Promessas não cumpridas do Governo grego

Ao contrário do que se diz, a UE e o FMI não ajudam nem resgatam a economia da Grécia

Segurança tira faixa em protesto contra a austeridade, em Atenas.
Segurança tira faixa em protesto contra a austeridade, em Atenas. YANNIS BEHRAKIS (REUTERS)

Está se formando uma ampla frente de apoio à Grécia. Paul Krugman, com sólida argumentação keynesiana, aconselha os Gregos a rejeitar as propostas dos credores no referendo de domingo de 5 de julho. De forma muito mais lacônica, Paulo Coelho escreve para dez milhões de seguidores no twitter: no to austerity, yes to democracy. E o Charlie Hebdo recorre ao costumeiro sarcasmo: na capa da revista, a Diretora Geral do FMI afoga um grego para “salvar a Europa”.

Em termos econômicos, o objetivo dessas manifestações é conscientizar a opinião mundial sobre um ponto crucial. Ao contrário do que se escreve há anos, a União Europeia e o FMI não ajudam nem resgatam a economia da Grécia, mas a destroem. Em troca de empréstimos destinados a pagar juros, a União Europeia e o FMI impõem à Grécia um regime de perpétua recessão econômica com três características: continuo aumento da dívida estatal; redução de salários e aposentadorias; queda livre de todos os índices de produção econômica. Se os sucessivos resgates asfixiam o Estado grego, urge mudar os remédios e os médicos.

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Mas isso não nos deve fazer esquecer que o Governo progressista do Syriza mostrou-se inerte em três frentes cruciais.

O pacto político que permitiu governar a Grécia nas últimas décadas previa escandalosas isenções de impostos para os empresários (com total isenção para os armadores) e não combatia de maneira eficiente a sonegação fiscal. Os integrantes do Governo Syriza gostam de afirmar que “os riscos devem pagar”. Mas, até agora, nada relevante foi feito nesse sentido. Parece que o Governo está refém de pressões políticas para manter esse pacto, socialmente injusto e prejudicial para a economia.

A mesma inércia se constata em relação à corrupção sistêmica que envolvia os partidos que se alternavam ao poder de 1974 a 2015 (Nea Dimokratia e Pasok), as elites econômicas do país e empresas multinacionais, sendo mais conhecido o Escândalo Siemens. Entre os responsáveis, pouquíssimos foram punidos e nada foi feito para criar mecanismos de transparência na gestão dos recursos e das empresas estatais.

Por fim, o Governo não diminuiu significativamente o gasto com armamento, que compra principalmente da Alemanha, e as demais despesas militares. Em plena crise econômica, a Grécia é o país da OTAN que mais gasta no setor militar após os EUA...

Nesses casos, o governo descumpriu suas promessas eleitorais. Os realistas sabem que não há soluções milagrosas e que o apoio internacional não resolve problemas estruturais internos. A sociedade grega deve se mobilizar para que o país melhore de verdade, fazendo as necessárias reformas. “Mesmo que a Deusa Atena ajude, trate de mexer tua mão”, diz um ditado grego.

Dimitri Dimoulis cursou direito na Universidade de Atenas. Ensina Direito constitucional na Escola de Direito de São Paulo da FGV. Soraya Lunardi fez estudos de pós-doutorado na Universidade Politécnica de Atenas. Ensina direito público na UNESP.

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