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A era dos anti-heróis na TV

Não pode haver melhor exemplo do que quem inaugurou a época: Tony Soprano

James Gandolfini no papel de Tony Soprano
James Gandolfini no papel de Tony Soprano

A nova idade de ouro da televisão também é a era do anti-herói. “Personagem que, embora desempenhe as funções narrativas próprias do herói tradicional, difere dele na aparência e valores”, diz o dicionário da Real Academia Espanhola sobre o anti-herói. Não pode haver melhor exemplo que quem inaugurou a época: Tony Soprano, esse grandalhão, chefe de família (e de Família) que sofre de ataques de ansiedade. O anti-herói da TV por excelência.

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O homem com problemas é o protótipo do protagonista desta era televisiva. Seres com uma moralidade bem flexível, para quem o fim justifica qualquer tipo de meio e dispostos ao que for preciso para conseguir seu objetivo. Suas decisões nem sempre são as mais adequadas, e isso fará com que tenham de aguentar as consequências sobre si. E também por isso nós os sentimos mais próximos do que os heróis disponíveis: nós também tomamos, com frequência, más decisões.

Walter White (protagonista de Breaking Bad) se transforma pouco a pouco em Heisenberg. Em sua cabeça, sua incursão no mundo do narcotráfico de metanfetaminas está plenamente justificada para conseguir seu objetivo: deixar sua família em uma posição econômica mais confortável se ele for vencido pelo câncer. Jimmy McNulty (The Wire) ultrapassa de vez em quando a linha fina que separa o correto do ilegal nas ruas de Baltimore. Vic Mackey (The Shield) não duvida em usar a violência, a extorsão ou qualquer meio para levar a cabo seu trabalho como detetive. Jack Bauer (24 Horas) não fica atrás, sempre com recursos para sair de qualquer situação.

Nucky Thompson (Boardwalk Empire) oculta atrás de sua refinada fachada um ser implacável capaz de ordenar qualquer atrocidade para atingir suas metas, embora sempre que possa procure não manchar as mãos de sangue. Dexter Morgan (Dexter) se disfarça de analista forense da polícia de Miami para assassinar pela noite aqueles que a justiça não alcançou. Don Draper (Mad Men) é um homem que fez a si mesmo e que sempre termina tomando as piores decisões possíveis. E, embora estivéssemos falando de personagens masculinos (trataremos outro dia das mulheres que os acompanham), não pode faltar na lista Patty Hewes (Damages), advogada sem compaixão e corrupta que se guia por seu particular sistema de valores.

Eles tornaram possível que nas histórias criadas para a TV nada seja branco ou preto, mas que a predominância seja de diferentes tonalidades de cinza. Conseguiram que, apesar de saber que eles são seres desprezíveis, os espectadores tenham se surpreendido se identificando com assassinos, torturadores, traficantes, mafiosos e mentirosos compulsivos. E se todos nós tivermos em nosso interior um anti-herói trancafiado e as séries só o colocam diante de nós?

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