Crise na GréciaEditoriais
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O referendo grego

Atenas e a eurozona precisam amortecer os efeitos indesejados

Apoiadores do não fazem protesto em Atenas.
Apoiadores do não fazem protesto em Atenas.ARMANDO BABANI (EFE)

A partir desta segunda-feira, ganhando ou perdendo, tanto a Grécia quanto a eurozona precisam se esforçar para amortecer os efeitos negativos que, seja qual for o resultado, o referendo deste domingo terá: um referendo que foge à tradição, visto que durante o século XX só houve sete deles no país, todos eles dedicados não a uma questão econômica/europeia, e sim a temas constitucionais (Monarquia ou República, novas Constituições); e também porque neste caso ele não é empregado, como de costume, para que os cidadãos validem uma decisão do Governo ou escolham entre duas opções de administração, e sim com o propósito de rejeitar uma proposta econômica dos parceiros.

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O referendo é um recurso legítimo, mas não a panaceia da democracia. E é menos ainda o que distingue uma democracia legítima de uma bastarda. Somente as eleições livres são característica exclusiva da democracia. A prova é a Grécia: das sete convocações para referendos, três foram feitas por duas ditaduras, a dos anos trinta e a da junta dos coronéis (1967-1974).

Além disso, o viés partidário que o Governo imprimiu à votação (o pedido para reforçar a si mesmo, em matéria sem consenso) aumenta o dano. Ameaça dividir mais a população (e simultaneamente unir os parceiros descontentes) e opor os gregos aos outros europeus (contra cujas decisões são convocados). Tudo isso num clima de tensões sociais derivadas da brutal conta da crise econômica e de sua injusta redistribuição, que prejudica os menos favorecidos.

De uma convocatória pouco alentadora não se deve esperar um resultado ideal. Mas para efeito da negociação com os sócios do Eurogrupo, convém à Grécia infinitamente mais o sim à proposta europeia, que seu Governo rejeitou, que o não. E não porque o voto afirmativo seja taumatúrgico: a proposta em votação não está mais sobre a mesa. Embora seja óbvio que possa ser ressuscitada mais facilmente se for aprovada que se for rejeitada outra vez.

Como caducou, há o risco de que os credores mais encastelados exijam o endurecimento do plano. Seria o corolário da lógica econômica de que a deterioração econômico-financeira grega deste semestre demanda mais ajustes: algo politicamente desastroso. Além disso, o sim pressuporia a renúncia do atual Governo e a convocação de eleições, o que poderia tingir com instabilidade política a já extrema debilidade econômica.

Os danos seriam muito mais graves no caso de triunfo do não. Não contando com a proteção de um plano de resgate, a Grécia precisaria negociar outro (como já pediu). Mas a já desgastada confiança dos doadores vai naufragar se neste domingo se optar por negar as medidas que eles consideram convenientes, sejam ou não assim. O incentivo direto a um acordo rápido, mesmo provisório, é parco, embora a decorrência —preservar a moeda única— seja crucial. E a partir disso não pode ser descartada nenhuma série de desastres: suspensão de pagamentos ou default, criação de outra moeda podre, saída do euro, famílias arruinadas e austeridade endurecida. Para a Grécia; mas em seu grau máximo minariam toda a eurozona, a moeda única (não mais irreversível) e a credibilidade da União (por não resolver um assunto que equivale a 2% de seu PIB). O não é imensamente pior que o sim.