou menos definição segundo a qualidade da conexão de Internet.

Quando verificou que o Google Vídeo não funcionava, comprou o YouTube

Logo lançaram o Google Voice, que foi para o cemitério sem que ninguém chorasse. Quando o colocaram no caixão, todo mundo já fazia buscas no celular. A quem ocorreria perguntar ao Google algo ligando pelo telefone e pagar? Ficou claro que poderiam saber o que preocupava as pessoas a pé conforme o lugar em que se encontravam ou a que horas lhes apetecia comer uma pizza, segundo o telefone que demandavam ao operador. O pessoal de Mountain View ofereceu esta opção com um número sem custo. Bastava perguntar e uma voz dava o resultado. O Voice foi a ferramenta perfeita para entender todo tipo de vozes e sotaques sem que o usuário percebesse. Durante anos armazenaram tons, inflexões, deixas, para que quando hoje alguém faz um pedido falando em seu Android não haja dúvidas.

Entre as propostas de morte mais súbita estão os anúncios de voz (áudio ads). Assim que detectaram a rejeição que despertavam nos usuários, encerraram. Voltaram ao básico, às palavras. Graças a essa decisão, o Google venceu a batalha dos anúncios aceitáveis, aqueles que passam na prova dos bloqueadores de publicidade. Palavras, só isso, mas muito bem escolhidas e com uma cotação pormenorizada, como se fosse uma bolsa de valores.

O grande tema pendente são as redes sociais. Facebook e Twitter deixaram à mostra sua carência para explorar esse campo e fidelizar um público jovem. Ao criar o Dodgeball, pretendiam usar os SMS para indicar onde se estava, no bar, pizzaria, no trabalho... Estavam à frente de seu tempo. A equipe do Dodgeball continuou pensando que tinha sentido e criaram o FourSquare. Hoje concorrem pelo trono da informação sobre restaurantes e comércios com o Yelp.

Evan Williams, cofundador do Twitter, foi funcionário do Google até 2004, depois de criar o Blogger e vender a plataforma de publicação ao buscador em fevereiro de 2003. Levou consigo outro membro fundador do pássaro azul, Biz Stone. Sentiam que no Google era difícil criar algo novo.

Seu grande fracasso foram as redes sociais: Buzz, Wave y Google +

Em 2007, lançaram o Twitter. Antes do fim do ano, o pessoal de Mountain View tentou reagir comprando o Jaiku, um concorrente. Em 2000, fecharam. Não jogaram a toalha, ao contrário. Voltaram a esse mesmo setor com força renovada mas pouco gás com o Buzz, efêmero, e o Wave, ambicioso. A intenção era boa, um fio de conversa, muito similar ao Reddit, com links, imagens e vídeo. Um híbrido entre o e-mail e os blogs cujo conteúdo era difícil de seguir. Morreu nas mãos de um irmão cujo rumo é errante, o Google+. O projeto ainda continua vivo, mas não cresce o número de usuários nem sua atividade. É complicado explicar o que é e para que serve.

Enquanto Larry Page é o realista, Sergey Brin é mais brincalhão. Este último decidiu que se jogar de um helicóptero e gravar em primeira pessoa para chegar a sua conferência anual era a melhor forma de promover sua última invenção, o Google Glass. Passaram-se três anos e ainda apenas algumas unidades, ao preço de 1.500 dólares (mais de 5 mil reais), chegaram a um grupo seleto de desenvolvedores.

Esta não é a única promessa não cumprida na área de hardware. Project Ara é uma dessas ideias inovadoras que chamam a atenção. Consiste em criar celulares em módulos. Compra-se a placa base e vai-se incluindo peças, como se fosse um jogo de Lego, com bateria, câmera... A estreia estava prevista para este verão em Porto Rico. Contemplou até um carrinho, como os que têm os chefs da moda, para vendê-los na praia com chassis personalizados. Futurista, sim, e até o momento, não cumprido.

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