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Corrupção na PM

Crime no Rio de Janeiro: quando é o traficante quem entrega os policiais

Megaoperação policial, vendida como um sucesso, acaba revelando esquema de propinas entre PMs e criminosos

Um dos presos na ação da PM na Cidade Alta, no Rio.
Um dos presos na ação da PM na Cidade Alta, no Rio.

O desabafo de um narcotraficante após sua prisão tem ajudado a esclarecer alguns detalhes de um esquema de propinas entre policiais militares do Rio e a maior facção criminosa do Estado. Furioso por se sentir traído, Carlos Alberto de Assis Farias, vulgo Cachoeira, denunciou que um grupo de agentes do 16º Batalhão recebeu dinheiro para favorecer suas empreitadas criminosas. A revelação levou o Ministério Público do Rio a conseguir, nesta quinta-feira, a prisão e a quebra do sigilo bancário e fiscal de nove sargentos do Grupo de Ações Táticas Especiais, uma espécie de tropa de elite do batalhão.

O capítulo fundamental deste enredo aconteceu na madrugada de 2 de maio, quando um grupo de 100 homens do Comando Vermelho (CV) armados com fuzis entrou na favela da Cidade Alta, na zona norte do Rio, disposto a retomar a comunidade das mãos de uma facção rival, o Terceiro Comando Puro. A troca de tiros entre criminoso se sucedeu durante a madrugada até que, com o raiar do sol, um enorme contingente policial entrou na favela. A operação foi considerada um sucesso pela cúpula da Secretaria de Segurança Pública pois houve apenas dois mortos, 45 presos e 32 fuzis apreendidos. Todos, coincidentemente, do CV, que respondeu semeando o caos com a queima orquestrada de nove ônibus e dois caminhões em importantes vias da cidade. “Eu não me lembro, em 34 anos de polícia, uma operação pontual com tantas apreensões de armas de fogo desse porte”, disse o secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, na época.

O que esse narcotraficante revelou foi que parte do sucesso dessa operação policial se deveu a que 26 desses criminosos armados, incluindo ele, se entregaram pensando que tratavam com policiais amigos, aos quais pagaram em troca de facilitar sua tentativa de retomar o território, perdido a finais do ano passado. A Cidade Alta, uma comunidade formada por casas de tijolo e conjuntos habitacionais, é estratégica para os traficantes pela sua localização próxima de vias expressas.

Escondidos em uma casa de uma família da comunidade, esses 26 traficantes foram surpreendidos e cercados pela PM. Entre os agentes estava o subcomandante do 16º batalhão, o Major Alan de Luna Freire, que junto a outros policiais militares prestou depoimento no Ministério Público. O major ouviu de Cachoeira que estava insatisfeito com a presença de tantos policiais pois tinham frustrado seus planos de reconquista após investir tantas armas e homens na empreitada. Cachoeira, que reclamou de “ter tomado uma volta” dos agentes, disse que ele e seu grupo teriam pago uma quantia de dinheiro não revelada para o batalhão para facilitar a retomada da comunidade.

O Major quis saber mais. Pressionado, o traficante esclareceu que o acerto foi feito com “a equipe do dia seguinte” ou o “GATE do angolano”. Com a informação, o subcomandante foi verificar depois as escalas nas duas datas nas quais o Comando Vermelho tinha tentado invadir anteriormente a favela e descobriu uma enorme coincidência.

“A análise das escalas de serviço conferiu credibilidade ao discurso do traficante, uma vez que há perfeita coincidência entre as datas das invasões e a escala de serviço do batalhão [...] Os policiais militares ora investigados estavam sempre entrando de serviço nas manhãs seguintes aos ataques. Além disso, restou demonstrado que até mesmo a rendição de 26 dos presos em flagrante foi facilitada, justamente porque os traficantes acreditavam estar se entregando aos policiais com eles mancomunados”, relata o pedido de prisão dos promotores.

A importância de comprar a “equipe do dia seguinte” também foi explicada por Cachoeira. Segundo ele, a parte mais fácil da invasão seria à noite, quando uma ofensiva policial teria poucas chances de sucesso, mas as dificuldades para manter o cerco viriam ao amanhecer. Boa parte do exército de traficantes foi recrutado em outras comunidades e não conhecia a Cidade Alta, o que os deixava em desvantagem com a chegada de policiais conhecedores da região. “Cachoeira esclareceu que esse era o motivo pelo qual o GATE a ser corrompido era justamente aquele que entraria de serviço da manhã seguinte à invasão”, explicou ao MP o Capitão André Cabral. Os nove policiais presos na quinta-feira já haviam sido transferidos de batalhão após surgirem as suspeitas de corrupção, quatro dias depois da operação, mas não haviam sido nem afastados da corporação.

O acordo contemplava que os policiais chegariam com o blindado só para marcar a localização com o GPS, apreenderiam apenas um fuzil, e iriam embora em seguida para registrar a ocorrência. O aporte entregue aos policiais não foi revelado pelo traficante, pois teria sido negociado por um advogado da facção com os policiais.

Números do Gaeco, braço do Ministério Público dedicado à investigação e combate ao crime organizado e controle externo da atividade policial, revelam que depois dos traficantes, PMs e ex-PMs são os mais denunciados no Rio. Dos 4.082 investigados pelo órgão, de 2010 a março de 2017, 1.886 são traficantes e 563 são policiais ou já exerceram a função. Na sequência, policiais civis, com 150 agentes denunciados.

Um áudio comprometedor e um assassinato

A delação do traficante, que continuou reclamando da traição até quando estava sendo atendido no hospital, não é a única revelação que aponta práticas criminosas desses policiais. Dias depois da megaoperação, um áudio comprometedor começou a pipocar em grupos de WhatsApp. A gravação, feita em fevereiro, revelava o que parece uma conversa entre policiais e traficantes dentro de um blindado da corporação. A denúncia anônima que acompanhava o áudio aponta que os agentes estariam dando carona a integrantes de uma das facções que disputavam o território na Cidade Alta, sem que tenha sido esclarecido até agora a qual delas.

A possibilidade de que os policiais estariam se vendendo às duas facções foi reforçada com o recente esclarecimento do assassinato da líder comunitária Glória Maria dos Santos Mica. Glória foi morta em dezembro horas após se rebelar em uma reunião do conselho comunitário, onde além de comerciantes e demais representantes da Cidade Alta, havia policiais do 16º batalhão. Segundo a investigação da Polícia Civil, ela, que estaria associada ao Comando Vermelho, se negava a pagar propinas a policiais que davam apoio ao TCP e criticava a inação dos policiais para prenderem os novos donos da comunidade.

O assassinato de Glória se deu, segundo os investigadores, graças a uma cilada de um policial, o cabo Carlos José Costa Júnior, hoje preso e lotado na época no 16º batalhão. Depois da reunião, ela recebeu uma mensagem do policial para encontrá-lo, mas quando chegou ao local o PM estava num carro acompanhado de mais três homens, traficantes da comunidade. Dois deles atiraram contra ela até matá-la. Os traficantes iam fardados como policiais militares.

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