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Questão de confiança

Após a capitulação econômica de Atenas, sobram apenas receios políticos

O drama grego enfrentou, na noite deste sábado, a penúltima barreira no Eurogrupo de ministros de Economia, antes das cúpulas da zona do euro e da UE previstas para este domingo. Depois do acordo do Governo da esquerda radical e da direita ultranacionalista com praticamente 100% dos requisitos colocados por seus sócios, as três instituições da antiga troika (Comissão, BCE e FMI) deram luz verde ao pedido de terceiro resgate feito por Atenas, associado ao recuo total em suas reivindicações anteriores e à superação de suas recusas sistemáticas de realizar reformas. Fica uma questão em aberto, a confiança. A confiança política.

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Não é estranho que mais de um ministro possa se preocupar com o verdadeiro grau de vontade de cumprimento de um programa contra o qual há uma semana foi realizado um referendo, a pedido e decisão do mesmo governo que agora o aprovou no parlamento nacional, e que antes acusava as instituições e os sócios credores. Como o terceiro resgate vai exigir uma nova e considerável contribuição financeira, e como a aplicação desses programas costuma levar a atritos e mal-entendidos, a confiança não é mero acompanhamento, mas alerta essencial contra conflitos futuros.

Em qualquer caso, é bem-vinda a aprovação inicial das instituições (assim como a ressurreição política da adormecida França), esperando que o Conselho Europeu coloque neste domingo um final de consenso a este período difícil, também com a convicção de que o problema está superado, mesmo que ainda não esteja resolvido de uma vez por todas.

A principal lição deste semestre de negociações e tensões é que a capacidade de integração da UE de elementos insólitos, políticas extremas e Governos inexperientes continua sendo muito poderosa. Em segundo lugar, que a viagem feita pelo Governo de Alexis Tsipras para aceitar aquilo que não quis assumir há apenas uma semana acarretou muitas desgraças aos gregos. E não só porque aumentaram os custos econômicos com o desperdício de tempo em negociações inextricáveis, ao afundar a economia grega do crescimento à recessão; do superávit primário no orçamento ao déficit; da estabilidade bancária ao corralito.

Também porque terminou politicamente desastroso para Atenas. A derrota de Tsipras (e, indiretamente, do próprio Estado grego, que viu cair seu já frágil prestígio) é uma daquelas que marcam época. Aqueles que definiram melhor essa derrota foram os ministros contrários ao pacto final, que descreveram como “capitulação”, entendendo que o “não do referendo” se traduziu em um “sim humilhante”. Praticamente não se cumpriu nenhuma de suas pretensões programáticas: não há compromissos de redução da dívida; continua a caluniada troika; haverá Memorando e revisões mensais do seu cumprimento; será mantida a maioria das privatizações; será acelerada a reforma do absurdo sistema de aposentadorias (que Atenas reconhece ser “insustentável”) e a modernização do IVA. A única coisa que talvez mantenha de suas ideias seja a resistência a reduzir, na medida em que era reclamado, os gastos militares. Se isso é um grande triunfo para um partido de esquerda radical, que Deus seja testemunha.