TURBULÊNCIA na economia global

O petróleo faz a América Latina ter seu pior ano desde 2009

Queda das commodities e o dólar forte afetam a região. No Brasil, Petrobras tem ganho

Transeuntes leem ofertas de trabalho em São Paulo.
Transeuntes leem ofertas de trabalho em São Paulo.

A queda das cotações das matérias-primas, em especial o petróleo, tirou a América Latina da rota de saída de crise que parecia escrita para ela. Há um ano, bancos, consultorias e organismos internacionais previam que em 2014 terminaria a desaceleração econômica que a América Latina vinha registrando ano a ano desde 2011. A região saiu rapidamente da crise mundial de 2008 e 2009, mas logo depois começou a perder ritmo, e as previsões foram reduzidas até acabar com um crescimento de apenas 1,1% em 2014, segundo a compilação de prognósticos de consultorias e bancos feita pela empresa FocusEconomics.

Algumas variáveis fundamentais afetam quase todos os países. Uma delas é o fim do chamado superciclo de preços altos das matérias-primas, principais produtos de exportação da maioria dos países. Mesmo o México, do qual 74,8% das exportações são manufaturados, depende do petróleo para gerar um terço de sua receita. O petróleo teve queda de preço de 46% em 2014 —e a tendência até agora continua de baixa em 2015—, o que prejudica esse país e também o Brasil, a Colômbia, a Venezuela e o Equador. No Brasil, a situação, por ora, beneficia a estatal Petrobras, que, por causa dos preços controlados, pode vender combustíveis internamente com valor maior do que o atual no mercado internacional.

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A baixa, por outro lado, beneficia países importadores, como o Chile, o Peru e a Argentina, embora este último país tente encontrar investidores para desenvolver sua jazida de hidrocarbonetos não convencionais em Vaca Muerta, o que fica mais difícil com o atual nível de preços.

A soja, importante para o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, caiu 22%. Na mineração, o preço do cobre, essencial para o Chile e o Peru, diminuiu 17%, e o minério de ferro, principal exportação brasileira (13% do total das vendas ao exterior do gigante sul-americano), caiu 47%.

Uma situação desigual

O Brasil cresceu somente 0,2% em 2014. Além disso a CEPAL adverte que falta ao Governo margem suficiente para pôr em marcha políticas fiscais e monetárias para dar impulso ao crescimento.

O México cresceu 2,1%, mas a FocusEconomics alerta que o descontentamento popular com a violência pode afetar a economia.

A Argentina se contraiu 0,2%, de acordo com a CEPAL, em especial pela desvalorização do peso em janeiro e pelas renovadas tensões cambiais devido ao conflito com os fundos abutres no inverno.

A economia da Venezuela se contraiu 3%, com inflação de 63%, segundo a CEPAL.

No Chile houve crescimento de 1,9%, mas o aumento do imposto de renda e o projeto de dar mais direitos trabalhistas inquietam os empresários.

A Colômbia se descolou do baixo crescimento, ao se expandir 4,8%, em parte por seus projetos de investimento, mas o petróleo barato também vai afetar o país.

As exportações industriais têm peso desigual entre as grandes economias da região: representam um terço das do Brasil e da Argentina, mas só um quinto das vendas da Colômbia, cerca de 14% no Peru e no Chile, e pouca coisa na Venezuela.

Além disso, a perspectiva de elevação das taxas de juros nos EUA fortaleceu o dólar, o que resultou em desvalorização não só das matérias-primas, cotadas na moeda norte-americana, mas também das moedas latino-americanas, com a consequente pressão sobre a inflação. Os analistas consideram que não vai fluir tanto capital para a América Latina quanto nos tempos de taxas baixas nos EUA, embora os Governos da região com acesso a crédito no mercado internacional não tenham acusado o golpe.

O positivo nesta história é que a contração na política monetária da superpotência resulta de seu crescimento econômico mais forte, o que beneficia os países que têm nele seu principal parceiro comercial, como o México, os centro-americanos e a Colômbia. Mas o comércio do Brasil, da Argentina, da Venezuela, do Peru e do Chile depende mais da desacelerada China, consumidora de matérias-primas.

Cada país tem suas próprias dificuldades. O Brasil cresceu apenas 0,2% em 2014, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL). A instituição alerta que falta ao Brasil margem suficiente para pôr em marcha políticas fiscais e monetárias para dar impulso ao crescimento. O México se expandiu em 2,1%, segundo os números da CEPAL, em ano em que foram promovidas reformas para atrair investimentos em telecomunicações e petróleo e para melhorar a qualidade da educação, mas a FocusEconomics alerta que o descontentamento popular com a violência pode afetar a economia

A Argentina teve contração de 0,2%, segundo a CEPAL, que credita a crise em especial à desvalorização do peso em janeiro passado e às renovadas tensões cambiais em razão da crise da dívida, deflagrada em julho pelos fundos abutres. O Governo de Cristina Fernández de Kirchner admitiu esta semana que o PIB se contraiu na comparação interanual no terceiro trimestre, pela primeira vez desde 2009. Consultorias e bancos consultados pela FocusEconomics calculam queda de 2,1%. No final do ano, créditos da China e investimentos da Telefónica e concorrentes permitiram à Argentina acalmar o peso, enquanto as moedas vizinhas se desvalorizavam, e o consumo cresceu em dezembro, pela primeira vez em 2014.

 A Venezuela também recorre ao financiamento pela China para compensar a escassez de divisas, mas sua situação é pior que a da Argentina. A CEPAL calcula que a economia venezuelana tenha se contraído em 3%, com inflação de 63%, superior aos 38,9% medidos pelas agências regionais de estatística na Argentina. O barateamento do petróleo lança dúvidas sobre uma eventual suspensão de pagamentos, mas analistas consideram que isso poderá ser contornado e põem seus temores na bagunça do sistema cambial (com três diferentes câmbios oficiais e um paralelo extraoficial) e no desabastecimento. A queda de preço do petróleo representa um tremendo revés para o país.

Chile e Peru sofrem o impacto de suas reformas, mas de distintos tipos de oposição. No Chile, o aumento do imposto de renda e o projeto para conceder mais direitos trabalhistas inquietam os empresários. No Peru, a flexibilização trabalhista para os jovens desencadeou protestos sociais. O Chile cresceu 1,9%, e o Peru, 2,8%, muito abaixo de sua acentuada expansão de anos recentes, segundo a CEPAL. Apenas a Colômbia se manteve à margem do desempenho modesto ou medíocre das outras grandes economias latino-americanas, crescendo 4,8%, em parte por seus projetos de investimento em infraestrutura e habitação, mas o petróleo barato também vai afetá-la.

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