Zona do Euro

FMI alerta sobre vulnerabilidades da zona do euro

“Choque moderado” na confiança poderia levar bloco a estagnação prolongada, diz Fundo

A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, e a chanceler alemã, Angela Merkel, em maio.
A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, e a chanceler alemã, Angela Merkel, em maio.Krisztian Bocsi (Bloomberg)

Há meses a zona do euro conta com o petróleo barato e com uma expansão monetária sem precedentes como aliados, ou cúmplices, para acelerar seu ritmo de crescimento depois de um 2014 bastante pobre, mas as vulnerabilidades do clube da moeda única persistem, e as perspectivas de médio prazo não são nada animadoras. O Fundo Monetário Internacional (FMI) acionou o alerta no médio prazo: o baixo crescimento potencial, deficiências do setor bancário e os riscos futuros da crise grega.

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A avaliação anual do FMI sobre a zona do euro incluída no Artigo IV — uma espécie de revisão dos motores das economias que fazem parte do órgão — não eleva em mais do que 0,1 ponto percentual a estimativa de crescimento do PIB em 2016 (de 1,6% estimado em abril para 1,7%, mantendo em 1,5% a previsão para este ano) e vem depois de dois meses turbulentos, com o barril de pólvora grego prestes a explodir várias vezes e a possibilidade de o país deixar o euro mais concreta do que nunca.

A constatação de que uma moeda única não combina com cenários fiscais e econômicos tão diversos como os que existem no bloco do euro é algo sabido desde o estouro da crise da dívida soberana, há cinco anos. A França, após a recente turbulência, decidiu liderar um grupo de países para trabalhar em direção a uma economia europeia mais reforçada: maior união fiscal e social e maior harmonização em aspectos como o salário mínimo ou impostos corporativos.

O FMI também recomenda em seu relatório uma melhora da governança e do quadro fiscal europeu, que tem experimentado várias reformas. Para o FMI, a região deveria simplificar sua estrutura em torno de dois grandes pilares: uma única âncora fiscal (dívida em relação ao PIB) e apenas uma meta operacional (um padrão de crescimento das despesas) vinculada a essa âncora, dizem especialistas.

"Vários fatores obscurecem a previsão de crescimento dos próximos cinco anos", disse o chefe da missão para a zona euro, Mahmood Pradhan, e estes incluem "elevado desemprego, especialmente entre os jovens, alta dívida corporativa e aumento da inadimplência no setor bancário". O euro, portanto, está vulnerável a choques: "Um choque moderado na confiança —como uma previsão de crescimento futuro mais baixo ou um agravamento das tensões geopolíticas— poderia levar o muro em direção a uma estagnação prolongada".

Há uma mensagem clara do FMI: a compra generalizada de ativos programada pelo Banco Central Europeu (BCE) deve ser totalmente aplicada até que se cumpram as metas de inflação, mas o Fundo alerta que nem todos os países devem utilizar esse instrumento de injeção monetária: enquanto nações com margem fiscal limitada deveriam usá-lo para pagar a dívida, outros, como Alemanha ou Holanda, deveriam destinar os recursos para apoiar os investimentos e as reformas estruturais. Nesse contexto, o órgão pede que o chamado plano Juncker de investimentos seja acelerado.

Espanha: uma década para reduzir o desemprego

O Fundo destaca que a Espanha está crescendo sob um ritmo mais saudável do que seus vizinhos, mas aponta os fracos dados de emprego e faz uma previsão nada alentadora: reduzir o desemprego a níveis anteriores à crise levará uma década caso a economia continue na atual velocidade de cruzeiro.

Em um dos capítulos específicos sobre a avaliação da zona do euro, no Artigo IV, o Fundo afirma que a taxa de desemprego natural (também chamada de Nairu, limite que impede que a taxa de desocupação muito baixa provoque aumentos dos salários e dos preços) continuará mais alta do que durante a crise na Itália e no nível que estava na turbulência na França no médio prazo. No entanto, esse desemprego natural cairá na Espanha de forma significativa, embora a partir de níveis sem precedentes, e continuará acima de 15% no médio prazo.

Sem um aumento expressivo do crescimento, a “Espanha levaria quase 10 anos, enquanto Portugal e Itália quase 20 anos, para reduzir o desemprego aos níveis pré-crise”, afirma o relatório.

O Fundo também destaca o setor bancário como uma peça ainda fora do encaixe na estratégia de recuperação, já que, apesar da disponibilidade de dinheiro barato do BCE, especialistas acreditam que a inadimplência ainda freia muitos projetos de investimento e de crescimento, por isso pedem mais reformas para acelerar o resultado dos processos de insolvência ou suspensão de pagamentos.

O FMI também propõe desenvolver o mercado de negociação de empréstimos tóxicos para facilitar a reestruturação das instituições e recomenda apoiar o projeto junto a gestoras de ativos, com possível apoio do setor público em algumas ocasiões, como no caso do Sareb, banco criado na Espanha para sanear o sistema financeiro.

As políticas também devem visar "o crescimento potencial, estimado em uma média de apenas 1% no médio prazo, muito abaixo do que é necessário para reduzir o desemprego para níveis aceitáveis em muitos países", segundo o relatório divulgado nesta segunda-feira. A Espanha é um deles, com uma taxa de desemprego que é mais do que o dobro da média da zona euro (o FMI projeta a taxa no país em 11,1% este ano; o desemprego na Espanha deve permanecer em 10% pelo menos até 2018).

O Fundo fez ainda uma advertência sobre a Grécia: "Embora a reação do mercado depois da aprovação do último pacote de reformas ter sido em geral positiva, novas situações de instabilidade não podem ser descartadas", dizem os diretores na declaração final do relatório, por isso recomendam o contínuo reforço das “portas de incêndio” que evitam o contágio entre os países.

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