A greve do metrô é suspensa até a véspera da abertura da Copa

O sindicato tenta reverter a demissão de cerca de 42 grevistas Os trabalhadores ameaçam parar de novo durante o jogo do Brasil, no dia 12

Manifestante e a Polícia Militar na estação Ana Rosa.
Manifestante e a Polícia Militar na estação Ana Rosa.chico ferreira (reuters)

Os paulistanos tiveram uma boa e uma má notícia sobre a paralisação dos funcionários do metrô, que provocou um dos piores trânsitos matutinos em São Paulo nesta segunda-feira. A greve foi suspensa por um dia, mas pode voltar na quarta-feira, dia 11, caso o Governo do Estado de São Paulo não recue na decisão de demitir os funcionários que participaram de piquetes por aumentos salariais. Isso significa que se não houver acordo até a noite desta terça, os metroviários podem paralisar São Paulo até no dia da abertura do Mundial. Desta forma, o debate sobre o aumento salarial ficou em segundo plano.

A decisão, tomada durante a assembleia no Sindicato dos Metroviários, na zona leste de São Paulo, na noite desta segunda-feira, não teve apoio de todos os presentes. Diego Pereira, por exemplo, um dos demitidos pelo Governo estadual, se disse contra a extensão da greve. “É melhor parar para que não haja mais demitidos”, avaliou. Camila, outra funcionária demitida, porém, defendia que a paralisação seria uma respostas às demissões.

A assembleia aconteceu depois da reunião entre os representantes do Governo e dos metroviários. As duas partes não chegaram a um acordo sobre os demissionários. Os funcionários que decidiram cruzar os braços na última quinta-feira, dia 5, cobrando aumento salarial, estavam condicionando o fim da greve à readmissão dos 42 grevistas demitidos pela Secretaria do Transportes nesta segunda. O Governo, porém, não recuou.

A greve entrou no quinto dia nesta segunda-feira, quando foi registrado mais um conflito com a polícia. O tumulto, ocorrido em uma das estações mais movimentadas da cidade, o terminal Ana Rosa, culminou com 13 manifestantes detidos pela Polícia Militar, levados para o 36º Departamento de Polícia. O grupo ficou detido até as 13h, quando os trabalhadores foram liberados e se dirigiram para a sede do Sindicato dos Metroviários, no Tatuapé.

O enfrentamento ocorreu antes de o sol nascer na cidade. Os grevistas, que receberam apoio de outros movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Movimento Passe Livre (MPL), haviam convocado no domingo uma manifestação no local para as 7 da manhã. O confronto se estendeu para a Rua Vergueiro, uma movimentada via que dá acesso à estação do metrô e fica muito próxima da Avenida Paulista.

A paralisação afetou a vida dos paulistanos em função do trânsito tumultuado com as estações que deixaram de funcionar. “Hoje [segunda-feira] eu demorei duas horas para fazer o trajeto da Raposo Tavares até a avenida Sumaré. Normalmente faço esse caminho em 30 minutos”, disse o taxista Dorivaldo Aguiar. Segundo os cálculos de Aguiar, se o tráfego da quinta-feira, dia da abertura da Copa do Mundo, estiver como estava nesta segunda-feira, o trajeto do centro da cidade até o Itaquerão, que duraria 50 minutos e custaria 90 reais, será feito entre duas horas e meia e três horas e custará 150 reais.

O secretário de Transportes do Estado, Jurandir Fernandes, declarou estar cumprindo a ameaça, feita no domingo, de cortar quem participasse da greve. O Sindicato dos Metroviários confirmou que cerca de 60 pessoas [finalmente foram 42] estavam recebendo nesta segunda-feira o anúncio de demissão em casa, por meio de telegrama.

Se inicialmente os trabalhadores estavam unidos na luta pelo reajuste, o clima no sindicato, no final da tarde desta segunda-feira, era de divisão entre os que apoiavam a direção da entidade e os que se frustraram com a estratégia do sindicato por ter forçado uma barganha que o Governo não aceitou – um reajuste de 12,2%, acima da inflação – o que teria  provocado a demissão dos grevistas. Em 2007, durante outra greve do metrô, 60 funcionários foram demitidos e nunca mais foram reintegrados.

Antes da reunião com os representantes do Governo, manifestantes montaram nas ruas barricadas com lixo e atearam fogo. Como vem feito ultimamente, a PM usou bomba de gás lacrimogêneo e de efeito moral para conter os manifestantes, que revidaram atirando objetos nos policiais. "Cheguei no Brasil há duas semanas e fiquei espantado com a truculência do Governo com os movimentos sociais", disse o belga Sebastien Antuin, pesquisador de movimentos sociais.

Após o conflito, os manifestantes se deslocaram para a Praça da Sé, na área central da cidade. Parte dos grevistas se dirigiu até a Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado, mas o secretário Jurandir Fernandes não quis recebê-los, segundo informaram os próprios manifestantes. No final desta manhã, parte do movimento deve seguir para a sede do Sindicato dos Metroviários, no Tatuapé, Zona Leste da cidade, para participar da assembleia. "Vamos continuar unidos. Juntos, os dois movimentos ficam mais fortes", disse Douglas Ferreira, do MTST.

Por volta das 10h30 desta manhã, a cidade registrava 170 quilômetros de congestionamento. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) orientava o trânsito no centro da cidade e o rodízio foi suspenso, agravando ainda mais o caos. "Isso é um movimento oportunista. Virou uma vergonha, tem greve para todos os lados e todos os gostos", disse o aposentado Ildo Vieira da Silva. Apesar do caos, a opinião contrária à greve não é unânime. "Cada um tem que lutar pelos seus direitos. Mesmo afetando a vida das pessoas. É justo", disse a copeira Sandra dos Santos, nesta manhã, no centro da cidade.

Como ocorreu desde a quinta-feira passada, primeiro dia da greve, algumas estações de metrô estavam funcionando normalmente. Até as 16h da segunda-feira, 47, das 61 estações estavam funcionando. A greve afetou as linhas azul, verde e vermelha.

“Greve abusiva”

Na manhã do domingo, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) julgou, por unanimidade, que a greve era abusiva e estabeleceu que o índice de reajuste salarial era de 8,7%, como o Governo já havia determinado. Os trabalhadores pedem 12,2% de aumento. Os dois porcentuais excedem a reposição da inflação, que gira em torno de 6% em 12 meses. O TRT também decretou o pagamento de multa de 500.000 reais por dia de paralisação, caso a greve persista.

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