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Os mafiosos não vão à missa

Presos e membros da Ndrangheta calabresa desafiam a Igreja após a decisão do papa de excomungá-los

É evidente, pela reação que está tendo, que a máfia calabresa encarou as palavras do papa Francisco – o anúncio da excomunhão de seus membros – como algo mais do que um gesto retórico de condenação. Encarou-as como o que elas são: uma mudança de posição do Vaticano. Francisco disse isso há duas semanas em Cassano allo Jonio, o povoado onde a Ndrangheta perpetrou em janeiro um de seus costumeiros crimes horrendos. Em um ajuste de contas, matou um menino de três anos com seu avô, ao qual queria castigar.

No cenário de tão terrível assassinato, Jorge Mario Bergoglio disse em claro e bom som: "A Ndrangheta é a adoração do mal, o desprezo ao bem comum. Tem de ser combatida, afastada. Nossos filhos, nossos jovens nos pedem isso. E a Igreja tem de ajudar. Os mafiosos não estão em comunhão com Deus. Estão excomungados."

A comunidade criminosa não gostou de ser expulsa da comunidade de fiéis e o fez saber. Cerca de 200 presos da penitenciária de alta segurança de Larino se negaram no domingo a ir à missa em protesto contra a excomunhão. Um aviso?

Inquietante, de qualquer modo, quando se leva em conta que em Oppido Mamertina, um povoado calabrês de 6.000 habitantes, os responsáveis por uma procissão religiosa fizeram uma parada durante a passagem da imagem da Virgem diante da casa de um chefão mafioso, condenado à prisão perpétua por extorsão e assassinato, em sinal de consideração e respeito.

Das quatro máfias que operam na Itália – a Cosa Nostra siciliana, a Sacra Corona Unita de Puglia, a Camorra napolitana e a Ndrangheta calabresa –, esta última é a que mais ostenta seus vínculos com a Igreja e sua devoção cristã, o que não a impede de roubar, ameaçar, extorquir e assassinar quando lhe convém.

É preciso enfatizar, portanto, que também nessa frente Francisco demonstra grande coragem. Pela primeira vez, o papa participou da cerimônia anual em memória das vítimas da máfia e o fez ao lado de Luigi Ciotti, um sacerdote que dedicou sua vida à luta contra o crime organizado. E é claro que o papa não ignora que, depois de um pronunciamento de João Paulo II em Agrigento (Sicília) em 1993, a Cosa Nostra pôs bombas em duas igrejas de Roma e assassinou em Palermo o sacerdote Pino Puglisi.