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Buquê, arroz e uma história de amor que já dura 30 anos

Miguel e Luiz ficaram amigos até que um ligou para o outro às 3 horas da manhã para admitir que a conexão era mais do que mera amizade

Dia dos Namorados 2017
Luiz (à esquerda) e Miguel.

"Eu era dançarino e fui para Porto Alegre certa vez para me apresentar. Estava andando pelas ruas da cidade quando um homem me viu, mas eu passei por ele sem perceber muito bem", lembra o cabeleireiro Luiz Carlos Sereno, 63. "Dois anos depois, em 1986, fui até um salão de cabeleireiro em São Paulo a trabalho e percebi que o cara que estava na recepção não parava de olhar pra mim. Quando eu disse que precisava ir embora porque meu voo para Porto Alegre sairia daqui a pouco, ele quase caiu para trás", conta Luiz, rindo. Ao dizer que era da capital gaúcha o então admirador logo fez as conexões e percebeu que estava diante do dançarino que vira nas ruas de Porto Alegre havia dois anos.

O homem que se lembrou de Luiz é o maquiador Miguel Sevilla Neto, 70. Eles ficaram amigos naquela  mesma hora, no salão de cabeleireiro. Encontravam-se sempre para conversar, mas "era só amizade", como conta Luiz. "Até o dia em que eu fui para uma balada e quando cheguei em casa, meu amigo com quem eu morava me disse que o Miguel havia ligado e pedido para que eu retornasse na hora que fosse", conta Luiz. "Só que eram três da manhã, fiquei super preocupado e liguei correndo". Do outro lado da linha, uma bronca. Miguel estava bravo porque o amigo havia sumido naquele dia. "Eu falei 'olha aqui, Miguel, nós não temos nada. Você tá a fim de mim?', e ele respondeu: 'o que é que você acha?". Ali, os dois começaram a namorar. E isso já faz 31 anos.

Mas antes que eles se conhecessem, a vida do casal deu muitas voltas. Embora soubesse que era gay desde a adolescência, ainda na adolescência Luiz se casou com uma namorada. Ele tinha 17, e ela, 19 anos. Juntos, tiveram um filho, mas que morreu poucos dias após o nascimento. A tragédia abalou o casal que se separou pouco tempo depois. Passados dois anos, o pai de Luiz adotou um filho e o batizou de Leonardo, em homenagem ao neto falecido.

Já ao lado de Miguel, o tema da paternidade rondou novamente os pensamentos de Luiz. O casal pensou em adotar filhos, mas acabou desistindo. "Estávamos em um momento de construir coisas", conta Luiz. "E agora não dá mais para adotar por causa da idade, né? Imagina ter um adolescente aos 70, 80 anos".

Quando eles se conheceram, o cabeleireiro estava em um relacionamento "conturbado" com um homem. E Miguel era viúvo de seu primeiro marido. "Hoje temos uma vida maravilhosa", conta Luiz. "Toda relação tem problemas, claro, mas vivemos muito bem", concorda Miguel. "Sou apaixonado por ele até hoje".

Há exatos três anos, Luiz e Miguel decidiram se casar no cartório. "Queríamos formalizar tudo", conta Luiz. "O casamento foi bárbaro", lembra Miguel. "Uma amiga chegou com um buquê na porta do cartório. Acharam que ela era a noiva e começaram a jogar arroz na gente. Foi uma festa", lembra Miguel. "As mulheres héteros são as maiores amigas e apoiadoras da nossa história".

Luiz (à esquerda) e Miguel.
Luiz (à esquerda) e Miguel.

Receita para uma vida longa a dois não existe. Mas ambos concordam que cumplicidade e companheirismo estão acima de tudo. "Já brigamos, mas nunca dissemos 'vou embora", conta Luiz. "Acho que o dia em que isso acontecer, é porque acabou mesmo". Miguel acha que o relacionamento homossexual é mais generoso com seus pares do que uma relação entre um homem e uma mulher. "O casamento hétero é mais individualista", diz Miguel. "Nós, não. Não tem meu e seu, a gente soma tudo".

Preconceito

O casal afirma não ter sido alvo de violência devido à orientação sexual, mas o preconceito é algo que permeia as histórias narradas por ambos. "Uma vez fui maquiar uma garota e ela me disse: 'você não se parece com um maquiador'. Eu falei que ela estava assistindo muita novela", conta Miguel. "A novela sempre retrata o gay daquele jeito caricato. É um absurdo".

Já Luiz se lembra de uma vez em que seu irmão mais novo, Leonardo, começou a chorar e o pai usou a situação para atacar Luiz. "O Leonardo devia ter uns três anos. Meu pai se irritou e disse para a empregada: 'manda ele parar de chorar. Esse eu vou criar como homem, não quero choradeira'. Fiquei um tempão sem ir na casa do meu pai depois disso".

Apesar das histórias, Luiz  diz acreditar que hoje o preconceito com homossexuais é maior do que quando ele era mais novo. "Quando éramos jovens, havia até um certo romantismo em torno da homossexualidade. Já hoje, estamos vivendo um retrocesso", diz.

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