Crise hídrica

Após meses na periferia, seca já chega a bairros nobres de São Paulo

Crise faz de piscinas reservatório de emergência e obriga bares na zona central a fechar

Mulheres tomam sol em São Paulo.
Mulheres tomam sol em São Paulo.Rafael Neddermeyer (Fotos Públicas)

A falta de água avança de fora para dentro em São Paulo. Até então a salvo da crise, os moradores do bairro nobre de Alto de Pinheiros, na região central, começam a olhar para suas piscinas não como bálsamo para o calor, mas como um reservatório de emergência.

“Ontem não teve água o dia inteiro”, disse Vera Lúcia Carret, quando voltava de sua corrida matinal pela Avenida Pedroso de Moraes, importante via da região, para sua casa da zona. “Se a água não voltar, eu tenho uma piscina. Posso colocar uma bomba para abastecer a minha caixa d’água", diz a dona-de-casa.

Carret está pensando em mais alternativas para driblar o problema, como chamar os vizinhos e contratar um caminhão pipa conjunto – sorte dos que podem pagar, já que o custo é de 450 a 1.000 reais, por 10.000 litros de água, com demanda crescente.  Em último caso, diz Carret, ela irá “encher a banheira de água para armazenar o que resta”.

Foi só nesta quarta-feira que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, abriu mão de malabarismos retóricos e reconheceu pela primeira vez que há racionamento de água. Mas Levy Carlos Mota, que é vigia em Alto de Pinheiros, é a prova de que a notícia é velha.

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No Jardim Jaraguá, a 20 km à noroeste de onde Mota trabalha, falta água desde o ano passado. “Só agora os moradores aqui começaram a reclamar do problema."

Passeando com suas duas cachorras da raça Golden Retriever pelo bairro nesta quinta, o economista Renato Raddad conta que tentou se antecipar à crise hídrica: há um ano não lava o carro. "Otimizamos o consumo, cortamos a água para uso que não seja cozinhar e tomar banho”, diz ele. “Temos uma caixa d’água em casa, mas o abastecimento da rua começa a chegar só lá pelas 10h da manhã.”

Raddad diz ter chegado a 40% de redução de consumo para ajudar no esforço coletivo, mas reclama da falta de clareza do Governo para lidar com a crise. “O que incomoda de fato é essa discussão semântica do Governo de que não há racionamento”, diz. “Sabemos que não ficaremos sem água aqui, nessa região. Quem mais vai sofrer com isso tudo será a população mais carente de tudo”, diz. "Mas é uma falta de respeito dizer que não há racionamento".

João Carlos Santos, que também mora e trabalha no Alto de Pinheiros, diz que o abastecimento de água está sendo interrompido por volta das 19h e só volta no dia seguinte. “Às vezes às 6h da manhã a água ainda não voltou.”

A crise ameaça também o pulso econômico de verão, quando as pessoas saem mais, ficam mais tempo na rua, bebem, comem e consomem mais. Na última sexta à noite, o calor tinha tudo para se transformar em lucro nos bairros boêmios da cidade, mas na rua Augusta, na região central, os bairros fecharam mais cedo e não foi pelo temor de problemas com os protestos na zona.

"Não havia água. Fechei a casa, escalei uma garçonete e pedi para que ela fosse pedir água emprestada no vizinho, porque não havia água nem para lavar a louça”, desabafava, no sábado, o sócio de um restaurante na Rua Augusta, que tem outro negócio nos Jardins. “O Governo avisou que multaria quem não economizasse água. Eu acho justo. Agora, quem vai me ressarcir, quando eu deixo de abrir a minha casa em uma noite de sexta-feira, por causa da falta de água?”

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