Psicologia

Bebês choram para lhe dar medo

Estudo aprofunda os mecanismos psicológicos por trás do berreiro infantil

Evan Amos (Wikimedia Commons)

De todos os sons que nos atingem, nenhum provoca uma reação tão forte e clara como o choro de um bebê. Você pode estar no terminal de um aeroporto, com centenas de metros e milhares de pessoas à sua frente, e mesmo assim escutar – e, pior ainda, alterar-se com – o berreiro ininteligível de uma criança finlandesa. Agora, graças a um estudo publicado na Current Biology, sabemos que isso ocorre porque o choro, assim como o grito humano, tem uma qualidade sonora única, que ativa não só as partes de nosso cérebro que processam os estímulos acústicos e a linguagem, mas também aquela destinada a nos proteger e nos preparar para o perigo.

O choro infantil possui uma qualidade acústica, chamada dureza, que até agora era considerada irrelevante

Uma equipe internacional liderada por Luc Arnal (Universidade de Nova York e Universidade de Genebra) e David Poeppel (Universidade de Nova York e Instituto Max Planck) descobriu que os gritos soam numa frequência específica, nem aguda nem grave, de uma categoria muito ampla. Essa categoria corresponde à qualidade acústica conhecida como dureza, que até agora era considerada irrelevante para a comunicação humana – imaginava-se que esta se baseava apenas no binômio agudo/grave. Mas é precisamente essa qualidade que reserva aos gritos e ao choro um nicho único e privilegiado em nosso cérebro, com uma função eficaz do ponto de vista biológico e social.

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“Descobrimos que os gritos ocupam um fragmento reservado do espectro acústico”, relata Poeppel, descrevendo o trabalho de laboratório em que sua equipe mediu todo tipo de sons e as reações neurológicas que eles ativavam. “Numa série de experimentos, vimos que esta observação se mantinha correta quando comparávamos o grito com o canto e a fala, independentemente do idioma. A única exceção foram os sinais de alarme de carros e casas, que também ativaram a categoria específica dos gritos”. Esses sons têm a propriedade de variar de intensidade muito rapidamente, o que conhecemos como dureza. A gama de intensidade em que a linguagem oral se desenrola está entre 4 e 5 hertz, ao passo que os gritos são modulados muito mais rapidamente, entre 30 e 150 hertz. Quando Arnal e sua equipe perguntaram aos participantes da experiência quais sons lhes pareciam mais aterradores e perturbadores, a resposta recaía sobre os mais duros, inclusive quando se tratava de frases normais modificadas para soarem dessa forma. Constatou-se, assim, que quanto mais duro é um som maior era a resposta ao medo na amídala cerebral.

A equipe, surpresa, conseguiu assim comprovar essa propriedade da dureza sonora, que os engenheiros acústicos haviam descoberto ao tentarem desenvolver alarmes mais eficazes. Arnal conta que “por um lado, nossas descobertas podem ser usadas para melhorar o desenvolvimento dos sinais acústicos de alarme. Poderíamos aplicar isso aos carros elétricos, que são muito silenciosos, para torná-los facilmente detectáveis aos pedestres. Por outro lado, poderemos reduzir os incômodos provocados por certos sons reduzindo sua dureza, como por exemplo o do motor das motos, diminuindo assim o estresse e as demais inconveniências que o excesso desses sons causa para nossa saúde”.

Sobre seus projetos e os próximos passos no estudo dessas formas de comunicação, Arnal enfatiza que o choro infantil, sendo inato, universal e mais duro até do que o grito, está aproximando os cientistas de entenderem “o que todos os nossos cérebros têm em comum com relação à vocalização”. Outro passo será aplicar esses estudos em animais. “Nossas primeiras hipóteses nos levam a pensar que compartilhamos o grito com os mamíferos e possivelmente também com as aves e outros animais. Será muito interessante ver como a dureza do som afeta outras espécies e se compartilharmos com eles os mecanismos cerebrais necessários”.

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