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Curitiba tensa, com bloqueios e desvios de ônibus, recebe atos a favor e contra Lula

Integrantes do MST acampam em terreno à espera de mais apoiadores do ex-presidente

Movimentos de direita que respaldam a Lava Jato convocam vigília na cidade e pelo país

Lula depõe a Sérgio Moro
Partidários do ex-presidente Lula acampam em Curitiba. EFE

“A cidade em suspense”. A manchete do jornal Gazeta do Povo resumia nesta terça-feira a expectativa em Curitiba com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva. Nesta quarta-feira, o ex-presidente vai depor ao juiz Sergio Moro em uma das três ações que ele responde na Operação Lava Jato e o encontro é percebido como um face a face quase esportivo, potencialmente pugilístico, para o qual a cidade se prepara há semanas, incluindo a organização de um esquema que envolve agentes de várias forças de segurança, bloqueios de vias e até desvios de linha de ônibus.

A capital do Paraná, de dois milhões de habitantes, é considerada uma opositora histórica ao Partido dos Trabalhadores de Lula e, nos últimos anos, conhecida também pelo orgulho de sediar a Operação Lava Jato, uma força-tarefa de procuradores destinados a investigar um megaesquema de corrupção originado na Petrobras. Num arranjo raro no Judiciário brasileiro, o juiz paranaense Sérgio Moro está há mais desde 2014 dedicado exclusivamente a julgar os casos da operação, o que atraiu todos os holofotes para a cidade, lhe valendo a alcunha de "República de Curitiba". 

“Seja bem-vindo. A República de Curitiba te espera de grades abertas”, dizem os outdoors e cartazes em várias partes da cidade com um desenho de Lula na cadeia. Essa rejeição a Lula também é vista no abastado bairro do Bigorrilho, onde os moradores voltaram a pendurar bandeiras brasileiras nas janelas, como já haviam feito durante o processo de impeachment, para mostrar seu “patriotismo” e apoio ao juiz Moro. “Um caminhãozinho com várias bandeiras passou na rua pedindo pelo alto-falante para colocarmos as bandeiras na janela”, conta Maria Cecilia Sanchez. Fabricio, que passeia por uma rua do bairro, resume assim sua expectativa para o julgamento de Lula: “Que esse vagabundo seja preso”.

Por outro lado, vários movimentos de esquerda, organizados na Frente Brasil Popular, vieram à cidade apoiar Lula. Dezenas de pessoas acamparam perto da rodoviária depois que líderes de movimentos sociais negociaram com a prefeitura, que tentou proibir na Justiça qualquer aglomeração. Nesta terça, uma nova ordem judicial restringiu o uso do terreno, ainda sem efeito prático até a conclusão desta reportagem. “Eles têm de provar algo contra Lula. Até agora só têm delações e suposições, mas não têm provas”, diz a professora e sindicalista Irene Longhi, de 65 anos. “Nosso povo quer democracia e a verdade”, diz ela, que saiu do Rio Grande do Sul para participar do acampamento e dos atos a favor de Lula. Ao seu lado, a agricultora Fátima Aparecida, de 61 anos e membro do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), espera que Lula “seja absolvido” e “volte a ser presidente em 2018”. Já Julia de Figueira, que leva nas costas uma bandeira do PT, é taxativa: "Este partido mudou a vida de milhões de brasileiros. Este juiz não tem moral de julgar o PT".

Os dois grupos – os que apoiam Lula e os que apoiam Moro – prometeram se manifestar diante do da Justiça Federal do Paraná, onde despacha o juiz Moro, na avenida Anita Garibaldi. No entanto, as autoridades decidiram fechar as ruas ao redor do tribunal nesta quarta-feira para evitar que as duas manifestações se encontrem. A imprensa e os moradores do bairro terão de se identificar para ter acesso a essas ruas, enquanto muitos comerciantes fecharão seus estabelecimentos.

Acampamento do MST em apoio a Lula, em Curitiba.
Acampamento do MST em apoio a Lula, em Curitiba. REUTERS

Se o ex-presidente Lula não deixa de se apresentar como perseguido político e ligar a ação como uma forma de impedi-lo de voltar a se candidatar, do outro lado, o juiz Sérgio Moro tampouco resistiu à tentação de falar a seus apoiadores via redes sociais. Em vídeo na página do Facebook Eu MORO com Moro, administrada por sua mulher, o juiz pediu àqueles que apoiam a Lava Jato que não façam protestos — não foi atendido. Depois, o juiz lembraria em uma conferência nesta segunda-feira que um “juiz imparcial” deve julgar e não ser um dos lados da luta política.

Os manifestantes dos dois lados se mobilizarão no centro da cidade, mas em lugares diferentes. Na praça Santos Andrade, diante do edifício histórico da Universidade Federal do Paraná, onde na terça-feira foi montado um palco, estarão os partidários de Lula. Especula-se que o ex-presidente faça um discurso durante a tarde. A poucos minutos dali, na praça Nossa Senhora Salete, entre a Prefeitura e o palácio do Governo, estarão os que apoiam Moro. "Eu só torço para que cada um defenda seus ideais sem algazarras e problemas sérios. O importante é isso", resumiu um apreensivo taxista.

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