Coluna
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Legendas para fotos que não fiz

(Primavera nos Estados Unidos: 2010 e 2012)

MIAMI – Na madrugada, engolimos um café insosso, mastigamos um bolo puro-açúcar. Estamos a caminho, gritávamos, ponham lenha no fogão, arrumem as camas, varram a casa! Ecos de outra época, abandonada para sempre num canto da memória. Mortos todos, sobrevivem apenas em mim, estão comigo agora, até minha próxima desaparição.

WASHINGTON – Percorro, fascinado, as tumbas espalhadas por detrás da igreja, no campus da Georgetown University. A morte convida à reflexão. Então, em meio à bruma, surge, elegante, uma jovem, mínimo vestido vermelho, expondo, ao frio intenso, coxas latejantes. Agarramo-nos, insanos, a esta coisa, contraditória e esquisita, que uns chamam vida.

HOUSTON – Simpático, o rapaz fala em espanhol algo que não compreendo e empurro-me a outra sala, onde aguardarei uma conexão. Tenho passado muito tempo sozinho comigo, e isso talvez não seja bom. O outro que existe em mim clama por sossego e solidão. Eu permaneço, calado e distante, habitando-me em segredo.

BERKELEY – Sentados no gramado, próximo ao The Free Speech Café, fim de tarde de sexta-feira, temos a certeza, o ocaso do sol, de que a realidade não existe, mas apenas momentos fortuitos encadeando sentimentos e sensações que nos ligam a um passado e nos projetam a um futuro. Um esquilo expõe suas teorias, compenetrado.

1629, WALNUT STREET – Por aqui passaram... Poderíamos inaugurar uma placa comemorativa. Natureza morta de mínimas paredes que nos faz íntimos de vizinhos sem rosto. O calendário de uma loja de suplementos para escritório. Guias turísticos se ombreiam na estante. Garfos, facas, colheres contorcem-se na gaveta. Um aviso: uma folha de papel solta, amarelada, Somos apenas o que.

OAKLAND – Embarcam no trem, que atravessa subterrâneo a baía de São Francisco, mãe e filha talvez, ambas louras, ambas muito brancas. A mais velha tem olhos claros e um xale azul cobre-lhe os ombros. A mais nova veste-se toda de preto, calça, camiseta, casaco, botas militares. Grossas lágrimas borram a maquiagem que realça seus olhos castanho-esverdeados.

SÃO FRANCISCO – Percorremos inteira a Mission Street em busca de um restaurante nicaraguense. Caminhamos pela calçada direita, voltamos pela esquerda, sem sucesso. A comida é ótima, ela nos diz, e tenho certeza de que é por aqui. Ao fim, descobrimos que está fechado há seis meses. Nos fartamos com a culinária mexicana.

SAUSALITO – Suspeito, traja uma camisa da seleção argentina, um golden retriever muito bem cuidado, longa coleira de couro que permite seja acariciado por mãos delicadas e ingênuas. Chama-nos, em inglês, para conhecer algo, para além do fim da rua. Se diz de Buenos Aires, mas não fala uma única palavra em espanhol. Recusamos, educados.

LOS ANGELES – Em San Fernando Valley, num banco ancorado no quintal de grama bem aparada, conjecturo, solitário. Por mais que meus pés me arrastem mundo afora, não pertenço a esse lugar nem a esse momento. Um passarinho linguarudo pergunta, inconveniente, E para onde você volta, viajante? E quando? E por quê? E para quê?

NOVA YORK – No Central Park a certeza: já estive aqui antes, caminhando por entre essas árvores, por entre estas pedras. Meus pés percorreram, analfabetos, esse labirinto improvável, e se perderam e se encontraram e se perderam novamente. Da outra vez, nunca mais fui achado. Agora, marco as pegadas com miolos de sonhos trazidos em meus bolsos vazios.

BALANÇO – Não apascentei meus olhos pela paisagem lunar dos grandes desertos do sul. Não usufruí da paisagem de montanhas inacessíveis que dividem a terra longitudinalmente. Não vi a Estátua da Liberdade (vi, mas de longe, e de passagem). Meus pés não se acercaram da poeira de Hollywood. Não descobri aquele bar, aquele restaurante, aquela loja. Deixei apenas meu corpo impregnar-se do cheiro, dos volumes, das cores, dos ruídos da primavera que abraçava-me companheira, solidária.

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