Acesso a Internet

Chris Daniels: “Não queremos suplantar ninguém”

O presidente do Internet.org, do Facebook, fala sobre o programa que oferece conexão grátis em países em via de desenvolvimento

Chris Daniels, vice-presidente da Internet.org.
Chris Daniels, vice-presidente da Internet.org.

O sonho do dono do Facebook, Mark Zuckerberg, de levar a Internet a todas as pessoas gera polêmica. Tanzânia, Zâmbia e Quênia foram os países africanos escolhidos para se conectarem à rede através do celular, gratuitamente. O sudeste asiático também está na mira do Facebook. Na América Latina, área prioritária, o programa já funciona na Colômbia, Guatemala e Panamá; Brasil e México são os países seguintes da lista. No longo prazo, o objetivo é prover 2,7 bilhões de pessoas de conexão gratuita à Internet. Mas alguns coletivos do ativismo digital fazem ressalvas em relação ao plano, comandado pelo espanhol Javier Oliván.

A previsão é que o plano seja ativado ainda este mês no Brasil, onde se pediu à presidenta Dilma que reconsidere sua posição. Zuckerberg se incomoda especialmente com as críticas feitas no Brasil, dadas as estatísticas da América Latina: “Cinquenta e cinco por cento da população não tem acesso à Internet. No Brasil, os 45% sem acesso não são motivo suficiente?”

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Chris Daniels, vice-presidente do Internet.org, esclarece a finalidade do projeto: “Queremos que se experimente o acesso à rede, que se conheçam suas vantagens. Não queremos suplantar ninguém.” O diretor tem uma visão muito positiva do trabalho das operadoras: “Elas fizeram um trabalho excelente: 90% da superfície do planeta está conectada a redes 2G (de segunda geração, de velocidade baixa) e 75% a redes 3G”. Essas cifras não impedem que continuem a ser promovidas alternativas para fazer a internet chegar a locais sem acesso, por meio de drones e satélites de baixo custo.

O programa prevê três barreiras de entrada, que quer derrubar. A primeira, já citada, é a das infraestruturas. A segunda, a do preço. “Mais de um bilhão de pessoas não têm condições econômicas de pagar pelo acesso”, observa o diretor. A última barreira, a mais difícil, consiste em conscientizar os possíveis beneficiados das vantagens do acesso à Internet: “Mais de dois bilhões de pessoas que não têm conexão com a rede não compreendem o valor que isso lhes traria”.

Uma comparação com a desigualdade entre o acesso gratuito à Internet e o acesso pago: se alguém que pagasse por um canal de televisão visse os gols de uma partida antes do espectador que não pagasse

A acusação mais grave feita ao Facebook é de que o programa colocaria em risco a neutralidade da rede, um dos princípios fundadores da rede. Essa lei defende que um usuário tenha o mesmo acesso que outro em condições semelhantes, independentemente do tipo de informação que esteja consultando. Um exemplo para facilitar o entendimento do problema seria se alguém que paga por um canal de televisão assistisse aos gols de uma partida antes de quem estivesse vendo a partida de graça, ou que a rede elétrica priorizasse os lava-roupas em detrimento dos lava-louças ou das secadoras de cabelo. Nesse sentido, as críticas dizem respeito à criação de uma Internet de duas velocidades: a velocidade paga e a velocidade gratuita oferecida pelo Internet.org. Aquela que dá acesso a qualquer conteúdo e aquela na qual só pode ser visto o que foi acordado entre provedores de conteúdo, governos e Facebook.

Daniels é taxativo: “O Facebook é a favor da neutralidade da rede. Apoiamos essa neutralidade, mas pensamos que ela precisa coexistir com programas como o nosso. O importante é que as pessoas que até agora não puderem entrar na rede o façam. Talvez na Índia os usuários não possam assistir aos vídeos de um site, mas possam ler seu conteúdo.”

Converter a experiência da navegação em um jardim cercado é outra das críticas mais recorrentes. “Consultar a Wikipedia, fazer um trâmite na Prefeitura, tomar conhecimento das medidas básicas de higiene ou receber alertas em caso de catástrofe meteorológica, isso não parece um jardim cercado, mas uma experiência positiva. O mesmo se aplica quando se consultam os meios de comunicação locais com os quais fizemos acordos ou quando se tira uma dúvida com um amigo através do Facebook. Conectamos as pessoas, e elas reconhecem o valor de poderem se comunicar. Realmente não me parece algo fechado.”

O diretor nega que a velocidade será aumentada: “Não vamos competir por isso, mas oferecer uma boa experiência [ao usuário]”.

Outro ponto de atrito está na fatura: quem vai pagar pelos dados oferecidos gratuitamente aos internautas novos? “Não pagamos as operadoras pelo uso dos dados”, diz Daniels. “Cada um dos membros põe na mesa o que tem.”

Daniels convida os desenvolvedores da América Latina a propor ideias de aplicativos para incluir em seu programa. Educação, saúde, inclusão feminina e acesso a trâmites com governos estaduais e locais são prioridades. “A chave está em que os aplicativos sirvam para melhorar notavelmente a qualidade de vida das pessoas que acabam de ganhar acesso à rede”, ele insiste.

O Facebook não pretende que esse programa se estenda para sempre, mas que, no longo prazo, os novos internautas comecem a pagar para ter o acesso completo oferecido pelas operadoras. “O programa acabará quando todos estiverem online. Se isso levar cinco anos, durará cinco anos. Se levar mais tempo, continuaremos”, conclui Daniels.