Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Os Amarildos da Bahia

Vídeo ajudou a desvendar tortura de rapaz de 22 anos. Família busca adolescente

Rute segura imagem do filho Davi, desaparecido. Ampliar foto
Rute segura imagem do filho Davi, desaparecido. Anistia Internacional

A comerciária Rute Silva se diz impotente. Quase sete meses depois de seu filho, Davi Fiúza, desaparecer em uma manhã de outubro passado em Salvador, ela diz que tem pouca esperança, uma "luzinha muito fraquinha, lá no fundo", de que caso seja, ao menos, esclarecido e os culpados, julgados. Ela já não acredita que ele esteja vivo. "Ele não ficaria nem um dia sem ligar para casa, para mim, para as irmãs dele", diz.

Segundo as testemunhas ouvidas por Rute, o rapaz, de 16 anos recém completados, foi encapuzado por policiais e levado em uma viatura da Rondesp, as rondas especiais da PM baiana, que fazia uma operação em área perto do aeroporto de Salvador. "Ele saiu de manhã, e ele nem acordava cedo. Mas nesse maldito dia, sim. Não vi mais".

O que se seguiu depois foi uma grande mobilização pública pelo rapaz: protestos no bairro, ações com apoio da Anistia Internacional, camisetas com seu rosto. "Cadê Davi Fiúza" repetiu a fórmula usada no caso do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, que desapareceu em 2013 ao ser levado a uma unidade da polícia da Rocinha, no Rio. A pressão ajudou a revelar, mais tarde, que Amarildo foi sequestrado, torturado, morto e teve o cadáver ocultado pelos PMs. No caso de Davi Fiúza, a Polícia Civil ainda não concluiu as investigações sobre o desaparecimento.

Quando, nesta semana, o Ministério Público da Bahia denunciou nove policiais acusados de executar 12 homens e adolescentes na Vila Moisés, no Cabula, em Salvador, a mãe de Davi Fiúza disse ter tido algo de esperança. "Quando vejo isso, tenho esperança no Ministério Público. O caso de Davi teve muita repercussão aqui, no exterior. Fui na sede da Anistia no Rio. Fiz tudo que eu podia."

Semanas antes, ela tinha acompanhado também outra denúncia da Promotoria estadual contra 11 policiais pelo assassinato e tortura de Geovani Mascarenhas, de 22 anos. O caso, com seus detalhes de crueldade, engrossou o histórico problemático da Rondesp, a unidade também envolvida no episódio do Cabula e acusada, por testemunhas, pelo desaparecimento de Fiúza. Hamilton Borges, da campanha Reaja ou Será Morto (a), diz acompanhar ao menos oito famílias com histórias de desaparecimentos semelhantes. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia diz que, diante dos fatos, estuda rever os procedimentos da ronda, inspirada na violenta Rota, da PM paulistana _ a PM baiana ostenta o triste título de a terceira que mais mata no país, segundo dados Anuário de Segurança Pública.

O vídeo que mudou o caso Geovane

"Se não fossem as filmagens, ia ser minha palavra contra a deles. Seria mais um Davi Fiúza. Cadê o rapaz?", disse o pai de Geovane, o comerciante Jurandy Silva, ao jornal Correio da Bahia, no mês passado. Jurandy provavelmente tem razão. Seu filho teria entrado também para a opaca estatística de desaparecidos se suas últimas imagens vivo não estivessem registradas em vídeo: o rapaz de 22 anos passando por uma revista violenta da polícia em Salvador, na Bahia, e logo depois sendo colocado na viatura da Rondesp.

O vídeo, obtido pelo próprio Jurandy, foi o pontapé inicial das investigações do Ministério Público da Bahia que resultaram na denúncia de 11 policiais pelo assassinato, ocorrido no ano anterior.

A descrição do que aconteceu com Geovane, segundo a apuração do MPE, é chocante. Depois da revista, o rapaz foi levado a uma acareação com uma vítima de roubo. A moça não o reconheceu, mas Geovane não foi liberado. Em uma das sedes da Rondesp, foi torturado: teve a cabeça, as mãos e os órgãos genitais arrancados. Com o intuito de apagar rastros do crime brutal, os policiais tentaram retirar as tatuagens que ele tinha. Já haviam, antes, desligado os aparelhos de GPS das viaturas. 

A promotora do caso Geovane, Isabel Adelaide Moura, diz que não pode falar do tema, já que o processo corre em segredo de Justiça, mas comentou episódios de violência policial em geral. "A polícia não é um corpo destacado da sociedade. Ela é parte da sociedade", disse ela, que foi Coordenadora do Grupo de Atuação Especial para o Controle Externo da Atividade Policial no Ministério Público. "O policial muitas vezes faz o que muitos cidadãos tinham vontade de fazer. A Bahia lidera o ranking de linchamentos no país", disse ela, que acaba de concluir um mestrado sobre violência e sistema legal.

"Quem é seu Jurandy? Um ninguém. Não moro na Pituba ou na Barra, eu moro na Santa Mônica. Que importância tem?", lança o pai de Geovane, citando os bairros abastados de Salvador e o seu. Seja como for, Jurandy e a mãe de Davi Fiúza já são um símbolo dos Amarildos da Bahia. "Tem os casos aí que nunca acham o filho. Imagine você conviver com a dor de um filho desaparecido. Eu pelo menos enterrei o meu. Quer dizer, enterrei as partes dele, mas, pelo menos, enterrei. Essa dor eu tirei do meu coração."

MAIS INFORMAÇÕES