Mikitani: “Em 30 anos talvez haja só duas moedas: o ouro e a digital”

O fundador da Rakuten, proprietário do Kobo, Wuaki e Viber, não considera viável ter livrarias nos países emergentes

Hiroshi Mikitani, fundador e conselheiro delegado da Rakuten.
Hiroshi Mikitani, fundador e conselheiro delegado da Rakuten.álvaro GArcia

Hiroshi Mikitani (Kobe, 1963) se dedicava às finanças, era o negócio da família e estava formado para isso, até que o terremoto que destruiu a sua cidade em 1995 o fez tomar um caminho completamente diferente. Ele vendeu seu banco e apostou na Internet. Tinha a intuição de que a rede de computadores interconectados poderia mudar o mundo para sempre. Em 1997 a Rakuten, seu império, dava os primeiros passos. Hoje ele tem mais de 10.000 funcionários no mundo inteiro. As receitas superam 3,308 bilhões de euros (10,6 bilhões de reais). Sua fortuna pessoal o coloca na 132ª posição da lista da Forbes, apesar de que isso é menos importante para ele do que levar conteúdo para todos os cantos do mundo. Dentro dessa estratégia está um investimento significativo (70 milhões de euros, ou 225 milhões de reais) no Pinterest, a rede social mais visual. Sua última compra foi o Viber (700 milhões de euros, ou 2,2 bilhões de reais), um concorrente direto do WhatsApp. Ele também tem a espanhola Wuaki, uma loja de vídeos on-line, a biblioteca e leitor de livros eletrônicos Kobo, assim como buy.com , play.com e PriceMinister.

Suas duas paixões são o beisebol – dono da equipe de Sendai, Eagles, e a música clássica – presidente da Filarmônica de Tóquio – cujo centenário o levou a uma visita a Madri, na Espanha.

Pergunta. A Rakuten é considerada a Amazon japonesa. Como o senhor a definiria?

Resposta. Somos uma empresa que utiliza a Internet para dar mais poder às economias locais. Sempre pensamos em construir, nunca em destruir. Nós concentramos o foco na comunicação entre as pessoas desde o início, por isso me importa mais a difusão do conteúdo do que a venda em si. Minha motivação ao criar a Rakuten foi que, diante de um desastre como o de Kobe, as perdas fossem menores. Sentia que o Japão tinha que ser autossuficiente nesta área e contar com uma nuvem própria.

A impressão e distribuição de livros não vai ter cabida em países emergentes; não é viável ter livrarias nem manipular o fluxo de devoluções

P. Seu país é o berço do videogame, com Sony e Nintendo na liderança. Tudo aponta para que Amazon e Google entrem neste setor. A Rakuten também estará lá?

R. No momento não. Não é nossa inquietude principal, embora distribuamos alguns títulos por meio do Viber.

P. O que torna o Kobo diferente do Kindle?

R. Agora mesmo, os dois estão praticamente sozinhos no mercado, quando eu acho que poderia ser mais amplo. Ao contrário da indústria da música, onde há muitos concorrentes, mas com margem escassa, no livro nos concentramos na entrega de conteúdo de forma sustentável. Para ganhar neste setor você tem que ser global. Nós focamos países emergentes, onde as pessoas vão direto para o digital assim que crescem um pouco mais. A impressão e distribuição de livros não terão lugar nesses mercados, não é possível ter bibliotecas nem gerenciar o fluxo de devoluções. O Kobo tem que se posicionar lá desde o início. E não vai nos servir apenas para livros, mas esse suporte tecnológico serve para distribuir revistas, mangás, jornais... tudo a um preço mais baixo.

Sequenciar o ADN agora mesmo custa ao redor de 20.000 euros. Cedo só serão só cinco

P. Por que comprou o Viber?

R. Porque é a melhor maneira de ser competitivo no mundo dos conteúdos. Nos ajuda a estar no mundo todo. À medida que sondamos (o negócio) fomos nos apaixonando porque é uma combinação de texto e voz, com melhor qualidade do que muitos programas dedicados a isso ou, inclusive, ligações tradicionais, mas sem esquecer a segurança. Conta com 300 milhões de usuários ativos, acho que vamos rentabilizar de diferentes maneiras, mas não descarto cobrar um dólar por ano.

P. Por que não Line, KakaoTalk ou WeChat, que dominam na Ásia?

A verdadeira revolução dos wearables chegará quando todo esteja conectado, sejam mais singelos e entendam a voz

R. Porque eran muito caros… (sorri). É lógico, são mais usados. Sem falar nos 19 bilhões de dólares (61 bilhões de reais) pagos pelo WhatsApp.

P. Ele serve para quê?

R. Ele se encaixa perfeitamente em nosso ecossistema de comércio eletrônico. Serve, por exemplo, como um canal de comunicação perfeito entre vendedores e clientes, para ter sempre suporte e responder rápido. Por outro lado, e sem distração, apresentamos conteúdo.

P. Também servirá para difundir notícias?

R. Não tanto, para isso temos o Kobo em meios impressos. Pensamos que esse suporte é melhor para esse tipo de leitura.

P. No Japão, as empresas se orgulham por não demitir ninguém, no entanto, as suas mudanças estão deixando muitas companhias obsoletas. Como é esse equilíbrio?

R. A responsabilidade social corporativa está profundamente enraizada no Japão. Nas escolas ensinamos música às crianças, também informática. Fizemos trabalho voluntário em Fukushima. Temos uma consciência social, mas não podemos ir contra os tempos. No entanto, nós nos esforçamos para ajudar as pequenas lojas, livrarias, damos ferramentas para crescer, ter melhores dados de compras e distribuição. Nossa plataforma permite-lhes oferecer um serviço no mundo físico com as vantagens da distribuição digital. Por exemplo, para vender sapatos, podem escolher na Internet, mas depois provam e fazem a compra final em suas lojas. Também implementamos um ônibus-biblioteca com livros físicos, mas também com transferências para o Kobo. Este último (projeto) eu gostaria de poder levar para mais países.

P. As startups vão mudar o mundo?

R. Acho que estamos nos estágios iniciais, ainda estão para chegar os passos importantes. Na saúde, os serviços globais com tratamentos de baixo custo vão melhorar. Os dados são, sem dúvida, críticos. Sequenciar o DNA agora mesmo custa cerca de 20.000 euros (65.000 reais). Logo, custará apenas 5.000 (16.000 reais). No campo da educação, o e-learning abre uma grande oportunidade. É a grande revolução desde a imprensa, com um aprendizado mais social e interativo. Tudo isso, repensando por empresas de infraestrutura mínima e aproveitando o poder da Internet para repensar o mundo. É fantástico.

P. O senhor que vem do setor bancário, o que acha do bitcoin?

R. Nossa, é controverso, mas apaixonante. Talvez dentro de 30 anos desapareçam as divisas e apenas tenhamos duas moedas: o ouro e a digital.

P. Vejo que o senhor usa uma pulseira Fitbit. O senhor se interessa pela tecnologia para o corpo, os wearables?

R. Acho que é muito eficaz e interessante. Os óculos do Google, muito legais, são melhores do que eu pensava. Estou esperando com grande entusiasmo para ver como serão os relógios inteligentes, acho que têm mais utilidade do que os óculos. A verdadeira revolução dos wearables virá quando tudo estiver conectado, sejam mais sensíveis e entendam a voz.

P. Qual é a posição da Rakuten na América Latina?

R. Temos uma fábrica no Brasil, onde crescemos muito rápido. De lá, conduzimos as operações no Chile, na Argentina e na Colômbia, um grande mercado potencial. O Viber é o nosso melhor aliado para a expansão, é muito popular e o medo em relação à privacidade no WhatsApp nos ajuda a crescer. Nós o usamos não só para divulgar livros e filmes nos mercados emergentes, mas também para desenvolver uma estatística para cada local. Graças ao Viber sabemos o que usam, qual o conteúdo que gostam, que demanda têm segundo o consumo de conteúdo, para apostar em um produto ou outro.