Manifestações pelo Brasil

A agenda das manifestações no Brasil entra no calendário dos jogos da Copa

Os movimentos sociais prometem ir às ruas durante o Mundial. Greve no transporte público em São Paulo pode comprometer a locomoção para o jogo de abertura

“Se fosse há quatro anos, a minha rua já estaria toda enfeitada de verde e amarelo”. A frase foi dita por um taxista de São Paulo, mas poderia estar na boca de milhares de brasileiros. É perceptível um certo clima de desânimo no Brasil com a Copa do Mundo deste ano. Mas se a torcida está morna, ainda assim, o campeonato poderá ter altas temperaturas, devido às dezenas de protestos e mobilizações que assolam o país desde junho do ano passado. Nesta sexta-feira, o segundo dia de greve dos metroviários de São Paulo fez a cidade bater o recorde de engarrafamento do ano. Às 10h da manhã, mais de 239 quilômetros de carros estavam parados pela cidade.

“Desespero mesmo é dormir e acordar cinco vezes no ônibus e ele continuar no mesmo lugar”, dizia no Twitter a usuária do transporte público @stangerina, sobre a lentidão do trânsito. Ao longo da manhã de quinta-feira, diversas pessoas estavam publicando selfies na estação do metrô completamente tumultuada, para mostrar para seus chefes por quê não conseguiam chegar até o trabalho. A Polícia Militar usou truculência para conter os manifestantes e grevistas e diversos vídeos foram postados nas redes denunciando a violência.

O caos em São Paulo ilustra um pouco a dicotomia vivida atualmente pelos brasileiros. Mundialmente conhecida como amante do futebol, a população está dividida entre as palavras de ordem dos protestos e as frases de incentivo para a Seleção brasileira em campo. Apesar desse paradoxo, tudo indica que vai ter Copa sim.

Quase todos os ingressos do último lote que a FIFA disponibilizou para vendas no site na última terça-feira foram vendidos em questão de poucas horas. Por outro lado, nesse mesmo dia, mais de 12.000 pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) marchavam até o estádio Arena de São Paulo (popularmente conhecida como Itaquerão), onde serão realizadas algumas partidas da Copa, incluindo a abertura dos jogos.

A estratégia dos movimentos sociais é fazer uma agenda de mobilizações atrelada ao calendário dos jogos, principalmente os da seleção brasileira. Contra os gastos com o Mundial, pela demarcação de terras indígenas, aumento de salário de diversas categorias e até a legalização da maconha, milhares de pessoas têm marchado, semanalmente, em algum ponto do país. Na semana em que começa o Mundial, a primeira mobilização agendada é no dia 10 de junho, dia do Congresso da Fifa em São Paulo. Nessa data, o Comitê Popular da Copa convocou uma "série de organizações, coletivos e movimentos sociais para o Congresso do povo - Copa das Tropas", como diz no evento na página no Facebook.

O mesmo Comitê organizou outras manifestações no dia da abertura dos jogos, 12 de junho. Belo Horizonte (capital de Minas Gerais), Brasília e Porto Alegre são algumas das cidades que já estavam confirmadas. Todas são cidades-sedes do Mundial. No mesmo dia em São Paulo, a Central Sindical Popular chama para uma mobilização a partir das 10h na sede do sindicato dos Metroviários, no bairro do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, mesma região onde fica o Itaquerão. Além disso, está previsto um "Grande ato contra a Copa" na cidade, ainda sem endereço confirmado da concentração e sem um movimento social específico na liderança. O MTST confirmou ao EL PAÍS que haverá uma mobilização na próxima semana, mas que não havia ainda uma data certa e nem se haveria a possibilidade de ser no dia 12.

No dia 19 de junho, o Movimento Passe Livre, grande protagonista das manifestações iniciadas em junho do ano passado, organiza uma manifestação pela "tarifa zero" no transporte público em São Paulo. Já os simpatizantes da tática Black Bloc, outros manifestantes que, desde junho, ganharam maior evidência, não publicaram nenhuma convocatória ainda. Na página do Facebook do grupo há apenas um post com certo ar de suspense: "Dia 12 o país vai parar para assistir à maior corrupção da história. Preparem-se...”.

À reportagem do EL PAÍS, os representantes e interlocutores de alguns movimentos sociais, como o MTST e a Central Sindical Popular preferiram não revelar muitos detalhes sobre a organização das mobilizações. “Existe um clima de repressão muito grande. Por isso não vou dizer o itinerário da nossa passeata e nem te revelar mais detalhes”, disse um interlocutor da Central Sindical Popular. A própria página dos simpatizantes dos Black Bloc não deixa nada claro o que pode acontecer nos próximos dias.

Embora as manifestações pelo Brasil estejam ocorrendo há um ano exatamente, nesse período todo a FIFA se manteve calada em relação a esse assunto. Porém, talvez diante das paralisações dos metroviários que estão em greve deste a quinta-feira, 5, em São Paulo, fazendo com que o metrô que chega até o Itaquerão, por exemplo, não funcione, a Federação resolveu se pronunciar.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o vice-presidente da FIFA, Jim Boyce, disse, nesta quinta-feira que a situação é preocupante diante dos protestos sociais. “A maior preocupação é de fato com o que acontecerá nos protestos. Os torcedores precisam ter garantias de que chegarão ao estádio”, disse.

No mesmo dia, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, afirmou não ter nenhum plano para o deslocamento dos torcedores caso o transporte público entre – ou continue – em greve nas cidades-sedes. “Não trabalho com essa hipótese”, disse, em um evento da Fifa. “A organização da Copa envolve as três esferas do poder público. No Caso do transporte, a responsabilidade é do município”.

No final desta tarde, uma reunião entre o sindicato dos metroviários e o Governo na Justiça acabou sem acordo. À noite, os metroviários realizariam outra assembleia para decidir se continuarão ou não em greve.