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OPINIÃO

O déjà vu europeu

A UE deve se livrar da dependência dos burocratas e atualizar seu ideário político e moral

O presidente russo Vladimir Putin AP

Vivemos em um mundo surpreendente e inesperado. A Europa, o continente que iluminou a civilização ocidental, repete ciclicamente um padrão de conduta, apesar de seus enormes custos. A Holanda acaba de ir às ruas em peso para participar de uma eleição histórica, impedindo a onda populista e xenófoba de Geert Wilders. Mas a eleição holandesa mostrou que a Europa é obrigada a reconhecer que seu modelo tem graves problemas: perda de valores, contradições morais e esse império de burocratas que a governam e que colocaram em perigo o ideal que iluminou o caminho europeu desde a Segunda Guerra Mundial.

A extrema direita, por um lado, os novos populismos, por outro, e líderes como Marine Le Pen na França, Matteo Salvini e Beppe Grillo na Itália e Pablo Iglesias na Espanha deixam esse momento ainda pior, não só pela crise no Velho Continente, mas pelo movimento de ação e reação que ocorre nas entranhas da cultura ocidental e que traz os piores presságios. O Estado Islâmico, com sua destruição de vidas, patrimônios culturais e esperanças e o retorno da selvageria com invenções como o chamado islamofascismo tentam separar os muçulmanos europeus. Mas se trata de um pretexto, como os judeus o foram para a Alemanha e antes para a França e a Espanha que, no final, terminou no antissemitismo militante de hoje.

A Europa, tal como foi sonhada, acabou. Ela se transformou no templo de burocratas que, como resultado do domínio e do poderio alemão, deixaram morrer o sonho europeu em meio a programas de austeridade selvagens que não respeitaram o componente multinacional. Agora, os efeitos da crise e o fato de se precisar prestar contas a Mario Draghi, que deve consertar como banqueiro público o que destroçou como banqueiro privado no Goldman Sachs, criam situações como a bancarrota grega e causam paradoxos que, na época das redes sociais, provocam um repúdio generalizado à política, sem distinção. Já não estamos nos tempos da marcha dos camisas negras sobre Roma e também não se ouve “o amanhã nos pertence” das juventudes hitlerianas, mas estamos em uma época em que a Europa foi abandonada pelos Estados Unidos. Como se não fosse o suficiente, sofre uma implosão e padece a luta selvagem entre impérios que foi uma constante em sua história.

Para ser bem-sucedida, a Europa deve sacrificar o domínio alemão, livrando-se da dependência dos burocratas

Nesse contexto, o papel preeminente da Rússia, pelo menos como foco de conflito, e a posição da Turquia cujo presidente, Recep Tayyip Erdogan, sonha com o Império Otomano, que controlou e instrumentalizou o mundo árabe durante 600 anos, são outros fatores que precipitam ainda mais a crise. Quanto Moscou interveio na campanha eleitoral da Holanda? Quanto intervirá na França e na Itália? Porque, ao fazê-lo, pode causar uma desestabilização como aconteceu nos próprios Estados Unidos. Não estamos somente diante do final de um modelo econômico e social, mas diante de uma lembrança da história e do regresso dos cruzados que agora entram não em Jerusalém, mas defendem nas ruas de Amsterdã, Roma, Paris e Berlim a pureza de um sistema que agoniza e que é atacado pelos extremistas muçulmanos. É evidente para qualquer observador que, ao final desse ano, a possibilidade de se governar do centro diminui, mesmo que seja claro que a crise da União Europeia provocará uma redefinição do papel individual de cada país que, minimamente, causará uma reformulação de seu pertencimento ao clube e até mesmo a ruptura como fizeram os britânicos.

Mas nem tudo está perdido, a Europa pode evitar o déjà vu, mas para ser bem-sucedida deve reconhecer e agir, sacrificando o domínio alemão, livrando-se da dependência dos burocratas e atualizando seu ideário político e moral que, entre outros aspectos, deve responder a perguntas que agora não têm respostas e que levam ao voto em personagens como Trump e seus epígonos europeus.