Crise no Governo de Beto Richa

Sob pressão popular, secretário de Segurança do Paraná deixa o cargo

Fernando Francischini assume responsabilidade por repressão a protesto de professores Ação da PM em 29 de abril feriu mais de 200 pessoas e gerou crise no Governo Beto Richa Fora do cargo, ele retoma o mandato de deputado federal pelo partido Solidariedade

Fernando Francischini, ex-secretário de Segurança.
Fernando Francischini, ex-secretário de Segurança. Arnaldo Alves / ANPr/Fotos Públicas

O governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), reagiu à pressão popular depois da repressão à manifestação dos professores do Estado, que deixou 217 feridos no último dia 29, em Curitiba. Nesta sexta-feira, ele anunciou a saída do secretário de Segurança, Fernando Francischini, que pediu exoneração com uma carta onde assume publicamente todas as responsabilidades pelas ações das tropas da Polícia Militar e justifica a saída “em prol da governabilidade”.

“Finalizo, assumindo novamente e publicamente todas as minhas responsabilidades, na atuação policial nas últimas operações, apoiando o trabalho da tropa. No entanto, ressalto que mesmo com as reações adversas, continuo defendendo uma apuração rigorosa tanto da polícia quanto do Ministério Público para que ao final a verdade prevaleça”, diz o comunicado.

Quem assume interinamente é o delegado federal Wagner Mesquita, até então chefe da Delegacia Federal de Combate ao Crime Organizado no Estado.

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Esta é a terceira resposta oficial do governo Beto Richa para a violenta ação policial, quando professores e demais servidores públicos que se manifestavam contra a reforma de projeto que altera a ParanáPrevidência, sistema de aposentadoria do funcionalismo estadual. Eles foram reprimidos com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, balas de borracha, sprays de pimenta, jatos de de água e cães da raça pit bull usados por policiais, numa ação que ganhou repercussão internacional e reação de entidades como a Anistia Internacional, que condenou a operação policial.

Nesta quinta, o comandante geral da Polícia Militar do Paraná, coronel César Kogut, já havia colocado o cargo à disposição. E chegou a convocar uma coletiva de imprensa para a manhã desta sexta, que foi cancelada pela assessoria de comunicação da corporação minutos depois de conversa entre ele e o governador Beto Richa, quando assinaram a papelada da exoneração, durante a noite. Antes de pedir demissão, o comandante da PM chegou a enviar uma carta ao governo, assinada por 15 dos coronéis, repudiando declarações de Francischini dadas durante coletiva de imprensa realizada na segunda-feira, quando delegou ao comando operacional da polícia a responsabilidade pela resposta violenta à manifestação.

Um dia antes, foi a vez do então secretário da Educação, Fernando Xavier Ferreira, renunciar ao cargo. Alegando questões pessoais, ele cedeu a posição para a professora Ana Seres Trento Comin, que já era a superintendente da pasta. Ele enfrentava dificuldades no relacionamento com a categoria e ganhou a antipatia de sindicalistas ao defender com veemência medidas de austeridade no setor.

Fontes de dentro do Palácio do Iguaçu já acenavam com a saída ainda pela manhã. Os principais motivos, além da reação popular, foi a pressão de um segmento da própria base aliada do governo e também da cúpula da polícia e de diversas outras entidades de militares. Além disso, outra razão apontada como motivador foi um desabafo da esposa de Francischini, no Facebook, também na noite de quinta. “Um bom político trabalha e age por si só, não depende de homens sujos, covardes, que não honram as calças que vestem e precisam agir sempre em grupo, ou melhor quadrilha", postou. A mensagem foi apagada, mas desagradou ao governo e já era tarde demais.

Francischini era adepto de coletivas de imprensa e grande eventos com exposição. Apelidado de Batman, por aparecer fardado em ocasiões públicas e com a imprensa, ele chegou a utilizar um camburão da polícia para ajudar os deputados a entrarem na Assembleia, quando a casa foi invadida por manifestantes ainda em fevereiro, durante protesto que pretendia barrar a votação do pacote de austeridade do governo, que seria votado em regime de urgência. Na ocasião, ele foi impedido por um professor, e correu para trás do cordão de isolamento da tropa de choque.

Seu substituto, o delegado Wagner Mesquita, foi quem apresentou vídeos e demais provas da polícia na fatídica entrevista que gerou o mal estar entre a secretaria de Segurança e a PM. No evento, a secretaria mostrou imagens alegando que black blocs e outros grupos radicais preparavam bombas caseiras durante o ato, informação que foi desmentida pela reitora da Universidade Estadual de Londrina, Berenice Jordão. "É bastante lastimável a divulgação das imagens que associam estudantes e docentes da universidade a grupos radicais que teriam provocado o conflito", disse, à ocasião. "Queremos esclarecer que os alunos presentes no protesto estavam devidamente acompanhados de servidores-técnicos e professores". Os próprios professores e estudantes se identificaram nas imagens, e disseram que na verdade preparam um composto químico para aliviar os efeitos de bombas e gases usados na repressão.

Para o coronel Eliseu Ferraz, presidente da Associação de defesa dos direitos dos policiais militares ativos inativos e pensionistas (AMAI), apesar de serem do "mesmo grupo" o importante é que Francischini finalmente saiu. “Já não tinha mais o respeito do mundo político, do mundo técnico, e de nenhum dos insubordinados. Precisava abrir espaço para que alguém, ainda que como interino, comece o processo de reaproximação da secretaria com as forças policiais e outros órgão públicos”, disse ao EL PAÍS. “Ficamos magoados com a saída de Kogut [ex-comandante da PM], ele é muito melhor que Francischini, e o perdemos, uma pena. Agora, o ex-secretário não vai fazer falta”, completou.

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