“Não se pode melhorar aquilo que não se mensura”

Andreas Schleicher, da OCDE, defende os instrumentos de comparações entre países para nortear políticas de melhoria da educação

Andreas Schleicher, da OCDE, hoje em Brasília.
Andreas Schleicher, da OCDE, hoje em Brasília.Sergio Amaral

É preciso enxergar a realidade para poder modificá-la, avalia o diretor-adjunto da OCDE, Andreas Schleicher, físico alemão que supervisiona o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) e de competência de adultos (PIAAC). Para ele, a decisão tomada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e mantida pelos seus sucessores, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, revela que foi uma decisão do Governo enfrentar a verdade, uma ação que poucos países latino-americanos tomaram em 2000, quando o Brasil começou a ser avaliado pelo PISA. "O copo está mais para meio cheio que para meio vazio", avalia Schleicher. Embora reconheça os avanços, o diretor da OCDE acredita que o país poderia estar fazendo mais, por exemplo, no campo da formação e valorização de professores, um tema que agora está em debate com o Plano Nacional de Educação.

Pergunta. Os números sobre educação no Brasil são sempre pessimistas. Os resultados do PISA colocaram o Brasil na 58ª posição e o informe de educação Information at a Glance, elaborado pela OCDE, também não traz muitos motivos para comemorar, o que nos leva a pensar que o PIAAC vai seguir a mesma linha. Você enxerga isso da mesma forma?

Resposta. O Brasil não tem um longo histórico em educação, mas é o país que mais rápido apresentou melhorias. De 2000 até agora foi o país que mais avançou. Você pode olhar isso de duas maneiras. O desempenho do Brasil não é tão bom, mas o Brasil só deu início há uma década a uma abordagem mais séria e aumentou significativamente o número de alunos na educação primária e o ensino médio. Não existe um histórico brasileiro longo de investir realmente em educação. Mas o país é o que mais rápido avançou em relação aos outros, avaliados pela OCDE. O copo está mais para meio cheio do que para meio vazio. O PIAAC será mais desafiador, porque grande parte da população adulta não teve acesso a esse tipo de ensino que está disponível agora para os jovens. E não é todo país da América Latina que teve esse tipo de avanço.

P. É importante que o Brasil busque uma comparação ainda que com países desenvolvidos?

R. Você não pode melhorar aquilo que você não mensura. Acredito realmente que se você não enxergar o que é verdadeiro você não consegue ir adiante. Isso tem se tornado uma realidade desde o Governo anterior, do presidente Fernando Henrique. Temos de enfrentar a realidade.

P. E como esta se projeta de agora em diante?

R. Estamos vivendo em uma sociedade global. O futuro de nossas crianças não depende apenas daquilo em que estamos melhores que ontem, senão também de como colaboraremos, competiremos, nos conectaremos com todos no mundo. Lembro de uma coisa que me chamou muito a atenção há alguns anos aqui mesmo no Brasil, em um mercado. Entre os produtos, li que um era 'made in China', e vi que a globalização não está longe, no exterior, acontece mesmo ao lado da porta de casa. O que está claro é que as estratégias que o Brasil necessitará para sair de um "adequado" para "excelente" são bem diferentes daquelas que ele usou com sucesso para sair de um sistema educacional "pobre" para um "adequado".

P. É inevitável o efeito político dessas comparações pelo impacto dos resultados?

R. Sim, o Brasil foi o primeiro país fora da OCDE a aderir a esse processo de avaliação. Nenhum presidente entra às cegas nesse processo. Eles sabiam o que estariam obtendo com isso. Já é hora de enxergar a verdade. Não é justo fazer muitas comparações com o Brasil, mas ainda assim é relevante. Há diferenças entre um estudante em desvantagem em um favela com outro de um bairro nobre de Brasília, por exemplo. Mas no fim do dia eles vivem em um país em comum, podem se encontrar na rua. Não se pode colocá-los em mundos separados.

P. Quem são os maiores responsáveis pela educação?

R. A educação precisa ser um assunto de todos, de uma sociedade, de empresas e não apenas de instituições ou de governo. Você não pode mandar alguém de volta para a escola [no caso de adultos, por exemplo], mas você pode dar oportunidades para ele em leitura e escrita no ambiente de trabalho para que ele desenvolva suas habilidades. A China, por exemplo, tem 70 milhões de pessoas envolvidas em cursos para aprendizado de adultos.

P. Como o senhor enxerga o esforço brasileiro?

R. O Brasil está fazendo progressos contra a desigualdade, mas o abismo social ainda é muito grande. Acho que há mais coisas que o Brasil poderia fazer, como por exemplo atrair os professores mais talentosos aos locais mais desafiadores. Se você cresce em uma família rica no Brasil, você pode ter acesso a uma educação tão boa como na Finlândia, por exemplo. O contrário também é válido, entre os piores. Estão sendo realocados muitos recursos, por parte do governo.

P. E qual é o tamanho da participação dos professores nesse processo?

R. Você não pode esperar que uma nave venha e traga novos professores. Você precisa trabalhar com as pessoas que você tem. Você precisa pensar em como melhorar suas habilidades, conectá-los. Não é questão de educar uma nova geração de professores. Esta também é uma boa ideia, mas isso não resolve o problema. É uma questão de descobrir meios de identificar os melhores professores. Já há boas práticas nesse sentido nas escolas brasileiras.

P. A questão salarial, abordada no Plano Nacional da Educação...

R. O salário é importante, mas você precisa criar perspectivas de carreira para os professores, como um reconhecimento público maior, por exemplo. Esses fatores acabam sendo mais importantes que dinheiro. Os sistemas de alta performance educacional estão atentos a como selecionam e treinam sua equipe. Eles observam como os professores se esforçam e como estruturar os salários. Promovem um ambiente onde os professores trabalham juntos, tanto para sua autonomia como para uma cultura de colaboração. E eles mesmos criam os caminhos para que os professores cresçam em sua carreira. Os recursos devem ser investidos onde podem fazer mais diferença.

P. Então a valorização do professor é central no processo?

R. Todo mundo está de acordo que educação é importante. Mas isso é testado quando a educação é medida com outras prioridades. Como os países pagam seus professores, comparado a outros profissionais preparados? Você gostaria que seu filho fosse um professor ao invés de um advogado? Como a mídia fala sobre os professores? O que vimos com o PISA é que os grandes líderes de sistemas de alto nível educacional conseguiram convencer os cidadãos a fazerem escolhas que valorizam a educação, o futuro, mais que o consumo momentâneo. Mas agregar valor à educação é apenas uma parte da equação. A outra parte é acreditar que todas as crianças podem alcançar todas as possibilidades que você dá a elas. O fato de que alguns estudantes em alguns países acreditem que as conquistas só vêm com trabalho duro, ao invés de inteligência nata, indica que a educação e o contexto social podem fazer a diferença na hora de induzir os valores que promoverão o sucesso na educação.

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