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TRIBUNA

Educação chavista: sonhos e realidade

Em vez de ser o grande êxito da revolução cubana, a educação tem sido um de seus maiores fracassos

“A Venezuela é uma enorme sala de aula”, disse Chávez em alguns de seus discursos e, com efeito, a revolução bolivariana lançou uma série de Missões, programas educativos, aldeias universitárias, “escolas simoncitos”, “computadores canaimitas”. Um gasto desordenado e ineficiente, uma quantidade gigantesca de propaganda destinada à UNESCO, UNICEF, Internacional da Educação e tantas agências educativas que existem no mundo, para convencê-los de que na Venezuela está se formando o Homem Novo, o revolucionário perfeito que há de continuar lutando pelo socialismo do século XXI.

Na realidade a Venezuela é um país com escolas arruinadas, onde os petrodólares não são suficientes para o “copo de leite da merenda” que se dava às crianças há décadas, onde não há eletricidade para conectar os computadores. Um país com delinquência desenfreada, onde grupos de marginais menores de idade (que supostamente deveriam estar na escola) matam suas vítimas depois de torturá-las selvagemente. Um país onde os docentes, tanto professores do ensino fundamental quanto universitários, têm os salários mais baixos das Américas, acima apenas do Haiti. Um país onde os jovens buscam desesperadamente emigrar ou estão nas ruas protestando diante da falta de futuro sob o regime chavista.

Em vez de ser o grande êxito da revolução bolivariana, a educação tem sido um dos seus maiores fracassos. As grandes universidades da Venezuela, UCV, LUZ, ULA, USB, são e sempre foram, públicas e gratuitas. Seguindo a tradição da universidade argentina de Córdoba, são autônomas desde meados do século passado e também têm sido tradicionalmente de esquerda. Chávez entrou em choque com elas desde o início, pois sua mentalidade caudilhista militar não tolerava a dissidência, nem a livre discussão, essenciais na vida universitária. Lembro-me perfeitamente de sua fúria quando foi recebido com uma gigantesca vaia em 1998 por estudantes da USB, em um fórum sobre a política para o petróleo dos então candidatos presidenciais. Durante seu Governo, nunca compareceu a um ato público em nenhuma dessas instituições, nem sequer a algum jogo de beisebol nos estádios universitários. Pelo contrário, dedicou-se a afogar financeiramente todas as universidades públicas, extremamente vulneráveis, pois ao não cobrar matrícula dependem quase que exclusivamente do orçamento do governo.

Paralelamente, e sem entender realmente o que é uma instituição de educação superior, dedicou-se a criar universidades à sua imagem e semelhança. Quinze novas universidades em 14 anos de governo e centenas de “aldeias universitárias” sem exame de admissão para pelo menos ter uma ideia da capacidade dos estudantes, com um currículo totalmente politizado e corpo de professores escolhidos entre os fiéis ao Governo. Mesmo para classificar os estudantes, leva-se em conta seu comportamento político.

Estas “universidades” em vez de examinar quais podem ser as necessidades mais importantes para o país, formam advogados que só acreditam nas leis revolucionárias, jornalistas que não sabem o que é liberdade de expressão e médicos “comunitários” que se transformaram em um pesadelo para os hospitais que, já arruinados, são obrigados a recebê-los. São a causa de uma imensa frustração entre os jovens que abrigavam a esperança de poder progredir ao se formarem e cuja única fonte de emprego ao terminar os estudos é a imensa e cada vez mais medíocre e mal remunerada burocracia governamental.

O Homem Novo revolucionário deveria formar-se naturalmente desde sua tenra infância. Mas em seu afã por doutrinar as crianças venezuelanas, o chavismo tem enfrentado uma forte resistência de pais e de muitos professores. No entanto, a luta é muito desigual e cada vez mais vemos nas escolas venezuelanas brigadas semelhantes aos pioneiros de Cuba. No currículo, que é obrigatório e ditado pelo Ministério da Educação Popular, a história da Venezuela foi totalmente mudada, chegando inclusive a anedotas ridículas como a recente aparição de uma enfermeira cubana que amamentou o menino Simón Bolívar.

Em aritmética, pode-se comprar um quilo de açúcar a 5 bolívares com os capitalistas aproveitadores ou a 2 nos mercados populares (este exemplo é absolutamente utópico, já que não se consegue o açúcar na Venezuela a nenhum preço). As ilustrações, de um mau gosto insólito, mostram Bolívar pequenino entregando a Chávez, grande e poderoso, sua espada libertadora. Como exemplo do culto à personalidade, copio textualmente o programa (imposto pelo Ministério) para as escolas públicas na semana de 10 a 14 de março de 2014, um ano após a morte de Chávez:

1. Oração pela vida e pela paz.

2. Canto do Hino Nacional da República Bolivariana da Venezuela.

3. Um (01) minuto de aplausos em memória à grandeza e ao amor à Pátria do Comandante Supremo e Eterno Hugo Rafael Chávez Frías.

4. Curta bibliografia do Comandante Hugo Rafael Chávez Frías sob responsabilidade de um professor ou professora do campus.

5. Relatório do Dia Internacional da Mulher.

6. Desenhos alusivos ao Comandante Hugo Rafael Chávez Frías feitos pelos estudantes.

A única coisa que posso acrescentar é que, apesar deste doutrinamento feroz, nossos estudantes não se dão por vencidos. Em nenhuma das universidades onde há eleições um candidato chavista chegou a ganhar. Os estudantes continuam, apesar da repressão, protestando em todas as ruas do país. E quanto aos livros para os pequenos, existentes desde a época colonial, um slogan libertário: “Se obedece, mas não se cumpre”.

Maruja Tarre é professora Universidade Simón Bolívar, Caracas. @Marujatarre