MEDO À LIBERDADE

O Estado sequestrado

No México, a corrupção e o tráfico de drogas são endêmicos

O pacto sinistro entre corrupção política e crime organizado é mortal para qualquer país. O México chegou ao fundo do poço. Não é habitual que um presidente se reúna, durante cinco horas, com os familiares dos mortos e desaparecidos de uma pequena cidade, a três horas da capital federal, chamada Iguala.

Tampouco é habitual que todo o Governo esteja voltado a encontrar os 43 estudantes da Escuela Normal Ayotzinapa desaparecidos na noite de 26 de setembro. Este desafio foi colocado sobre o Estado pelo foco da atenção mundial sobre o que está acontecendo no país das reformas, quer dizer, no país de Enrique Peña Nieto.

Como acontece na Itália, os chamados “poderes fortes”, aqueles que governam da escuridão, conseguem se impor em forma de discurso maçônico e de pacto entre os criminosos da Cosa Nostra e os outros que nos representam nas urnas para terminar com a lenda de que os maus são mais fortes que qualquer Estado. Em Iguala, os maus também eram do Estado.

No México, a corrupção e o tráfico de drogas são endêmicos. Além disso, uma determinada classe política mantém um estranho equilíbrio de poder e muitas vantagens frente a um povo que, apesar de todos os defeitos e carências, experimentou um progresso importante no último século.

Iguala, cidade localizada no estado de Guerrero, o mesmo do paraíso perdido de Acapulco, abre um novo capítulo nas expectativas geradas por um governo que, através do Pacto pelo México, se impôs a tarefa de realizar as maiores mudanças estruturais dos últimos 30 anos.

Em apenas um mês, o presidente Peña Nieto passou de receber o título de estadista do ano – um prêmio que recebeu das mãos de Henry Kissinger – e de dividir a mesa com os políticos mais importantes do mundo, a estar apontado e tendo que assumir – em pessoa – o comando de um Estado que, pelo caso Iguala, está sendo questionado e atacado.

É inegável que a reação, a linguagem e o tratamento midiático da tragédia são novos, mas o problema é que, além das cinco horas, do compromisso crível contra a impunidade e dos gestos de boa vontade, estão os fatos, e estes dizem que, apesar de que o ex-presidente Felipe Calderón não inventou o crime organizado nem sua relação com o poder, foi ele que desencadeou uma guerra sangrenta contra o narco cujas consequências determinam a vida política mexicana.

Peña Nieto convive com milhares de desaparecidos, a maior parte durante os seis anos anteriores, mas isso não lhe tira a responsabilidade herdada de explicar o que aconteceu com eles, se estão vivos ou mortos e, se foram assassinados, quem fez isso e, se houver alguma responsabilidade criminal, quem pagará por ela.

O discurso político do Governo tinha se centrado na evidente força das reformas e em uma nova estratégia de segurança que tirava os crimes, assassinatos e desaparições do primeiro plano das notícias.

Por isso, acaba sendo curioso que, bem quando o país vai dar um salto para a frente, as forças do México forte tenham um plano tão sinistro e macabro.

Ao escrever esta coluna, ainda não se sabe nada sobre os corpos – com ou sem vida – dos estudantes. Que um mês depois o Estado mexicano, dedicando-se quase inteiramente a este caso, não consiga dar uma resposta sensata, além de atribuir a responsabilidade ao antigo prefeito de Iguala, hoje prófugo junto com sua mulher e ao destituído, e cada vez mais obscuro, ex-governador de Guerrero, é insuficiente e preocupante.

O único que pode matar esse abutre negro da insegurança que sobrevoa o desenvolvimento mexicano é mudar as regras do jogo e as relações em matéria de segurança jurídica.

Nesse sentido, se Iguala serve para que o Estado mexicano volte à vida, não só em uma cruzada – apesar de que vai ser necessário –, mas em uma guerra para destruir as perversas relações entre o crime e a classe política e o reforço da justiça, então Iguala voltará aos tempos de esplendor de quando foi a sede da proclamação da Constituição mexicana.

Enquanto isso, o Governo, começando por seu presidente, tenta entender quem o está desafiando, quem levou os estudantes e, o que é pior, se será capaz de encontrar pelo menos uma explicação – ou os corpos –, de como é possível governar um país onde as fossas comuns não contêm apenas as vítimas colaterais caídas em ajustes de contas, como dizia o calderonismo, mas demandas de justiça: se é possível confiar ou não, e saber quem, como e onde o Estado pode defender os cidadãos em um país milenário chamado México.

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