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Dois líderes indígenas da Bahia e um do Maranhão são assassinados

Entidade vê "clima de ódio" como incitador dos crimes que ocorreram num prazo de 8 dias

Indígenas protestam em Brasília contra a PEC 215.
Indígenas protestam em Brasília contra a PEC 215. Ag. Brasil

Os assassinatos de três lideranças indígenas no Maranhão e na Bahia, no curto espaço de oito dias, podem ter relação entre si. A suspeita de crimes em série, praticados contra Eusébio Ka'apor, no dia 26 de abril, Adenilson da Silva Nascimento, no dia primeiro, e Gilmar Alves da Silva no dia 3 de maio, foi levantada pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), entidade ligada à Confederação Nacional dos Bispos (CNBB).

"Os crimes não são fatos isolados, estão dentro de um contexto macropolítico de um já prolongado processo de incitação ao ódio e à violência contra indígenas, principalmente de setores ligados à bancada ruralista", afirmou Cleber Buzatto, secretário-executivo do CIMI. Para ele, não há um mandante especificamente dos crimes, mas o clima de ódio seria o responsável por incitar a prática.

No dia 26 de abril, foi assassinado o agente indígena de saneamento Eusébio Ka'apor, da aldeia Xiborendá, da Terra Indígena Alto Turiaçu, no Maranhão. Ele levou um tiro nas costas quando voltava de uma aldeia onde morava seu filho. Dois homens encapuzados abordaram o veículo onde ele estava, pediram para que parasse, e o acertaram com um tiro. Segundo Buzatta, não foi feito o laudo cadavérico do corpo de Eusébio. Na segunda-feira, o Ministério Público Federal notificou a Polícia Federal para que realizasse uma investigação do crime, que ainda não começou a ser feita.

"Ali no Maranhão, o problema é a invasão das terras indígenas feita pelos madeireiros", diz Buzatta. As terras dos Ka'apor já estão demarcadas e homologadas. A briga ali, segundo o CIMI, é com os madeireiros, que tentam invadir o espaço demarcado para explorar o local. "O ambiente é de conflito ali e os povos estão fazendo a resistência".

Os outros dois crimes ocorreram na Bahia, em terras que foram delimitadas pela Funai, mas aguardam ainda o reconhecimento do Governo. Por isso, também são lugares onde há conflitos. No dia 1 de maio, o agente indígena de saúde Adenilson da Silva Nascimento foi assassinado em uma estrada que liga Ilhéus ao município do Una, na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia. As circunstâncias foram as mesmas do assassinato de Eusébio: Adenilson foi abordado por dois homens encapuzados e levou um tiro nas costas. Segundo Buzatta, a esposa de Adenilson também foi alvejada, nas costas, mas sobreviveu. Em Tumpinambá duas casas foram queimadas nas últimas semanas. Nessa região, de 2013 para cá, ocorreram 18 assassinatos.

Já o indígena Gilmar Alves da Silva foi alvejado enquanto ia para a aldeia Pambú, povo Tumbalalá, em Abaré (BA). Ele também pilotava uma moto que foi interceptada por um automóvel. De lá saíram os criminosos que o alvejaram.

"Existe uma orientação que tem dado causa a esses crimes", afirma Buzatta. Segundo ele, "outras pessoas estão na lista de morte em que Eusébio estava". Ele afirma que ameaças às lideranças aumentaram nesses três locais onde os crimes foram cometidos.

Em nota, a CMI afirma que os assassinatos são resultados da associação de três fatores principais: "os discursos racistas proferidos por parlamentares ruralistas do Congresso Nacional, a paralisação dos procedimentos de demarcação e a omissão quanto à proteção das terras indígenas por parte do governo Dilma e decisões da 2ª. Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que anularam atos administrativos de demarcação de terras nos últimos meses. Esses fatores servem de combustível que alimentam a sanha assassina dos inimigos dos povos indígenas no Brasil".

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