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Demitido por marcar gols demais

Técnico de uma equipe infantil espanhola perde o emprego após ganhar por 25 x 0. Clubes e federações buscam maneiras de limitar placares exagerados entre crianças

Uma partida de futebol de base na Comunidade de Madri.
Uma partida de futebol de base na Comunidade de Madri.

Em 3 de junho, a equipe dente de leite do CD Serranos, um clube de bairro de Valência que disputa seus jogos no leito do rio Turia, ganhou do Benicalap C, também de Valência, por 25 x 0. O elástico placar de uma partida entre garotos de 10 e 11 anos foi o fim para o técnico vencedor, demitido pela diretoria, que não gostou daquilo que entendeu como uma humilhação: “Nós estimulamos o respeito ao adversário. Foi uma decisão consensual. Depois do alvoroço pelo resultado, entendemos que o treinador deveria deixar seu cargo”, explica Pablo Alcaide, um dos responsáveis pelas categorias de base do CD Serrano. “Ele não soube lidar bem com a situação”, diz.

O advogado do técnico, Daniel Revenga, defende seu cliente: “Ele não incitou de nenhuma forma seus jogadores para que tentassem ampliar o marcador. Pelo contrário, disse que deixassem de pressionar no campo adversário. Mas o Benicalap C, que não possuía reservas, continuava atacando e deixava muitos espaços”, afirma.

Golear é respeitar?

No Brasil, muitos treinadores de base repetem o clichê de que jogar para frente e fazer o máximo possível de gols é um forma de demonstrar respeito ao adversário. E isso fica ainda mais claro nas competições. Maior torneio infantil do país, que reúne mais de 3.000 crianças e 200 times nacionais e estrangeiros, a Go Cup é disputada em campo reduzido e jogos de sete contra sete. Neste ano, o Palmeiras terminou a primeira fase da categoria sub-11 com saldo de 79 gols, incluindo goleadas de 14 x 0, 17 x 0, 18 x 0 e 21 x 0. A equipe foi eliminada na semifinal pelo Grêmio, que acabou campeão em cima do Benfica-POR. No mesmo torneio, porém em 2016, o Santos já havia goleado uma escolinha do PSG, com sede no Rio de Janeiro, por 24 x 1.

O que fazer quando existem tantas diferenças entre equipes em idade de formação? A derrota do Benicalap C, que terminou a temporada sem nenhum ponto e com 247 gols sofridos, foi grave, mas placares altos como esse não são incomuns. Vários clubes profissionais e federações procuram mecanismos para atenuar seus efeitos nas categorias mais novas. Mesmo que, como afirmam pessoas da Federação Valenciana de Futebol, nem todas as famílias entendam dessa forma: “Quando fazemos as listas dos artilheiros e dos goleiros menos vazados, recebemos ligações de pais todas as semanas dizendo que seu filho marcou quatro gols e não três”.

Na Espanha, a preocupação por essas goleadas exageradas existe e cada vez mais se tomam medidas para atenuar o problema. O Athletic Bilbao propôs recentemente que no instante em que uma das equipes superar os dez gols de diferença, os seguintes não apareçam na súmula. “Por nossa parte, não publicamos os nomes dos autores dos gols das partidas da categoria dente de leite”, afirma José María Amorrortu, diretor esportivo do Lezama.

A Real Sociedad também não publica os placares escandalosos. “O departamento de comunicação decidiu não informar sobre os resultados superiores a dez gols”, informa o clube. O Barcelona age da mesma forma: “Se existe muita diferença, a partir de dez gols deixamos de colocar o resultado no placar, ainda que depois apareça na súmula”.

No futebol, é preciso respeitar o rival e não humilhá-lo

No Bétis, o placar das partidas das categorias fraldinha e dente de leite é anulado quando o resultado chega a dez, e o clube pede aos jogadores que não comemorem os gols quando alcançam esse número: “Marcamos e retornamos ao meio de campo. No futebol, é preciso respeitar o rival e não humilhá-lo”, diz um dos responsáveis pelas categorias de base do clube andaluz.

Esses limites, porém, podem surtir um efeito contrário. “O respeito ao adversário se demonstra jogando o máximo até o fim do jogo”, afirma Jordi Lardín, responsável pelo futebol de base do Espanyol. “Ganhar de 25 x 0 é tão desrespeitoso quanto tentar enrolar o adversário e jogar a bola para fora”, diz Raúl Herrera, diretor do futebol de base do Villarreal.

No Barcelona, o que se diz é o seguinte: “A competição faz parte da formação. Não quero transmitir mensagens confusas. Não se pode dizer para eles pararem de fazer gols. Mas costumamos promover alterações para que o resultado não aumente demais, como, por exemplo, experimentar os jogadores em outras posições”. É o mesmo que se pensa no Valencia: “Trocamos os garotos que têm um nível mais alto, além de obrigá-los a dar mais passes e evitar o jogo individual”. No Villarreal, costuma-se introduzir para esses jogadores algumas dificuldades a mais, “como a de fazer com que joguem com a perna menos habilidosa”, conta Herrera.

Até o dia 3 de junho, o humilde CD Serranos tinha um método semelhante para o caso de jogos com resultados exagerados: “É difícil explicar para um menino, mas nós adotamos algumas medidas nesses casos, como a de eles terem de dar 11 ou 12 passes seguidos antes de chutar a gol”, diz Pablo Alcaide. O fato de seu técnico não ter seguido essa orientação, permitindo que o placar aumentasse até chegar a 25 x 0, acabou por lhe custar o emprego.

Com informações de Breiller Pires, Jordi Quixano, Juan I. Irigoyen, Rafael Pineda, Juan L. Cudeiro e Gorka Pérez.

Limites de vantagem no futebol e no basquete

Em outubro do ano passado, um jogo de futebol da categoria infantil em Coruña acabou em 25 x 0. O time vencedor pediu desculpas e admitiu que aquilo fora ruim tanto para quem ganhou quanto para quem perdeu. O fato acendeu o sinal de alerta e a Associação de Futebol galega fez uma reunião imediatamente. Ela foi dirigida por Santi Veiga, um de seus dirigentes, que conta que dali saiu uma série de orientações que a comissão de futebol de base da Federação Galega deverá começar a implementar em breve como experiência piloto. “Isso será feito com o pré-mirim, e a ideia é que não se registre na súmula uma diferença superior a sete gols. Além disso, o goleiro não será obrigado a dar o tiro de meta com o pé e não serão divulgados os nomes dos autores dos gols”, diz.

Esse tipo de limitação também chegou a outras modalidades. Os campeonatos da categoria mirim de basquete na Espanha, por exemplo, não permitem já há alguns anos diferenças superiores a 50 pontos. Quando isso ocorre, a contagem se encerra, embora o jogo continue. Algumas federações impuseram restrições ainda maiores. Nas Astúrias, onde se adotaram inicialmente os mesmos limites, a diferença máxima foi diminuída nesta temporada de 50 para 40 pontos. E vale para idades acima do mirim, todas elas, inclusive o infantil.

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